{"id":255059,"date":"2023-01-19T10:29:51","date_gmt":"2023-01-19T10:29:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=255059"},"modified":"2023-01-19T10:29:51","modified_gmt":"2023-01-19T10:29:51","slug":"opiniao-o-caos-na-educacao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-caos-na-educacao-2\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O caos na Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-248854 size-full\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O primeiro problema da Educa\u00e7\u00e3o em Portugal \u00e9 que deixou de ter uma lideran\u00e7a forte, unida e esclarecida. Os l\u00edderes, com fins e objetivos desencontrados, est\u00e3o ref\u00e9ns uns dos outros.<br \/>\nA incid\u00eancia do caos situa-se a tr\u00eas n\u00edveis principais: a hipocrisia do governo que levanta a bandeira da inclus\u00e3o e da igualdade, mas pratica n\u00edveis de exclus\u00e3o desastrosos; a fragmenta\u00e7\u00e3o e partidariza\u00e7\u00e3o sindical que impedem uma classe docente unida e mobilizada para objetivos comuns; a escola e os seus atores, situados no epicentro do terramoto, na cratera do vulc\u00e3o e no olho do furac\u00e3o, sem uma sa\u00edda segura das f\u00farias da natureza humana.<br \/>\nO governo enche a boca com a escola p\u00fablica, mas promove a escola privada, menos exposta ao caos. Ao reservar o espa\u00e7o da tranquilidade e da estabilidade para a escola privada, o governo transfere uma grande parte da despesa, do investimento e da responsabilidade para as fam\u00edlias, aliviando o or\u00e7amento do estado. Menos alunos, menos professores, menos escolas, \u00e9 um al\u00edvio para as finan\u00e7as p\u00fablicas. A escolaridade \u00e9 obrigat\u00f3ria, \u00e9 o motor do progresso e da economia, mas o estado lava as m\u00e3os e assobia para o lado. \u00c9 o estado que desvaloriza, esvazia e desautoriza a escola p\u00fablica.<br \/>\nO governo exclui anualmente milhares de alunos da escolaridade obrigat\u00f3ria e outros tantos milhares de frequentar o ensino superior. Mas mais, muitos milhares com sucesso acad\u00e9mico v\u00e3o enriquecer outros pa\u00edses. Uma grande parte da nossa for\u00e7a de trabalho mais qualificada, o estado oferece-a de m\u00e3o beijada a quem n\u00e3o investiu um c\u00eantimo para a formar. O governo n\u00e3o combate a pobreza, cultiva-a. N\u00e3o combate as desigualdades, aprofunda-as.<br \/>\nO governo e alguns ex-governantes continuam a ver a educa\u00e7\u00e3o e a escola com a lupa dos nossos av\u00f3s e bisav\u00f3s. O professor d\u00e1 a li\u00e7\u00e3o igual para todos, sem qualquer concess\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as, o ME faz os exames iguais para todos, ignorando talentos e capacidades individuais que n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o nos exames, e promove o suposto \u201cm\u00e9rito\u201d dos que conseguem passar no funil de tamanho \u00fanico, excluindo todos os que n\u00e3o obedecem a esse perfil. A escola continua um \u201cdogma\u201d impenetr\u00e1vel, minado pela normaliza\u00e7\u00e3o, pela competi\u00e7\u00e3o e pela sele\u00e7\u00e3o. Os exames s\u00e3o a norma-trav\u00e3o que imp\u00f5e a \u201cindiferen\u00e7a \u00e0s diferen\u00e7as\u201d.<br \/>\nA autonomia da escola e dos professores \u00e9 o maior embuste que o ME j\u00e1 inventou, que alimenta discursos, mas desresponsabiliza os atores no terreno. Inclus\u00e3o e autonomia s\u00e3o os polos principais da hipocrisia do governo, sendo poucas as escolas com saber e experi\u00eancia suficientes para ultrapassar esta onda de mentira organizada.<br \/>\nA dispers\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o do universo sindical enfraquecem o movimento de liberta\u00e7\u00e3o dos professores. Uma dezena de organiza\u00e7\u00f5es sindicais, com origens partid\u00e1rias nos v\u00e1rios espetros pol\u00edticos, tudo contribui para vis\u00f5es diferentes, desencontradas e ultrapassadas da escola e da educa\u00e7\u00e3o. O que mobiliza n\u00e3o \u00e9 tanto a luta pela escola e pela educa\u00e7\u00e3o, nem mesmo a valoriza\u00e7\u00e3o dos professores, mas poder\u00e1 haver uma \u201cm\u00edstica\u201d partid\u00e1ria a tentar novos espa\u00e7os de penetra\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de outras classes profissionais, como os m\u00e9dicos ou os enfermeiros, onde o esp\u00edrito de classe se sobrep\u00f5e a deriva\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-partid\u00e1rias, os professores tendem a organizar-se \u00e0 sombra de partidos que favorecem o divisionismo.<br \/>\nA \u201cunicidade\u201d sindical imposta h\u00e1 50 anos explodiu, fragmentou-se e fracionou de tal modo a classe docente que n\u00e3o conseguimos vislumbrar uma orienta\u00e7\u00e3o, uma ideia clara que una e n\u00e3o disperse. A \u00fanica coisa comum \u00e9 a revolta porque a afronta foi t\u00e3o longa e deprimente que indignou toda a gente, menos aqueles que est\u00e3o submetidos \u00e0 linha de rumo do partido do governo.<br \/>\nO que \u00e9 mais triste \u00e9 que h\u00e1 sindicatos e professores que n\u00e3o acreditam nem na escola nem na honestidade e dignidade dos seus dirigentes. Recusam as autarquias porque s\u00e3o ninhos partid\u00e1rios, como o governo, que preferem a fidelidade, por mais incompetente que seja, a dirigentes com a neutralidade e independ\u00eancia que todos respeitem. A democracia parece cada vez mais um mundo em ru\u00ednas porque s\u00e3o falsos e podres os pilares que a sustentam. \u00c9 neste quadro que alguns sindicatos e muitos professores negam a autonomia das escolas para recrutar e fixar o corpo docente, preferindo a burocracia irracional do ME \u00e0 sele\u00e7\u00e3o criteriosa dos professores de acordo com as necessidades das escolas e dos alunos.<br \/>\nA instabilidade e a humilha\u00e7\u00e3o do corpo docente, o car\u00e1ter errante e incerto da sua profiss\u00e3o, o desgaste de n\u00e3o poder programar a sua vida no aconchego familiar e na disciplina da organiza\u00e7\u00e3o da escola revoltam os professores e a sociedade em geral. A escola s\u00f3 \u00e9 eficaz se tiver autonomia, capacidade e os meios para se organizar e gerir a si pr\u00f3pria, identificando e ultrapassando a n\u00edvel local, com conhecimento de causa, os problemas que enfrenta. \u00c9 esta escola, livre e democr\u00e1tica, que alguns sindicatos recusam. Pior ainda, muitos professores v\u00e3o nesta onda. N\u00e3o estar\u00e1 ao alcance dos professores, divididos, \u201cconstruir um minist\u00e9rio\u201d amigo da classe docente. Mas \u00e9 da compet\u00eancia dos professores organizar a escola como espa\u00e7o de autonomia, de democracia, de inclus\u00e3o e de igualdade.<br \/>\nOs sindicatos dos professores sobressaltaram o pa\u00eds, acordaram e assustaram o \u201cmonstro\u201d adormecido. A sua luta \u00e9 justa e s\u00f3 peca por tardia. Resta saber se, na sua diversidade de interesses e de ideologias, conseguem levar o barco a porto seguro ou se o deixam \u00e0 deriva em parte incerta e \u00e0 merc\u00ea de mar\u00e9s e de incontorn\u00e1veis ondas alterosas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":248854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1170,100],"class_list":["post-255059","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-afonso-baptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255059"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255059\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}