{"id":252847,"date":"2022-12-23T12:01:10","date_gmt":"2022-12-23T12:01:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=252847"},"modified":"2022-12-23T12:01:10","modified_gmt":"2022-12-23T12:01:10","slug":"opiniao-recordacoes-da-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-recordacoes-da-infancia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Recorda\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/12\/opiniao-recordacoes-da-infancia\/jose-linhares-de-castro-6\/\" rel=\"attachment wp-att-252862\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-252862 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Linhares-de-Castro-5.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a \u00e9poca festiva que d\u00e1 f\u00e9rias aos estudantes e traz consigo, para os mais novos, o prazer das luzes e dos lindos pacotes com uma surpresa que o velhote das barbas lhes traz no seu tren\u00f3 \u00faltimo modelo. Ali, mais adiante, muitas outras crian\u00e7as no mundo ficam \u00e0 porta da felicidade e correm a apanhar as migalhas que v\u00e3o caindo da mesa dos ricos, dos que podem gozar o momento de frui\u00e7\u00e3o consumista.<br \/>\n\u00c9 uma \u00e9poca em que recordo sempre a minha inf\u00e2ncia, numa casa em que o Natal n\u00e3o era particularmente celebrado, mas que me permitia passar as manh\u00e3s a ouvir na r\u00e1dio as m\u00fasicas do meu tempo. N\u00e3o, n\u00e3o havia televis\u00e3o nessa altura e s\u00f3 as vozes das e dos locutores chegavam at\u00e9 mim naquela casa da P\u00f3voa de Varzim.<br \/>\nNo dia 24 de dezembro tudo era frugal e com peso, conta e medida. Havia o pres\u00e9pio feito pela minha M\u00e3e, mas era t\u00e3o pequeno como a fam\u00edlia (eramos cinco).<br \/>\nAntes da refei\u00e7\u00e3o, a minha av\u00f3 puxava de uma ora\u00e7\u00e3o que a minha m\u00e3e acompanhava e que o pai Arlindo e o av\u00f4 Artur respeitavam sem se intrometerem no momento. Ao jantar havia o indispens\u00e1vel bacalhau cozido com batatas, peixe escolhido do melhor que havia no armaz\u00e9m de mercearia da fam\u00edlia, e que o meu av\u00f4 fazia quest\u00e3o de ser ele mesmo a selecionar, e um queijo flamengo que fazia a minha del\u00edcia. Depois, l\u00e1 estava o bolo-rei, umas saborosas rabanadas, um leite-creme para quem o apreciasse e pouco mais. Os adultos bebiam uma ta\u00e7a de champanhe e tomavam um delicioso caf\u00e9, cujo aroma consolava, tamb\u00e9m escolhidos pelo av\u00f4 Artur que nessa noite n\u00e3o deixava o seu cr\u00e9dito por m\u00e3os alheias. O caf\u00e9 era feito numa m\u00e1quina manual que os meus av\u00f3s do Funchal tinham oferecido e que ainda conservo religiosamente, embora n\u00e3o saiba trabalhar com ela.<br \/>\nMais tarde, l\u00e1 pela meia-noite, chegava o menino a que chamaram Jesus (que o Pai Natal ainda n\u00e3o tinha renas e s\u00f3 anos depois come\u00e7ou a aparecer nas casas dos meninos que se tinham portado bem e tinham estudado o mais que podiam).<br \/>\nE as prendas entusiasmavam qualquer crian\u00e7a: pe\u00fagas e cuecas eram prenda obrigat\u00f3ria. Depois, com um bocado de sorte l\u00e1 v\u00edamos um embrulho todo bonito, com la\u00e7arotes a condizer, que podia trazer um pijama ou um pul\u00f4ver. Ainda me lembro que num desses dias festivos me saiu um sobretudo todo apinocado, que j\u00e1 levei para a rua no dia seguinte. Ah! Num qualquer ano da d\u00e9cada de quarenta ou in\u00edcios da de cinquenta recebi um carro de bombeiros com o qual me fartei de imitar as sirenes que, mesmo de verdade, eu ouvia de minha casa, sempre que havia fogo. Foi a \u00e9poca em que pensei que uma boa profiss\u00e3o para mim era a de soldado da paz, coisa que o tempo n\u00e3o concretizou.<br \/>\n25 de dezembro era um pouco o rescaldo da festa da v\u00e9spera, mas altura para se comer um lindo frango alourado, feito em forno de lenha (ent\u00e3o o forno havia de ser de qu\u00ea naquela altura!), as guloseimas que sobraram da v\u00e9spera tamb\u00e9m vinham para a mesa, a que se acrescentava um pudim e uma salada de frutas, feita pela minha m\u00e3e, voltando o caf\u00e9, para aquecer as vidas. O espumante que sobrara era misturado com vinho branco de qualidade, o que me levava a invejar quem a esta bebida tinha acesso. Esclare\u00e7o que a nostalgia desta mistura de vinho mais espumante \u00e9 tanta, que ainda hoje a fa\u00e7o muitas vezes\u2026<br \/>\nPelo meio disto tudo a m\u00e3e e a av\u00f3 iam \u00e0 missa e eu tinha de as acompanhar, enquanto o meu pai e o meu av\u00f4 dispensavam o ritual.<br \/>\nDepois, a 26, tudo voltava ao normal. Ouvia r\u00e1dio, brincava \u00e0 tarde no jardim fronteiro \u00e0 minha casa, trocava acaloradas conversas com os outros meninos sobre o que o menino Jesus tinha trazido para cada um, jogava \u00e0 estrancela ou \u00e0 carica e fugia \u00e0 pol\u00edcia com a bola debaixo do bra\u00e7o.<br \/>\nNos primeiros dias de janeiro voltava a vestir a bata verde e regressava \u00e0 escola, onde a Dona Cremilde queria saber como tinha sido o nosso Natal e se t\u00ednhamos ficado contentes com as prendinhas do menino Jesus. Devo confessar que quando soube que n\u00e3o era o referido infante a trazer as prendas fiquei triste como a noite. Tinha sido enganado.<br \/>\nBom per\u00edodo de festas para os que fazem e leem este jornal.<\/p>\n<p>PS &#8211; Eduardo Mar\u00e7al Grilo lan\u00e7ou recentemente a obra \u201cSalazar e a Educa\u00e7\u00e3o no Estado Novo\u201d. Leitura interessante (nem sempre estou de cordo com o autor) que n\u00e3o deixa esquecer o que foi a evolu\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em Portugal nos \u00faltimos cem anos. Aconselho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Linhares de Castro<br \/>\nProfessor aposentado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":252862,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[7808,11441,213,11442],"class_list":["post-252847","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-infancia","tag-jose-linhares-de-castro","tag-natal","tag-recordacoes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252847","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=252847"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252847\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=252847"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=252847"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=252847"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}