{"id":251364,"date":"2022-12-05T10:41:20","date_gmt":"2022-12-05T10:41:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=251364"},"modified":"2022-12-05T10:41:20","modified_gmt":"2022-12-05T10:41:20","slug":"opiniao-de-beethoven-ao-cordeiro-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-de-beethoven-ao-cordeiro-de-deus\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: De Beethoven ao Cordeiro de Deus"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Rui-Cesar-Vilao-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-249552 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Rui-Cesar-Vilao-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Hino da Europa, como se sabe, \u00e9 baseado no prel\u00fadio do quarto andamento da nona sinfonia de Beethoven. Esta obra prima, cuja import\u00e2ncia extravasa muito os limites da arte musical, \u00e9 coroada com o tratamento coral da Ode \u00e0 Alegria de Schiller (\u201c\u00d3 alegria, bela centelha de divindade, (\u2026 ) Todos os homens se tornam irm\u00e3os por onde passa o teu voo gentil.\u201d) A apresenta\u00e7\u00e3o do texto schilleriano \u00e9 precedida de uma longa introdu\u00e7\u00e3o orquestral, interrompida pela voz do solista, que profere palavras escritas pelo pr\u00f3prio Beethoven \u201cAmigos, n\u00e3o estes sons! Apresentemos antes outros mais agrad\u00e1veis e alegres!\u201d Muito se tem escrito sobre o significado destas misteriosas palavras do punho do compositor, em que Wagner e Nietzche viam a rejei\u00e7\u00e3o de est\u00e9ticas antigas e o surgir da obra de arte do futuro.<br \/>\nEstas aprecia\u00e7\u00f5es tendem a minimizar um ponto bem conhecido: a melodia do \u201chino da alegria\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas bem conhecida hoje, mas j\u00e1 no tempo de Beethoven o era, pois o compositor praticamente a decalca de uma melodia gregoriana registada pelo menos desde o s\u00e9culo IX e utilizada na liturgia da Virgem Santa Maria. Trata-se de uma melodia em resposta \u00e0 s\u00faplica lit\u00e2nica ao Cordeiro de Deus: \u201cMiserere nobis. Dona nobis pacem.\u201d (Tem piedade de n\u00f3s. D\u00e1-nos a paz.) O compositor e os seus contempor\u00e2neos ter\u00e3o ouvido esta melodia milhares de vezes, cantada como uma tristonha lenga-lenga. Os sons rejeitados por Beethoven, antes convocando outros mais agrad\u00e1veis e alegres, mais direta e imediatamente se relacionam assim com os de uma religi\u00e3o que rejeita a alegria, essa \u201cbela centelha de divindade\u201d, nas palavras de Schiller. Beethoven parece estar assim em resson\u00e2ncia com as palavras atribu\u00eddas a Santa Teresa de \u00c1vila: \u201cum santo triste \u00e9 um triste santo\u201d.<br \/>\nA nona sinfonia foi composta praticamente em simult\u00e2neo com outra obra-prima, que o pr\u00f3prio compositor considerava a sua melhor obra: a Missa Solene, pela qual empreendeu um estudo exaustivo das formas musicais precedentes. A litania ao Cordeiro de Deus, que encerra, como de h\u00e1bito, o tratamento musical da missa, permite perceber um pouco melhor o entendimento de Beethoven sobre a verdadeira alegria. Beethoven inicia o Cordeiro de Deus de forma soturna e lamentosa, evoluindo as s\u00faplicas at\u00e9 \u00e0 primeira apresenta\u00e7\u00e3o do pedido \u201cD\u00e1-nos a paz\u201d, assinalada pelo compositor com as palavras \u201cBitte um innern und aussern Frieden\u201d (\u201cOra\u00e7\u00e3o pela paz interior e exterior\u201d). Contudo, esta prece pela paz \u00e9 interrompida por m\u00fasica inequivocamente militar, que faz reaparecer, de forma aterrorizada, as s\u00faplicas \u201cTem piedade de n\u00f3s!\u201d. \u00c9 preciso um esfor\u00e7o grande para retomar a ora\u00e7\u00e3o pela paz, que conclui em clima de serena esperan\u00e7a.<br \/>\nEstas duas pe\u00e7as cimeiras da m\u00fasica ocidental s\u00e3o assim complementares, tamb\u00e9m na profunda mensagem espiritual de que est\u00e3o imbu\u00eddas: a alegria convocada na 9\u00aa sinfonia \u00e9 insepar\u00e1vel da fraternidade humana em que assenta. Mas a paz \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para alcan\u00e7ar essa fraternidade e essa alegria. O compositor reconduz-nos \u00e0 necessidade de reencontrar a paz \u201cinterior e exterior\u201d. N\u00e3o espanta assim que uma das mais paradoxais interpreta\u00e7\u00f5es da 9\u00aa Sinfonia tenha sido gravada pela Orquestra Filarm\u00f3nica de Berlim, em 1942, dirigida por Wilhelm Furtw\u00e4ngler (ainda hoje um int\u00e9rprete beethoveniano de refer\u00eancia). No meio da guerra que ent\u00e3o decorria (e que o insigne m\u00fasico acompanhava com uma guerra interior descrita pelo cineasta h\u00fangaro Istv\u00e1n Szab\u00f3 no filme \u201cTaking Sides\u201d), o coro bem profere o texto da alegria, mas a \u00fanica coisa que parece ouvir-se \u00e9 \u201cMiserere nobis! Dona nobis pacem!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui C\u00e9sar Vil\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":249552,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,101],"class_list":["post-251364","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-rui-cesar-vilao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251364","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251364\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}