{"id":251705,"date":"2022-12-10T10:54:10","date_gmt":"2022-12-10T10:54:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=251705"},"modified":"2022-12-10T10:54:10","modified_gmt":"2022-12-10T10:54:10","slug":"opiniao-queremos-o-direito-minimo-contra-a-sociedade-ou-regras-e-condutas-balizando-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-queremos-o-direito-minimo-contra-a-sociedade-ou-regras-e-condutas-balizando-a-liberdade\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Queremos o direito m\u00ednimo contra a sociedade, ou regras e condutas balizando a liberdade?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2020\/12\/opiniao-podiamos-ter-feito-muito-diferente\/diogo-cabrita-opi\/\" rel=\"attachment wp-att-207228\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-207228 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DIOGO-CABRITA-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\"\/><\/a><\/p>\n<p>Este \u00e9 o debate que op\u00f5e as sociedades. Quest\u00f5es como os v\u00edrus, 5G, cozedura das lagostas e dos carac\u00f3is e outros problemas muito fracturantes servem de mote sempre ao mesmo problema: o da convic\u00e7\u00e3o de um se sobrepor aos demais, e o do limite do discurso do outro como fronteira de dec\u00eancia minha. A observa\u00e7\u00e3o limitativa dos argumentos adversos usa tudo, a dieta, o animalismo, a obsess\u00e3o por certifica\u00e7\u00f5es contra a experi\u00eancia, a rotina contra a imagina\u00e7\u00e3o, a op\u00e7\u00e3o pelos monop\u00f3lios contra o pequenino, tudo o que for poss\u00edvel para aplainar os discursos e uniformizar as certezas. Agora os cubos s\u00f3 t\u00eam as faces que se podem ver. Esta \u00e9 uma das batalhas do s\u00e9culo XXI em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia pol\u00edtica, pois nela se substantiva os cont\u00ednuos desejos de limitar o que se diz e o que se escreve nas redes sociais. A liberdade total seria imposs\u00edvel para a vida em comum. As regras at\u00e9 ao absurdo converter-nos-iam numa manada que se precipita num destino sem discuss\u00e3o, ou num formigueiro sem imagina\u00e7\u00e3o e sem criatividade.<\/p>\n<p>Um exemplo no limite, que n\u00e3o \u00e9 absurdo. Um cirurgi\u00e3o que faz cirurgia robotizada, pode ser substitu\u00eddo por um mi\u00fado que joga computadores, pois o gesto t\u00e9cnico do mi\u00fado \u00e9 substancialmente mais fino em duas dimens\u00f5es e o jogo de ressecar a pr\u00f3stata por entre veias art\u00e9rias e nervos, empurrando bexiga, fugindo do intestino \u00e9-lhe f\u00e1cil. Joga e ganha ou perde. Se perder precisa de um tipo que conhece as complica\u00e7\u00f5es, conhece as solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o no jogo, mas na intelig\u00eancia artificial os erros aprendem-se e, portanto, o mi\u00fado volta a afastar o cirurgi\u00e3o. As regras definidas do porque se joga, quando se joga, dependem de valores laboratoriais e de mecanismos de imagem convertendo-se em crit\u00e9rios que podem mais uma vez excluir os humanos. O problema est\u00e1 nas subtilezas que fogem das regras, na soma de factores que obrigam ao pensamento elaborado. Claro que isto tamb\u00e9m pode diminuir a interven\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A liberdade total \u00e9 a condu\u00e7\u00e3o sem c\u00f3digo de estrada, \u00e9 uma rotunda em Bombaim, uma experi\u00eancia de condu\u00e7\u00e3o em N\u00e1poles, ou a entrar no Benim vindo da Ar\u00e1bia Saudita, mas mesmo assim, no caos quase total as pessoas v\u00e3o na mesma direc\u00e7\u00e3o. As regras levadas ao extremo s\u00e3o os c\u00f3digos cumpridos sob vigil\u00e2ncia de c\u00e2meras, drones e portais. Vamos sempre cumprindo o c\u00f3digo, sem infrac\u00e7\u00f5es mesmo quando a solid\u00e3o \u00e9 total e a seguran\u00e7a est\u00e1 garantida. \u00c9 o enfado, \u00e9 a condu\u00e7\u00e3o robotizada e sem condutor que se preconiza no futuro evitando acidentes e impedindo conflitos. Para que servir\u00e1 ter carros diferentes ent\u00e3o? Para que servir\u00e1 variar as pot\u00eancias nessa altura?<\/p>\n<p>A uniformiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de cada um tamb\u00e9m serve para compactar sal\u00e1rios cada vez mais esmagados. Se fazemos todos o mesmo e da mesma maneira, valemos pouco, recebemos pouco.<\/p>\n<p>Os discursos uniformizados s\u00e3o um dos sonhos do regime chin\u00eas que tentou acabar com as religi\u00f5es, que induziu um discurso \u00fanico nas escolas, uma total homogeneiza\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio cr\u00edtico. A liberdade irrompe sempre na oposi\u00e7\u00e3o, exerce-se na argumenta\u00e7\u00e3o. Se nem percebemos outras realidades, como vamos argumentar outra solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Imaginemos um menino pobre que s\u00f3 viveu na favela e nunca saiu dali. Imaginemos um m\u00e9dico que se formou e exerceu sempre na mesma institui\u00e7\u00e3o. As realidades de ambos est\u00e3o coartadas pela falta de exposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podem criticar porque n\u00e3o sabem que h\u00e1 outras realidades, outros modos de trabalhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para reduzir o ru\u00eddo, o lixo lingu\u00edstico, tal como \u00e9 dif\u00edcil reduzir o tom de voz na emo\u00e7\u00e3o, o embargo das palavras na dor, mas sei que temos de aumentar a efic\u00e1cia do conhecimento, objectivar a diversidade como caminho e optar pela liberdade e a criatividade mesmo que elas pare\u00e7am loucura. Estou de novo com Agamben no seu \u00faltimo livro sobre a propalada loucura de H\u00f6lderlin.<\/p>\n<p>Agamben quer mostrar agora, como antes, que o isolamento do discurso cr\u00edtico pode ser o come\u00e7o de duas realidades: a aliena\u00e7\u00e3o do eu remetido \u00e0 loucura imposta pelos outros, ou o fim da democracia isolando e ostracizando o outro, o que pensa diferente de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diogo Cabrita, M\u00e9dico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207228,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[8794],"class_list":["post-251705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao-de-diogo-cabrita"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251705"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251705\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}