{"id":252340,"date":"2022-12-17T12:08:24","date_gmt":"2022-12-17T12:08:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=252340"},"modified":"2022-12-17T12:08:24","modified_gmt":"2022-12-17T12:08:24","slug":"opiniao-uma-mera-prateleira-do-supermercado-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-uma-mera-prateleira-do-supermercado-do-mundo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Uma mera prateleira  do supermercado do mundo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-209691\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/>Uma vez, no belo Pal\u00e1cio de S. Marcos, num daqueles eventos da Universidade que requerem a presen\u00e7a de m\u00fasicos, calhou-me por companhia, na mesa de repasto, um jovem de seis anos que n\u00e3o queria comer as batatas. Intervim, em aux\u00edlio da esfor\u00e7ada m\u00e3e, dirigindo-lhe na mansa abordagem pr\u00f3pria dos n\u00e3o progenitores, estas palavras de incentivo: \u201cn\u00e3o comes as batatas? Ora! Tiveram os agricultores tanto trabalho a tir\u00e1-las da terra\u2026\u201d. \u201cDa terra??? \u2013 retorquiu o enfastiado mo\u00e7o perante a agora envergonhada m\u00e3e. \u201cDa terra, sim\u201d, soltei eu a confirma\u00e7\u00e3o, e deixei o resto do incentivo \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o a quem de dever. Pobre m\u00e3e, porventura confiante na sufici\u00eancia do conhecimento do trajeto das batatas entre o supermercado e a despensa l\u00e1 de casa, mas, nitidamente confiada na compet\u00eancia do Estudo do Meio para a explica\u00e7\u00e3o dos mais anteriores percursos do tub\u00e9rculo. N\u00e3o ter\u00e1 ca\u00eddo o pequeno conflito em saco roto. Sabendo n\u00f3s qu\u00e3o poderosa \u00e9 a mem\u00f3ria das crian\u00e7as, no dia em que \u201cbatatas\u201d e \u201cterra\u201d partilharem a mesma p\u00e1gina do livro de estudo, a lembran\u00e7a daquele jantar de n\u00e3o-querer-comer-batatas, ao lado de um moralista pouco insistente, far\u00e1 finalmente algum sentido.<br \/>\nNeste pa\u00eds, que j\u00e1 se gabou de ser agr\u00edcola, a agricultura n\u00e3o industrial (tamb\u00e9m esta fundamental) tende a transformar-se numa atividade ex\u00f3tica, sustentada por um punhado de \u201caventureiros\u201d que insistem em desafiar as regras da grande distribui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o eles, os agricultores, os que ainda semeiam, plantam, regam e colhem as cebolas que os hipermercados lhes compram a 0,53 \u20ac\/kg para vender a 1,24 \u20ac; que cuidam das peras que lhes querem pagar a 0,90 \u20ac para vender a 2,40 \u20ac; que apanham a courgette levada a 1,10 \u20ac e vendida a 2,40 \u20ac. Por isso n\u00e3o lhes basta semear, plantar, regar, tratar e colher. Precisam tamb\u00e9m de, por feiras e mercados, vender o que produzem e, assim, procurar garantir um ganho menos injusto, adiando a extin\u00e7\u00e3o a que parecem condenados pelo alastramento consentido das m\u00e9dias e grandes superf\u00edcies comerciais.<br \/>\nPortugal precisa de retomar os trabalhos da terra &#8211; \u00fanica garantia de seguran\u00e7a alimentar num pa\u00eds que, tamb\u00e9m no plano agr\u00edcola, foi prescindindo da t\u00e3o vital soberania. Por isso precisa de um Minist\u00e9rio da Agricultura que pense a terra (e o mar) \u00e0 escala nacional, mantendo a coordena\u00e7\u00e3o dos seus servi\u00e7os descentralizados. Com o fim j\u00e1 decretado das Dire\u00e7\u00f5es Regionais de Agricultura e Pescas, transferindo-as para outros lugares, em atomiza\u00e7\u00e3o \u201cdescentralizadora\u201d, desfazem- val\u00eancias e compet\u00eancias, retirando ao Minist\u00e9rio da Agricultura ferramentas essenciais \u00e0 urgente revitaliza\u00e7\u00e3o do mundo rural.<br \/>\nA destrui\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura \u2013 e a passagem de muitas das suas compet\u00eancias para CCDR t\u00e3o avessas ao controlo democr\u00e1tico \u2013 levar\u00e1 ainda mais fundo as chagas que a chamada \u201cdescentraliza\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias\u201d vai abrindo um pouco por todo o lado neste pa\u00eds crescentemente zangado. Ficar\u00e1 sem comando nem articula\u00e7\u00e3o a preven\u00e7\u00e3o, dete\u00e7\u00e3o precoce, erradica\u00e7\u00e3o e controle das pragas e doen\u00e7as; ficar\u00e1 desprotegida a sa\u00fade p\u00fablica, sem controlo dos produtos de origem animal; ser\u00e1 negligenciada a certifica\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria da exporta\u00e7\u00e3o, e relaxado o controlo da importa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesintegrar o Minist\u00e9rio da Agricultura significa desarticular as liga\u00e7\u00f5es entre o desenvolvimento rural e as infraestruturas hidr\u00e1ulicas, de regadio e de engenharia rural; \u00e9 o mesmo que estrangular o associativismo; \u00e9 eliminar a rela\u00e7\u00e3o entre floresta e agricultura, h\u00e1 muito projetada pelos gulosos da madeira barata e da extin\u00e7\u00e3o dos baldios. \u00c9 a vit\u00f3ria da desertifica\u00e7\u00e3o e do lume. \u00c9 uma oportunidade para a fome, no tempo das f\u00farias do clima, das guerras e das san\u00e7\u00f5es.<br \/>\nL\u00e1 atr\u00e1s, tinha sua raz\u00e3o o mo\u00e7o das batatas-sem-terra. Nasceu num tempo de serem j\u00e1 escassos os av\u00f3s com m\u00e3os calejadas e cheiro a fumo de lareira. O pousio \u00e9 j\u00e1 a paisagem prevalecente e, entre a colheita e o prato, os alimentos podem caminhar milhares de quil\u00f3metros, deixando nas rotas rodovi\u00e1rias, a\u00e9reas e mar\u00edtimas uma j\u00e1 insuport\u00e1vel pegada de carbono. Mas \u00e9 pena. Portugal n\u00e3o tem de ser uma mera prateleira do supermercado do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha, Docente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":209691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-252340","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=252340"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252340\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=252340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=252340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=252340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}