{"id":251282,"date":"2022-12-03T10:52:46","date_gmt":"2022-12-03T10:52:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=251282"},"modified":"2022-12-03T10:52:46","modified_gmt":"2022-12-03T10:52:46","slug":"opiniao-sinais-de-alarme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-sinais-de-alarme\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Sinais de alarme"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-209691\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tinha seis anos quando comecei a ir sozinho para a escola. Apanhava o (el\u00e9trico) 4 na Conchada e sa\u00eda em Montes Claros. Na longa volta do regresso a casa, entre Montes Claros e a Conchada (passando pela Baixa), o 4-Cruz-de-Celas passava numa parede que j\u00e1 n\u00e3o existe, onde uma pichagem declarava em letras garrafais, enquadradas por uma cruz c\u00e9ltica mal-amanhada, \u201cBasta-nos! Fora com os comunistas\u201d. Aos seis anos eu j\u00e1 sabia ler (sou letrado da Cartilha Maternal). Compreendia o significado de \u201cbasta-nos\u201d e de \u201cfora com os\u201d, mas o voc\u00e1bulo \u201ccomunistas\u201d n\u00e3o era coisa que o Jo\u00e3o de Deus nos ensinasse.<br \/>\nNuma cidade despida de an\u00fancios e de cartazes, em que a literatura de caminho se reduzia \u00e0s tabuletas das lojas e das institui\u00e7\u00f5es por onde o 4 passava (recordo com saudade as mai\u00fasculas do Teatro Avenida), aquele \u201cbasta-nos! Fora com os comunistas\u201d tinha o significado de uma manchete no jornal do meu percurso di\u00e1rio. Intrigava-me. Por aqueles dias, em resposta \u00e0 minha d\u00favida, o meu pai desvendaria o mist\u00e9rio, com as cautelas que o tempo fascista impunha, e a explica\u00e7\u00e3o virou do avesso a minha natural benevol\u00eancia para com uma frase que n\u00e3o entendia. Os tais \u201ccomunistas\u201d eram, afinal, o meu vizinho Santos Ventosa, o Manuel Sim\u00f5es que era poeta, o Fernando Ant\u00f3nio que se escondeu l\u00e1 em casa antes do \u201csalto\u201d para Argel, o V\u00edtor Costa e a Nina, o Vila\u00e7a e a Nat\u00e9rcia, o Lu\u00eds Carlos, a Cristina, o Jo\u00e3o Vilar do TEUC, o velho Gomes, o Hor\u00e1cio Leit\u00e3o, o Raul de Sousa, o Jorge Seabra, o Deniz-Jacinto \u2013 tudo gente valorosa, trabalhadora, imerecedora de \u201cbastas\u201d e menos ainda de \u201cforas\u201d naquela Coimbra dos anos de 1970. \u201cOs comunistas\u201d da pichagem eram, afinal, os ativistas que eu conhecia do Ateneu de Coimbra, um lugar de democracia cultural que me revelou o \u201cGaroto de Charlot\u201d e \u201cMel, Pastel e um Boneco de Papel\u201d, o espa\u00e7o fraternal que abria as portas de um posto m\u00e9dico militante que anunciava j\u00e1 um SNS para todos.<br \/>\nVem esta fala\u00e7\u00e3o a prop\u00f3sito dos trabalhos de reescrita da Hist\u00f3ria, destinados a equiparar o comunismo ao fascismo. Desde o Parlamento de uma Europa em acelerada deriva de direita, ao insistente coment\u00e1rio televisivo, a tese \u00e9 apresentada como verdade absoluta.<br \/>\nPara isso apagam-se dos \u201cismos\u201d os humanos que por elas responderam e respondem, associando ao h\u00e1bil procedimento palavras como \u201cliberdade\u201d ou \u201cdemocracia\u201d destitu\u00eddas, por sua vez, da ess\u00eancia emancipadora e da mem\u00f3ria hist\u00f3rica que as fez bandeira de luta e raz\u00e3o de entrega, \u00e0s vezes da pr\u00f3pria vida. Se apenas nos cing\u00edssemos ao espa\u00e7o de Portugal, e ao setor das artes e das ideias, \u201cos comunistas\u201d daquela pichagem chamavam-se Adriano Correia de Oliveira, \u00c1lvaro Cunhal, Carlos Paredes, Lopes-Gra\u00e7a, M\u00e1rio Sacramento, Pires Jorge, Lous\u00e3 Henriques \u2013 s\u00f3 para citar alguns daqueles que t\u00eam liga\u00e7\u00e3o a esta Coimbra. Nomes que permitem, neste pequeno territ\u00f3rio, desmontar a acusa\u00e7\u00e3o de uma equival\u00eancia que, insultuosa, visa t\u00e3o-s\u00f3 a absolvi\u00e7\u00e3o do fascismo atrav\u00e9s da desmemoria\u00e7\u00e3o. Venha, pois, quem aqui consiga debitar um par de nomes de \u201cequivalentes\u201d fascistas portugueses que tenham, de algum modo, acrescentado felicidade e luz \u00e0 nossa exist\u00eancia coletiva. E, olhando mais longe, venha quem consiga encontrar na Hist\u00f3ria recente fascistas \u201cequivalentes\u201d a Pablo Picasso, Paul \u00c9luard, Vladimir Maiakovsky, Victor Jara, Oscar Niemeyer, os perseguidos pelo Mackartismo nos EUA, Pasolini, Frida Khalo, Luigi Nono, Bertold Brecht.<br \/>\nA Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 isenta de controv\u00e9rsia, e a discuss\u00e3o dos destinos dos humanos, e os factos que lhes est\u00e3o associados, n\u00e3o t\u00eam estado isentos de viol\u00eancia. Por haver exist\u00eancias que n\u00e3o se comparam, uns analisam com cuidado a Hist\u00f3ria e tomam medidas para que os desastres n\u00e3o se repitam. Outros n\u00e3o \u2013 \u00e9 que a viol\u00eancia que nuns \u00e9 mancha, noutros \u00e9 ess\u00eancia. Quando o presidente da \u201ccomunit\u00e1ria\u201d Pol\u00f3nia de Auschwitz se curva perante a est\u00e1tua do colaboracionista nazi Stepan Bandera, quando a extrema-direita xen\u00f3foba e neoliberal \u00e9 promovida em dilatado tempo de antena, quando os lucros dos poderosos crescem ao ritmo do empobrecimento desesperado dos desvalidos, os sinais s\u00f3 podem ser de alarme. Porque na \u201cequival\u00eancia\u201d que se alardeia, ontem como hoje, os sabotadores da Civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o os cultores e os benefici\u00e1rios do lado da cruz gamada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha<br \/>\nDocente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-251282","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251282"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251282\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}