{"id":249880,"date":"2022-11-11T11:43:29","date_gmt":"2022-11-11T10:43:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=249880"},"modified":"2022-11-11T11:43:29","modified_gmt":"2022-11-11T10:43:29","slug":"opiniao-quanto-tempo-o-tempo-tem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-quanto-tempo-o-tempo-tem\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Quanto tempo o tempo tem"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248923\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Conta-se que, encontrando-se com Deus, um homem perguntou-lhe: \u201c\u00d3 Deus, \u00e9 verdade que para ti um milh\u00e3o de anos equivale a um segundo e um segundo equivale a um milh\u00e3o de anos?\u201d. Deus confirmou: \u201cAssim \u00e9\u201d. O homem prosseguiu: \u201cE um milh\u00e3o de euros \u00e9 como se fosse um c\u00eantimo e um c\u00eantimo \u00e9 como se fosse um milh\u00e3o de euros?\u201d. Deus retorquiu: \u201cAssim \u00e9\u201d. O homem ent\u00e3o, desnovelando o enigma, pediu: \u201cEnt\u00e3o, arranja-me a\u00ed um milh\u00e3o de euros\u201d. Ao que Deus respondeu: \u201cAguenta s\u00f3 um segundo\u201d.<br \/>\nA no\u00e7\u00e3o de tempo \u00e9 diferente para cada um de n\u00f3s. Quanto tempo leva o \u00faltimo minuto de jogo para a equipa \u00e0 procura de marcar um golo nos derradeiros instantes? E para a equipa que, em sufoco, luta por defender o resultado? Por isso, h\u00e1 quem defenda que tempo \u00e9 o que contabilizamos para cada coisa que ocorre. E h\u00e1 tamb\u00e9m quem sustente que o tempo n\u00e3o passa de uma inven\u00e7\u00e3o do Homem. De certa forma, temos de reconhecer que h\u00e1 alguma l\u00f3gica nessa proposi\u00e7\u00e3o, porque se o Homem n\u00e3o existisse, que sentido teria o tempo?<br \/>\nAinda que o tempo exista, \u00e9 comum dizermos que n\u00e3o temos tempo. Isto coloca-nos num dilema: O que \u00e9 o tempo? Como dizia Santo Agostinho ( 354 \u2013 430 ), se ningu\u00e9m me perguntar, eu sei; por\u00e9m, se o quiser explicar, j\u00e1 n\u00e3o sei.\u201d<br \/>\nProponho, por isso, que partamos \u00e0 procura do tempo. As primeiras civiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o sabiam medi-lo. Constatavam a mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00f5es, o cair da noite, ou o raiar do dia. Foram os babil\u00f3nios, que viveram entre 1950 a.C. e 539 a.C., os primeiros a marcar a passagem do tempo. Ao constru\u00edrem o rel\u00f3gio de sol, dividiram o dia em 12 partes e depois em 24, que s\u00e3o as horas que usamos at\u00e9 hoje. Contudo, demorou muito tempo at\u00e9 algu\u00e9m medir o tempo com precis\u00e3o. O rel\u00f3gio mec\u00e2nico s\u00f3 surgiu no s\u00e9culo XIV e atrasava 15 minutos por dia, ou seja, um dia a cada tr\u00eas meses! Em 1656, com o rel\u00f3gio de p\u00eandulo, o atraso diminuiu para um minuto por semana. A partir de 1967, o Sistema Internacional de Unidades definiu a dura\u00e7\u00e3o do segundo com base na radia\u00e7\u00e3o do \u00e1tomo de c\u00e9sio 133.<br \/>\nPor isso, o rel\u00f3gio \u00e9, para muitos \u2013 para mim tamb\u00e9m \u2013, a maior inven\u00e7\u00e3o do tempo moderno. \u00c9 a inven\u00e7\u00e3o que verdadeiramente revolucionou a nossa forma de viver como nunca antes tinha acontecido. Hoje temos uma infinidade de m\u00e1quinas que nos ajudam a administrar o nosso tempo. Elas s\u00e3o, no fundo, m\u00e1quinas de poupar tempo, como o telefone, a bimbi, o avi\u00e3o&#8230; Mas h\u00e1 tamb\u00e9m m\u00e1quinas de programar o tempo, como os despertadores, os cron\u00f3metros, as agendas eletr\u00f3nicas&#8230;<br \/>\nTemos de perguntar, todavia, por que continuamos permanentemente neste estado pat\u00e9tico, de urg\u00eancia em urg\u00eancia. Qual o motivo pelo qual a velocidade tomou conta da sociedade, for\u00e7ando tamb\u00e9m o pensamento a acelerar? Que sentido tem exibirmos como um trof\u00e9u as crian\u00e7as que aprendem a ler ainda antes de entrarem para a escola?<br \/>\nA verdade \u00e9 que, mal nascemos, inicia-se uma contagem decrescente e deveras angustiante. O futuro aguarda-nos em suspense. Mas de novo voltamos a uma das maiores ambiguidades da humanidade. O futuro nunca chega, o passado n\u00e3o existe, e o presente \u00e9 apenas um instante. Mas, veja-se, o presente s\u00f3 \u00e9 tempo enquanto n\u00e3o cessa de se anular. Se s\u00f3 existe o presente, temos dificuldade em capt\u00e1-lo, pois ele n\u00e3o passa de um \u00ednfimo instante. Santo Agostinho trouxe uma posi\u00e7\u00e3o curiosa sobre este tema, dizendo que \u201c\u00e9 impr\u00f3prio afirmar que os tempos do tempo s\u00e3o o passado, o presente e o futuro. Mais adequado seria dizer que os tempos s\u00e3o o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, e o presente das coisas futuras.\u201d<br \/>\nA urg\u00eancia desconstr\u00f3i a no\u00e7\u00e3o convencional de tempo. E isso gera, naturalmente, ansiedade. A cada ano s\u00e3o apresentados novos recordes de venda de ansiol\u00edticos. Que vida \u00e9 esta em que, ainda antes de acordarmos, j\u00e1 temos dezenas de e-mails e de mensagens \u00e0 espera de resposta? E quando demoramos mais um pouco a responder, ou mesmo se n\u00e3o respondermos no imediato, passamos a ser tomados por indelicados, pois n\u00e3o estamos no padr\u00e3o que \u00e9 esperado pela sociedade da urg\u00eancia.<br \/>\nVivemos ansiosos pela pr\u00f3xima not\u00edcia, que est\u00e1 a pirilampiscar no telem\u00f3vel. Partilhamos a nossa privacidade nas redes sociais. J\u00e1 n\u00e3o nos desligamos. J\u00e1 n\u00e3o estamos online nem offline. Estamos onlife. E isso desmembra a nossa identidade. Desvia-nos do nosso oriente. \u00c9 uma desorienta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO tempo, em vez de nos conceder um aprofundamento e um maior autoconhecimento, gera distra\u00e7\u00f5es, dorm\u00eancia, estado de anestesia permanente. Desumaniza-nos.<br \/>\nPela minha parte, desculpe o tempo que lhe fiz perder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Paix\u00e3o<br \/>\nInvestigador em comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":248923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[455,100],"class_list":["post-249880","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-bruno-paixao","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=249880"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249880\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=249880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=249880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=249880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}