{"id":255761,"date":"2023-01-28T12:28:23","date_gmt":"2023-01-28T12:28:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=255761"},"modified":"2023-01-28T12:28:23","modified_gmt":"2023-01-28T12:28:23","slug":"opiniao-corrupcao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-corrupcao-2\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Corrup\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-253410\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os inquietados dias dos dignit\u00e1rios da Na\u00e7\u00e3o. Gomes Cravinho e Fernando Medina, nestes dias. Dias iguais, afinal, aos que j\u00e1 foram de Cabrita, semelhantes aos de Pedro Nuno Santos, Miguel Relvas, Manuel Pinho, Paulo Portas, Duarte Lima, Vitalino Canas, Morais Sarmento, Isaltino Morais, Armando Vara, Oliveira Costa, Rui Rangel, Azeredo Lopes, Jos\u00e9 S\u00f3crates, Jos\u00e9 Penedos, Jo\u00e3o Rendeiro, Correia de Campos, Miguel Reis e os tantos mais que passaram da condi\u00e7\u00e3o de dignit\u00e1rio a figurante de manchete. Tudo gente de palanque, cultores da ideia da exist\u00eancia de uma \u201cclasse pol\u00edtica\u201d que, n\u00e3o sendo classe social, serve os interesses da classe a que Warren Buffett se referia quando afirmou que \u201ch\u00e1 uma luta de classes, tudo bem, mas \u00e9 a minha classe, a classe dos ricos, que est\u00e1 na luta, e est\u00e1 a venc\u00ea-la\u201d (\u201cthere\u2019s class warfare, all right, but it\u2019s my class, the rich class, that\u2019s making war, and we\u2019re winning\u201d).<\/p>\n<p>Nas not\u00edcias sobre a corrup\u00e7\u00e3o, o Estado \u00e9 referido como se de uma abstra\u00e7\u00e3o se tratasse. Assim se retira, ao entendimento dos comuns, a evid\u00eancia de que o Estado somos n\u00f3s, cada um de n\u00f3s, sendo afinal a \u00fanica \u201cempresa\u201d de que todos somos acionistas e da qual, por igual dever\u00edamos ser benefici\u00e1rios. Ao longo dos anos, por\u00e9m, protegidas pela parangona de que \u201co Estado \u00e9 mau gestor\u201d, as governa\u00e7\u00f5es bicolores foram fragilizando as institui\u00e7\u00f5es, alienando o patrim\u00f3nio, moldando o quadro legal, ao mesmo tempo que procuraram reduzir a democracia a um mero ritual crescentemente encenado. Apresentado como a origem de todos os males, o Estado \u2013 todos n\u00f3s \u2013 vem sendo, afinal, a grande v\u00edtima de uma longa e bem urdida conspira\u00e7\u00e3o que lhe (nos) leva os dedos e os an\u00e9is. Em Portugal, menos Estado vem significando \u2013 sempre \u2013 pior Estado, pior servi\u00e7o p\u00fablico: na Sa\u00fade, na Educa\u00e7\u00e3o, nos transportes, na Habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d encara o seu destino (por muito desconcertante que tal possa parecer) com a resigna\u00e7\u00e3o que aprendeu na raspadinha: \u201c\u00e9 como \u00e9!\u201d. O mesmo \u201c\u00e9 como \u00e9\u201d com que Ant\u00f3nio Costa se curvou, h\u00e1 dias, perante a infla\u00e7\u00e3o que vai comendo, impiedosa, os sal\u00e1rios e as pens\u00f5es ao ritmo do crescimento dos lucros da grande distribui\u00e7\u00e3o. Ainda assim, a marcha dos devotos do \u201cmenos Estado, melhor Estado\u201d tem encontrado a resist\u00eancia dos que se levantam contra o encerramento do Centro de Sa\u00fade, a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, a elimina\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Mais permissiva do que o Purgat\u00f3rio, a Lei facilita com elevada compet\u00eancia a convers\u00e3o dos pecadores do ressuscitado \u201carco da governa\u00e7\u00e3o\u201d ao setor privado: ali est\u00e1 Portas de joelhos perante a Mota-Engil, que j\u00e1 tinha ajoelhado Jorge Coelho, Lu\u00eds Parreir\u00e3o e Valente de Oliveira; e Maria Lu\u00eds nos bra\u00e7os da Arrow Global; Ant\u00f3nio Pires de Lima acolhido na Media Capital; S\u00e9rgio Monteiro transportado para o Fundo de Resolu\u00e7\u00e3o que passou o Novo Banco a patacos; S\u00f3crates a vender para a Octapharma; Manuel Pinho e Ant\u00f3nio Mexia por conta da EDP; Pina Moura pela Iberdrola, Lu\u00eds Campos e Cunha no Banif, Guilherme d\u201dOliveira Martins no BPN Efisa, Miguel Cadilhe no BPA, Joaquim Ferreira do Amaral na Lusoponte, Dur\u00e3o Barroso no Goldman Sachs International.<\/p>\n<p>Tudo legal, ainda que seja evidente que \u201co que eles querem \u00e9 tacho\u201d. A frequente passagem de governantes e titulares de cargos pol\u00edticos para o setor privado n\u00e3o \u00e9 uma anomalia. \u00c9 um sintoma. Um sintoma revelador do tanto que as governa\u00e7\u00f5es (eleitas) das \u00faltimas d\u00e9cadas t\u00eam favorecido, direta ou indiretamente, interesses privados livres de qualquer tipo de escrut\u00ednio. \u00c9 o percurso natural de quem usou o cargo p\u00fablico para debilitar o Estado que jurou defender, passando-o de propriet\u00e1rio a cliente, de ator pol\u00edtico a mero interlocutor, de soberano a servidor. \u201c\u00c9 como \u00e9!\u201d, dir-se-\u00e1 \u2013 hoje o governante em exerc\u00edcio, amanh\u00e3 o seu opositor aparente \u2013, se o lugar da altern\u00e2ncia n\u00e3o for depressa ocupado pela alternativa. O certo \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 justo, seja qual for a manchete do jornal de amanh\u00e3, que seja Warren Buffett a decidir o rumo das nossas vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estes s\u00e3o os inquietados dias dos dignit\u00e1rios da Na\u00e7\u00e3o. Gomes Cravinho e Fernando Medina, nestes dias. 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