{"id":256232,"date":"2023-02-03T11:40:54","date_gmt":"2023-02-03T11:40:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=256232"},"modified":"2023-02-03T11:40:54","modified_gmt":"2023-02-03T11:40:54","slug":"bagagem-de-escrita-aralsky-parte-i-uzbequistao-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/bagagem-de-escrita-aralsky-parte-i-uzbequistao-2015\/","title":{"rendered":"Bagagem de Escrita: \u201cAralsky!\u201d \u2013 Parte I Uzbequist\u00e3o \u2013 2015"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Bagagem-de-escrita-DR.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-256233\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Bagagem-de-escrita-DR.png\" alt=\"\" width=\"737\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Bagagem-de-escrita-DR.png 737w, https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Bagagem-de-escrita-DR-300x155.png 300w, https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Bagagem-de-escrita-DR-600x309.png 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 737px) 100vw, 737px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Um letreiro j\u00e1 decr\u00e9pito com um peixe enferrujado anuncia que estou a chegar a Moinaq, uma pequena localidade que foi, outrora, a \u00fanica cidade portu\u00e1ria do Uzbequist\u00e3o, junto \u00e0s margens do mar do Aral. Os bons tempos em que neste centro urbano de dezenas de milhares de habitantes viviam com alguma prosperidade do neg\u00f3cio pisc\u00edcola come\u00e7aram a mudar a partir do momento em que o governo sovi\u00e9tico desviou as \u00e1guas dos rios que o alimentavam para irrigar a produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o. As \u00e1guas deste mar interior come\u00e7ariam a minguar at\u00e9 se tornar num dos maiores atentados ecol\u00f3gicos do nosso planeta, j\u00e1 que hoje apenas mant\u00e9m menos de 5% do que j\u00e1 foi em tempos passados.<br \/>\nAlagado em suor, procuro um alojamento em conta que me permita descansar depois de uma viagem de algumas centenas de quil\u00f3metros, vindo de Khiva. Com muito custo, dou com a porta certa ap\u00f3s uma m\u00e3o cheia de tentativas falhadas. Aquele espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 hotel nenhum, mas sim uma casa familiar em que os propriet\u00e1rios alugavam o ch\u00e3o da sala de estar, em cima de uma grossa carpete que serviria de colch\u00e3o ortop\u00e9dico para o corpo de quem aqui chegasse nas mesmas circunst\u00e2ncias que eu. A casa de banho era um claro exemplo da \u201ccasinha\u201d que se usava no nosso pa\u00eds h\u00e1 quase um s\u00e9culo atr\u00e1s, uma pequena divis\u00e3o de madeira no exterior cuja \u00fanica observa\u00e7\u00e3o que farei \u00e9 referir que tinha um buraco no ch\u00e3o.<br \/>\nMas a minha fisgada era mesmo ir ver a enorme cratera, sem horizonte \u00e0 vista, onde h\u00e1 umas gera\u00e7\u00f5es atr\u00e1s havia o mar que era a fonte de prosperidade para esta popula\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que o dia j\u00e1 estava a findar, o sol j\u00e1 se tinha posto e eu sabia que o tempo com alguma luz se iria encurtar a uma velocidade assustadora, pelo que urgia chegar l\u00e1 em tempo \u00fatil. Desprovido de mapas e sem ideia de onde pudesse ficar, pedi a um rapaz para me indicar o destino pretendido, mas ele n\u00e3o compreendia nada do que lhe tentava explicar enquanto recorria ao ingl\u00eas mais b\u00e1sico que conseguia. Sorria, e acenava que sim, mas respostas n\u00e3o havia. Desesperado, peguei num pau e desenhei no solo arenoso as ondas do mar, e um quadrado a fazer de barco, ao que ele exclamou algo parecido com \u201cAralsky!\u201d<br \/>\nSegui at\u00e9 um pequeno cume, e eis que me confronto com um intermin\u00e1vel deserto escavado no solo onde jazia meia d\u00fazia de barcos encalhados por entre areia e vegeta\u00e7\u00e3o, como se fossem restos que ficassem numa pia depois de abrir o ralo de um lava loi\u00e7a. Fotografei com a pouca luz que tinha, mas aquele cemit\u00e9rio de ferro velho seduziu-me tanto que n\u00e3o resisti a descer aquela ribanceira para ir at\u00e9 l\u00e1 e ver de perto. Munido apenas da fraca lanterna do telem\u00f3vel, fui tateando o caminho \u00edngreme com cuidado redobrado, e mesmo assim ainda fui ao ch\u00e3o algumas vezes.<br \/>\nSenti-me a vaguear por um cemit\u00e9rio de ferro velho e imaginava como teriam sido aquelas embarca\u00e7\u00f5es em vida, no seu of\u00edcio da pesca, ou tamb\u00e9m do turismo. Tanto se viveu naquelas carca\u00e7as que estavam agora ali abandonadas, \u00e0 semelhan\u00e7a da r\u00e9stia do mar que foi o mundo delas.<br \/>\nA escurid\u00e3o e o sil\u00eancio foram quebrados quando duas lanternas perseguem o meu vulto, procurando encontrar-me enquanto tr\u00eas vozes me tentam falar descoordenadamente. Estava s\u00f3, n\u00e3o fazia ideia de quem seria aquela hora, e n\u00e3o me podia esquecer que o pa\u00eds em que me encontrava era uma ditadura onde as liberdades nem uma miragem s\u00e3o das do mundo ocidental.<br \/>\nProcurei fazer que os ignorava, mas uma dessas lanternas tamb\u00e9m desceu a ravina e veio ao meu encontro. (continua)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<br \/>\nProfessor de Hist\u00f3ria<br \/>\ne fot\u00f3grafo<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":256233,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1813,1814,450,1815],"class_list":["post-256232","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-1813","tag-aralsky","tag-jose-luis-santos","tag-uzbequistao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=256232"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256232\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media\/256233"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=256232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=256232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=256232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}