{"id":257301,"date":"2023-02-16T11:09:47","date_gmt":"2023-02-16T11:09:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=257301"},"modified":"2023-02-16T11:09:47","modified_gmt":"2023-02-16T11:09:47","slug":"opiniao-os-pintainhos-a-volta-da-galinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-os-pintainhos-a-volta-da-galinha\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Os pintainhos \u00e0 volta da galinha"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248854\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tu n\u00e3o vais acreditar. Coisas do arco da velha que at\u00e9 parecem inven\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o, pura realidade. Eu conto.<br \/>\nO Ch\u00e3o da V\u00e3 \u00e9 uma aldeia ribeirinha que existe mesmo, com este nome esquisito, tem c\u00f3digo postal e tudo, para n\u00e3o pensares que invento: Ch\u00e3o da V\u00e3 6000-540 Juncal do Campo, Castelo Branco. Os cinco pintainhos \u00e0 volta da galinha, adivinha, eram cinco crian\u00e7as em frente de uma regente escolar, todas sentadas em trope\u00e7os de corti\u00e7a, bem juntinhas, coladinhas, por raz\u00f5es que adiante se ver\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o sei se sabes o que era uma regente escolar, mas hoje, com a crise que a\u00ed vai, \u00e9 f\u00e1cil de explicar. Naquele tempo, meados do s\u00e9culo passado, nem havia professores que chegassem, nem Salazar queria que houvesse. As crian\u00e7as, pensava ele, sufocavam as Finan\u00e7as. O que \u00e9 que o homem fez? Fechou as Escolas do Magist\u00e9rio, que formavam os professores, e criou a classe das regentes escolares, muito mais baratinhas, nem precisavam de ter a 4\u00aa classe, bastava que fossem pessoas de bem, boa conduta, e que transmitissem fielmente a imagem do regime, a Uni\u00e3o Nacional. Meninas, \u00e0s vezes ainda adolescentes, que n\u00e3o queriam trabalhar no campo, que canseira, aceitavam ser regentes em troca de um sal\u00e1rio de 300 escudos s\u00f3 nos meses que trabalhavam, um euro e meio na moeda atual. Como v\u00eas, professora, professor, o problema n\u00e3o \u00e9 novo. As nossas crian\u00e7as continuam um grande estorvo para as Finan\u00e7as.<br \/>\nUm dia, o Senhor Inspetor Escolar, naquele tempo dobrava-se a l\u00edngua, contou um epis\u00f3dio verdadeiro que n\u00e3o vais acreditar. Eu ia almo\u00e7ar com alguma frequ\u00eancia a casa do Senhor Inspetor, o pai do meu melhor amigo nessa \u00e9poca. E contou ao almo\u00e7o a hist\u00f3ria mais estapaf\u00fardia que ouvi em termos de pedagogia pura, vivida, ali, no terreno. Foi ao Ch\u00e3o da V\u00e3 visitar o Posto Escolar, com a regente em plena sess\u00e3o de trabalho, muito concentrada, crian\u00e7as muito atentas. Todas foram lendo, uma ap\u00f3s outra, para o Senhor Inspetor ver a qualidade do trabalho desenvolvido. E liam mesmo.<br \/>\nPequeno pormenor: s\u00f3 havia um livro de leitura, que a regente abria no rega\u00e7o, voltado para ela, e as crian\u00e7as do outro lado aprendiam a ler com o livro ao contr\u00e1rio. Professoras de hoje, atentai, aposto que os vossos alunos n\u00e3o t\u00eam esta habilidade adquirida de ler de pernas para o ar. A boa pedagogia tem contornos inimagin\u00e1veis. Mas tamb\u00e9m, o que \u00e9 que isso interessa, ler podem ler ao contr\u00e1rio, o que n\u00e3o podem \u00e9 desatinar com a linha do regime.<br \/>\nSalazar tinha coisas que hoje n\u00e3o lembrariam nem ao diabo. O homem deve ter aprendido as primeiras letras com uma regente escolar e por isso, em vez de ler que as Finan\u00e7as sufocam as crian\u00e7as, lia que as crian\u00e7as sufocam as Finan\u00e7as. Teimava em ler o livro ao contr\u00e1rio.<br \/>\nPassou por a\u00ed um ministro que tinha uma ideia estramb\u00f3lica: n\u00e3o adianta ensinar bem um chorrilho de asneiras e barbaridades. Punha o foco mais naquilo que se ensina e menos na maneira como se ensina. No fundo, \u00e9 a linha dos adeptos do eduqu\u00eas, que defender\u00e3o que a regente do Ch\u00e3o da V\u00e3 ensinou o que devia, as crian\u00e7as aprenderam a ler bem, o modo pouco importa. As crian\u00e7as s\u00e3o livres de ler como sabem. Se as l\u00ednguas sem\u00edticas, como o \u00e1rabe e o hebraico, se leem da direita para a esquerda, ao contr\u00e1rio das l\u00ednguas rom\u00e2nicas e outras, pode dar jeito ler com o livro ao contr\u00e1rio. Imaginem que os futuros jovens que aprenderam a ler com o livro ao contr\u00e1rio s\u00e3o colocados nas Finan\u00e7as em Castelo Branco. Os contribuintes chegam e poisam os seus documentos em cima do balc\u00e3o. Nenhum problema: a leitura \u00e9 igualmente acess\u00edvel ao cliente, que l\u00ea de frente, e ao funcion\u00e1rio, que l\u00ea ao contr\u00e1rio. Aqui se v\u00ea que o mundo \u00e9 perfeito. Mas fica-me uma desconfian\u00e7a: acho que o governo e os professores atuais tamb\u00e9m n\u00e3o aprenderam a ler da mesma maneira, n\u00e3o sei se aprenderam de pernas para o ar, mas de certeza que uns aprenderam da direita para a esquerda e outros da esquerda para a direita. Com outro problema: muitos s\u00f3 aprenderam a ler o que est\u00e1 na cartilha. Heran\u00e7a tr\u00e1gica. Fiquei ligado ao Ch\u00e3o da V\u00e3, n\u00e3o apenas por esta li\u00e7\u00e3o de pedagogia, mas por uma li\u00e7\u00e3o de vida, hoje muito atual, em que um \u201cregente\u201d de engenharia foi chamado a desempenhar as fun\u00e7\u00f5es de engenheiro diplomado. O Ch\u00e3o da V\u00e3 n\u00e3o tinha nem capela, nem igreja, nem o sino a dar as horas ao som do hino de F\u00e1tima. Falha inadmiss\u00edvel. A constru\u00e7\u00e3o de um edif\u00edcio desta envergadura exigia um projeto, uma \u201cplanta\u201d, que a junta de freguesia do Juncal tinha de submeter \u00e0 C\u00e2mara de Castelo Branco.<br \/>\nC\u00e1 d\u00ea um mestre arquiteto de alto gabarito para trabalho de tamanha responsabilidade? N\u00e3o havia, mas a junta convidou um \u00f3timo \u201cregente de engenharia\u201d, que era eu. Com raz\u00e3o, eu andava no 5\u00ba ano do liceu, tinha uma r\u00e9gua, um esquadro, um tira linhas e habilita\u00e7\u00f5es muito superiores \u00e0s das regentes escolares, preenchia todos os requisitos.<br \/>\nSomos um pa\u00eds de g\u00e9nio: \u201cse n\u00e3o tens c\u00e3o, ca\u00e7as com gato\u201d. \u00c9 a verdadeira afirma\u00e7\u00e3o do g\u00e9nio luso, que o ME est\u00e1 a aplicar aos professores. Com uma dificuldade: os professores n\u00e3o s\u00e3o propriamente animais dom\u00e9sticos, mas mordem e arranham que se desunham.<br \/>\nA C\u00e2mara aprovou o projeto, a igreja fez-se e at\u00e9 hoje n\u00e3o caiu. Mestre Afonso Domingues, lembram-se, o arquiteto cego que projetou a Ab\u00f3bada do Mosteiro da Batalha, como reza a linda narrativa de Alexandre Herculano, foi aqui substitu\u00eddo por outro Afonso, nem mestre, nem arquiteto, nem talento, nem coragem de dormir sob o teto da obra acabada de construir, mas tinha r\u00e9gua e esquadro, o suficiente para ser regente. Os regentes v\u00e3o ser a salva\u00e7\u00e3o da escola. Ensinam de pernas para o ar? Sim, mas fica tudo mais barato e equilibram as Finan\u00e7as. Como diria Madame de Pompadour, depois de mim, o dil\u00favio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":248854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1170,100],"class_list":["post-257301","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-afonso-baptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257301","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257301"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257301\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257301"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257301"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257301"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}