{"id":253404,"date":"2022-12-31T12:46:18","date_gmt":"2022-12-31T12:46:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=253404"},"modified":"2022-12-31T12:46:18","modified_gmt":"2022-12-31T12:46:18","slug":"opiniao-anti-ronaldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-anti-ronaldo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Anti-Ronaldo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-244331 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os feitos humanos de Ronaldo: ganhar potes e potes de dinheiro e bater muitos e muitos recordes futebol\u00edsticos.<br \/>\nH\u00e1 por a\u00ed, sempre houve, haver\u00e1 sempre, outros incensados Ronaldo, invejados &#8211; mais que admirados \u2013 pelos feitos her\u00f3icos nos campos da bola e nos cofres banc\u00e1rios.<br \/>\nO ronaldismo \u2013 como adula\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica das massas pelo poder e pelos s\u00edmbolos materiais do poder \u2013 \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o greco-romana, ocidental, portanto. Bebe a sua raiz nos jogos ol\u00edmpicos dos helenos e nos espet\u00e1culos circenses dos romanos.<br \/>\nO her\u00f3i desportivo, besuntado com \u00f3leos reluzentes e decorado com coroas de louros, \u00e9, ao lado do her\u00f3i guerreiro, o modelo hiperindividualista por excel\u00eancia. Para um Ronaldo o futebol \u00e9 uma pratica em que dez serventes se esfalfam a arrotear caminhos para a maior gl\u00f3ria do deus Sol: mais um recorde, mais um contrato de imagem, mais um an\u00fancio, mais uma carripana de luxo, mais uma Georgina.<br \/>\nErnest Shackleton, que morreu falido, foi um anti-Ronaldo. Explorador ant\u00e1rtico, um dos maiores, em 1909, encontrando-se a apenas 97 milhas geogr\u00e1ficas do P\u00f3lo Sul, temendo colocar em risco a vida dos companheiros de expedi\u00e7\u00e3o, deu meia volta e renunciou \u00e0 fama imortal de ser o primeiro a pisar lugar t\u00e3o branco. N\u00e3o procedeu assim, volvidos 3 anos, Robert F. Scott, cuja obsess\u00e3o de ser o primeiro a a\u00ed colocar o p\u00e9 o levou, e aos esgotados companheiros, a uma morte gelada.<br \/>\n\u00c9 no alpinismo, e no mundo das conquistas alpinas, que encontramos o cume, e a perversidade, do individualismo ronaldista.<br \/>\nTrepar agu\u00e7ados montes como prova p\u00fablica e privada de uma invocada \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d de limites pessoais deveria, sem mais, dar lugar a internamento compulsivo. Mas o problema \u00e9 mais fundo: \u00e9 que, para um ronaldista, o objetivo principal, e \u00fanico, da singular vida \u00e9 alcan\u00e7ar pin\u00e1culos, qualquer pin\u00e1culo, a qualquer pre\u00e7o, custe o que custar, sem olhar a meios, porque o nobre fim da auto-exalta\u00e7\u00e3o narc\u00edsica justifica todos os meios.<br \/>\nE justifica, no fim, se tal for necess\u00e1rio para a gl\u00f3ria do Eu her\u00f3i, o abandono e o sacrif\u00edcio do outro.<br \/>\nS\u00e3o conhecidas e correntes as hist\u00f3rias de alpinistas que, na ascens\u00e3o ou na descida, passando por infortunados que colapsaram por exaust\u00e3o, apressados seguem para o z\u00e9nite da montanha ou para o conforto do acampamento-base, abandonando-os, em branca solid\u00e3o, no momento mais vital de uma vida: aquele que antecede a morte.<br \/>\nNo mundo Ronaldo n\u00e3o acontece o responder pelo outro de que Levinas d\u00e1 nota em \u00c9tica e Infinto. No mundo Ronaldo \u00e9 imposs\u00edvel acontecer o epis\u00f3dio narrado por Jorge Sempr\u00fan em A Escrita ou Vida.<br \/>\nAquele momento em que um camarada do campo de exterm\u00ednio, pressentindo a morte pr\u00f3xima,<br \/>\nlhe diz: &#8211; D\u00e1-me a tua m\u00e3o. Fica comigo esta noite.<br \/>\nE Sempr\u00fan deu a m\u00e3o. E ficou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Castelo Branco<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":244331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1558,100],"class_list":["post-253404","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-castelo-branco","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253404"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253404\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}