{"id":255143,"date":"2023-01-20T11:22:22","date_gmt":"2023-01-20T11:22:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=255143"},"modified":"2023-01-20T11:22:22","modified_gmt":"2023-01-20T11:22:22","slug":"opiniao-tique-taque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-tique-taque\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Tique-taque"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248923\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>A finitude \u00e9 a \u00fanica certeza. O nosso tempo tem um fim. Mas o tempo continua. O tempo parece ser infinito. Ele n\u00e3o cessa. Apesar de todos os avan\u00e7os, de todas as tentativas, de todos os fracassos e de todos os sucessos, n\u00e3o conseguimos congel\u00e1-lo. Conseguimos, sim, ficar mais um pouco nele. Dizemos, por isso, que aument\u00e1mos a longevidade e que maquilh\u00e1mos o envelhecimento.<br \/>\nVivemos hoje mais trinta anos do que os nossos av\u00f3s. Aquilo que talvez n\u00e3o saiba \u00e9 que foram precisos 1,5 milh\u00f5es de anos para vivermos at\u00e9 aos cinquenta. Depois, apenas cem para chegarmos aos 80 anos. O tempo da nossa perman\u00eancia est\u00e1 a ser prolongado, com mais sa\u00fade e mais meios. Todavia, o sistema da sociedade ainda n\u00e3o se adaptou a esta nova ordem mundial, a esta conting\u00eancia confirmada como inevit\u00e1vel.<br \/>\nConseguimos viajar cada vez mais depressa. Fomos conquistando cada vez mais espa\u00e7o: a p\u00e9, a cavalo, de carro\u00e7a, de barco, de carro, de comboio, de avi\u00e3o, e at\u00e9 de foguet\u00e3o. Para al\u00e9m disso, atrav\u00e9s da Internet, aprendemos que a vida segue online, num mundo virtual cuja era se apelida de hiper-hist\u00f3ria. Vamos fazendo com que o espa\u00e7o desapare\u00e7a e o tempo se torne instant\u00e2neo. Assim, abolimos a separa\u00e7\u00e3o espacial entre lugares, torn\u00e1mo-los simult\u00e2neos e imediatamente conexos.<br \/>\nApesar da liberdade que aparent\u00e1mos conquistar, a no\u00e7\u00e3o do tempo \u00e9, contudo, cada vez mais aprisionadora. Lembra-se de quando os hipermercados quiseram manter-se abertos para al\u00e9m das sete da tarde? Pois bem, ao cedermos, enfi\u00e1mo-nos na maior encruzilhada da sociedade. Ao inv\u00e9s, os museus e as bibliotecas encerram \u00e0s seis ou \u00e0s sete. Sa\u00eddos do trabalho, corremos para os compradouros, que s\u00e3o os lugares onde tudo est\u00e1 aberto at\u00e9 perto da meia-noite. Deix\u00e1mos de lado aquilo que, at\u00e9 ent\u00e3o, era importante. Demos o nosso consentimento a uma via de desumaniza\u00e7\u00e3o, que nos injeta adrenalina para conseguirmos vender o nosso tempo a troco de nos privarmos das coisas que deviam apenas para n\u00f3s existir no tempo certo: a fam\u00edlia, os amigos, o lazer, o di\u00e1logo, a leitura, a discuss\u00e3o das ideias. Mergulh\u00e1mos todos nesta vertigem.<br \/>\nAs crian\u00e7as saem tarde da escola. O formato de ensino rouba-lhes o tempo \u2013 o \u00fanico, irrepet\u00edvel e incorrupt\u00edvel tempo de brincar. Os pais correm de um lado para o outro. Trabalham para pagar um sistema em que os filhos n\u00e3o podem ser crian\u00e7as. Matam-se a trabalhar. Os filhos, um dia, v\u00e3o matar-se tamb\u00e9m a trabalhar. E a tudo isto damos o nosso consentimento.<br \/>\nO tempo converteu-se num conceito capitalista. Somos medidos em anos de trabalho: quantos anos faltam para a reforma, quantos anos estivemos numa empresa, quanto receberemos de pens\u00e3o mediante o tempo que trabalh\u00e1mos. Julgo que, em breve, nesta ou nas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, manifestar-nos-emos por uma nova ordem mundial. Uma ordem que restaure a dignidade humana, que nos liberte das amarras da escravid\u00e3o em que se converteu este novo tempo. Uma nova era que se proponha abolir das ratoeiras o queijo que nos \u00e9 oferecido no final de cada m\u00eas. Entretanto, o tempo continua a contar. Tique-taque-tique-taque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Paix\u00e3o<br \/>\nInvestigador em comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":248923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[39,31],"tags":[1210],"class_list":["post-255143","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coimbra-2","category-geral","tag-finitude"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255143\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}