{"id":251663,"date":"2022-12-09T11:03:40","date_gmt":"2022-12-09T11:03:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=251663"},"modified":"2022-12-09T11:03:40","modified_gmt":"2022-12-09T11:03:40","slug":"opiniao-hamburguesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-hamburguesia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Hamburguesia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-248923 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Era uma vez um homem que tinha quase tudo o que de suficiente a vida podia oferecer-lhe. Contudo, insatisfeito, o homem come\u00e7ou a lamuriar-se por n\u00e3o ser rico, por n\u00e3o ter uma casa com muitos quartos, por n\u00e3o ter um carro com chauffeur. Ao passar pelo mais requintado restaurante da cidade, atirou os olhos muito l\u00e1 para dentro. Mais olhos que barriga. Invejou o servi\u00e7o, as luzes, o guardanapo branco preso ao pesco\u00e7o dos comensais e aquele ar solene que s\u00f3 quem tem muito consegue p\u00f4r.<br \/>\nO homem, que tinha quase tudo o que de suficiente a vida podia oferecer-lhe, achou-se pobre. Como se at\u00e9 a\u00ed tudo no seu bolso fosse um sumi\u00e7o. Come\u00e7ou a deitar press\u00e1gios \u00e0 vida desgra\u00e7ada que tinha. Foi para casa e, antes de deitar-se, fez uma prece.<br \/>\nNa manh\u00e3 seguinte tinha um papel debaixo da porta propondo-lhe a mudan\u00e7a de vida. Ele n\u00e3o hesitou. Passou a ter, todos os dias, debaixo da mesma porta, um envelope cheio de dinheiro. Ele n\u00e3o queria saber de onde vinha, n\u00e3o andava atr\u00e1s de explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO homem que desejava ser rico come\u00e7ou a ir todos os dias ao restaurante. Havia at\u00e9 uma mesa sempre reservada para si, no centro da sala, por baixo do candeeiro de lustre, que o pr\u00f3prio gerente lhe havia atribu\u00eddo. Chamavam-lhe Senhor e seguravam-lhe no chap\u00e9u. O porteiro estendia a m\u00e3o e ele, tomando jeitos, colocava nela o sobretudo. Anafadamente, cabe\u00e7a lisa como um cotovelo, seguia de nariz espetado \u00e0 frente dos olhos, copiando express\u00f5es de enfado que via fazer aos outros. Puxava para si a cadeira e, nas sozinhezas da mesa, mandava vir o habitual hamb\u00farguer. Era ent\u00e3o um regalo v\u00ea-lo hamburguesar-se. De guardanapo atado ao pesco\u00e7o, mangas excedent\u00e1rias por fora do casaco, concisas palavras, apenas fazendo reparos aos istos e aos aquilos.<br \/>\nO homem deixou de trabalhar. Ali\u00e1s, passou a considerar que trabalhar era uma forma terr\u00edvel de ganhar a vida. Certa vez foi chamado ao telefone. Era o homem do banco. Perguntou-lhe se estava tudo bem com o dinheiro que lhe enviava. Mas que agora era tempo de o devolver, com juros. O homem vertia-se em desculpas. Rechonchoroso, disse que n\u00e3o sabia que o dinheiro era do banco. \u201cDe quem mais podia ser?\u201d, ouviu do outro lado da linha. O homem havia feito um pacto escorpi\u00f3nico com o dinheiro: tomara-lhe o gosto, jurara-lhe devo\u00e7\u00e3o. Todavia, depois de acomodado, o dinheiro encarregar-se-ia de o converter em escravo de pagamentos, de prova\u00e7\u00f5es, de noites em branco, de infelicidade.<br \/>\nMatutando sobre como pagar, o homem olhou-se ao espelho e n\u00e3o se viu. Viu outro. Procurou-se nos refegos da cara, muito empan\u00e7ado. Voltou ao restaurante, n\u00e3o para comer mas para espreitar. Curiosamente n\u00e3o encontrou as caras de sempre. \u201cTeriam mudado de cidade?\u201d, questionou-se. Mas n\u00e3o. Passou a encontr\u00e1-los na fila do banco, baratonteando em remorsos, de bolsos vazios, preocupados com o dinheiro que deixaram de ter.<br \/>\nAmaldi\u00e7oou a hamburguesia, essa classe em que ingressara, e a ilus\u00e3o de fazer parte dela. O dinheiro, como qualquer serpente, dan\u00e7a a melodia do encantamento. Quando a m\u00fasica acaba, algu\u00e9m tem de pagar a festa. O banco n\u00e3o pode sair a perder e ganha muito com o mal dos outros.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do consultor em investiga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Bruno Paix\u00e3o. &#8220;O dinheiro, como qualquer serpente, dan\u00e7a a melodia do encantamento. Quando a m\u00fasica acaba, algu\u00e9m tem de pagar a festa. 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