{"id":249934,"date":"2022-11-12T12:34:07","date_gmt":"2022-11-12T11:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=249934"},"modified":"2022-11-12T12:34:07","modified_gmt":"2022-11-12T11:34:07","slug":"encontrar-a-felicidade-na-melancolia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/encontrar-a-felicidade-na-melancolia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Encontrar a felicidade na melancolia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-207224 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\"\/><\/a><\/p>\n<p>Na \u00abAnatomia da Melancolia\u00bb, de 1631, o escritor ingl\u00eas Robert Burton lan\u00e7ou as bases para entender os estados depressivos, dos quais, ali\u00e1s, ele pr\u00f3prio padecia. Acreditava que a causa principal desse mal estaria na ociosidade, no que acompanhava aquilo que, sensivelmente pela mesma \u00e9poca, escreviam os tratadistas de arte militar empenhados em evitar estados de esp\u00edrito que prostrassem os soldados e os afastassem da firmeza necess\u00e1ria na guerra. Declararam repetidamente esses autores que a melhor forma de manter os homens em estado de prontid\u00e3o para o combate seria impedi-los de pensar em excesso na sua vida e no seu desgra\u00e7ado destino. A imposi\u00e7\u00e3o de tarefas constantes e severas que os ocupassem o tempo todo seria a melhor forma de os preservar desse mal inibidor da capacidade para agir.<\/p>\n<p>Sabe-se hoje que a associa\u00e7\u00e3o entre depress\u00e3o e melancolia \u00e9 abusiva, j\u00e1 que esta pode tamb\u00e9m induzir um desejo de a\u00e7\u00e3o. No final do s\u00e9culo XV o humanista Mars\u00edlio Ficino considerou que ela poderia at\u00e9 ser um catalisador do g\u00e9nio, e o romantismo, como seria de esperar, alimentou a ideia. Victor Hugo entendia que a melancolia era ao mesmo tempo \u00abum crep\u00fasculo\u00bb e uma express\u00e3o da \u00abfelicidade de ser triste\u00bb, enquanto, em \u00abO Vermelho e o Negro\u00bb, Stendhal insistiu, na carateriza\u00e7\u00e3o de Julien Sorel, o seu her\u00f3i, que este se aborrecia no meio dos prazeres porque, para ele, s\u00f3 o que custava obter tinha valor. O \u00abmal do s\u00e9culo\u00bb rom\u00e2ntico traduziu, na verdade, um estado de aborrecimento e de desilus\u00e3o devastadoramente triste, mas que n\u00e3o levava \u00e0 passividade, antes empurrando o indiv\u00edduo para a rebeli\u00e3o contra uma ordem do mundo julgada imperfeita.<\/p>\n<p>Foi esta perce\u00e7\u00e3o que alimentou, durante boa parte do s\u00e9culo XX, um certo culto da atitude melanc\u00f3lica e da sua express\u00e3o cultural, acompanhando-as de uma aur\u00e9ola que as associava \u00e0 vontade de agir em favor da transforma\u00e7\u00e3o da vida pessoal e coletiva. V\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es partilharam essa disposi\u00e7\u00e3o, ainda percet\u00edvel, no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, no comportamento ao mesmo tempo rebelde e entediado dos membros da Gera\u00e7\u00e3o Beat ou dos seguidores do existencialismo franc\u00eas. Olhamos fotografias dos seus ambientes e detetamos as marcas de uma tristeza apraz\u00edvel, pr\u00f3pria de quem fazia da reflex\u00e3o uma forma de estar. \u00abAdieu tristesse, Bonjour tristesse.\u00bb, dois versos de um poema de Paul \u00c9luard que inspiraria a obra-prima de Fran\u00e7oise Sagan, cont\u00e9m esse cunho de um amor partilhado no conv\u00edvio di\u00e1rio com uma tristeza feliz. E Camus insistiu na dimens\u00e3o solar que esta det\u00e9m, nela situando a ess\u00eancia de uma frui\u00e7\u00e3o plena do mundo.<\/p>\n<p>Todavia, algo mudou nas \u00faltimas d\u00e9cadas, invertendo esta escolha. Num tempo pautado, nas palavras de Pascal Bruckner, por uma \u00abeuforia perp\u00e9tua\u00bb, o \u00abdever da felicidade\u00bb liga-se a uma imag\u00e9tica, pr\u00f3xima do conceito de \u00abalegria\u00bb vindo do senso comum, que a deve sinalizar. Nas sociedades da abund\u00e2ncia, mais do que ser-se realmente feliz, deve-se sobretudo parec\u00ea-lo, exibindo as marcas convencionais e fugazes da felicidade: sorriso aberto, polegar ao alto, brados ou saltos de j\u00fabilo, simulando viver num imenso parque de divers\u00f5es. \u00c9 o que vemos na voga das \u00abselfies\u00bb, povoadas de alegria artificial e satisfa\u00e7\u00e3o encenada.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo social Eric G. Wilson ergueu-se contra esta alegria permanente e fabricada, considerando-a uma esp\u00e9cie de Prozac para os c\u00e9rebros, um antidepressivo inibidor da criatividade e do prazer de um genu\u00edno j\u00fabilo, bem como desse momento m\u00e1gico e inesquec\u00edvel de \u00abdescobrir a alegria na escurid\u00e3o\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano &#8211; Historiados, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207224,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[10781,10782,10783,547],"class_list":["post-249934","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-camus","tag-marsilio-ficino","tag-robert-burton","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249934","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=249934"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249934\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=249934"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=249934"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=249934"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}