{"id":257353,"date":"2023-02-17T11:39:57","date_gmt":"2023-02-17T11:39:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=257353"},"modified":"2023-02-17T11:39:57","modified_gmt":"2023-02-17T11:39:57","slug":"opiniao-ligado-a-corrente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-ligado-a-corrente\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Ligado  \u00e0 Corrente"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/10\/opiniao-este-pais-nao-e-para-velhos-2\/bruno-paixao-opi-2\/\" rel=\"attachment wp-att-248923\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-248923\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/BRUNO-PAIXAO-opi-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sentada \u00e0 mesa do pequeno almo\u00e7o disse-me que havia vivido a mais bonita hist\u00f3ria de amor. S\u00f3 isso justifica que tivesse casado duas vezes com o mesmo homem. A \u00faltima das quais depois de um encontro em Paris. Ele tratava-a carinhosamente por Peluche, ela chamava-lhe Lucho. <strong>Carmen Y\u00e1\u00f1ez<\/strong> falava do seu marido, o enorm\u00edssimo escritor e ativista chileno Luis Sep\u00falveda, falecido em 2020, autor de \u201cO velho que lia romances de amor\u201d, \u201cHist\u00f3ria de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar\u201d, \u201cPatag\u00f3nia Express\u201d, \u201cMundo do fim do mundo\u201d, e de muitos, muitos outros.<\/p>\n<p>Conhecemo-nos na P\u00f3voa de Varzim, onde vim para participar no Correntes d\u2019Escritas, o maior festival liter\u00e1rio portugu\u00eas, que se realiza h\u00e1 vinte e quatro edi\u00e7\u00f5es, juntando perto de uma centena de escritores de diferentes geografias de l\u00ednguas hisp\u00e2nicas e portuguesas, de 15 nacionalidades diferentes. Carmen decidiu doar a biblioteca particular de Sep\u00falveda ao munic\u00edpio local. Disse-me que se sentia honrada com isso. E que a P\u00f3voa \u00e9 um marco indeclin\u00e1vel, onde o marido participou tantas e tantas vezes.<\/p>\n<p>Durante cinco dias, o Correntes d\u2019Escritas aproxima escritores, editores, programadores, agentes e jornalistas. \u00c9 uma verdadeira plataforma liter\u00e1ria. \u00c0 hora avan\u00e7ada em que escrevo, folheando o dossi\u00ea que me foi sido entregue \u00e0 entrada do evento, deparo-me com o contacto telef\u00f3nico de cada uma das pessoas ligadas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o. Esfrego os olhos, que pirilampiscam de incredulidade: numa coluna o nome, na outra o n\u00famero de telem\u00f3vel. Conto quarenta e cinco n\u00fameros. Penso no quanto a P\u00f3voa tem para nos ensinar. E que n\u00e3o \u00e9 por acaso o seu sucesso arrojado e duradouro.<\/p>\n<p>A folha seguinte lista o hor\u00e1rio dos autocarros que gratuitamente levam as pessoas aos espa\u00e7os onde decorrem as diversas sess\u00f5es. Abro um envelope e vejo um vale para almo\u00e7ar livremente num dos treze restaurantes com quem a organiza\u00e7\u00e3o estabeleceu acordo. Para promover um contacto mais genu\u00edno, o jantar foi servido num espa\u00e7o comum, com mesas redondas para que nos pud\u00e9ssemos sentar livremente onde quis\u00e9ssemos. Entre editores concorrentes, jornalistas e escritores, foi nesta circunst\u00e2ncia que conheci, por exemplo, a maravilhosa escritora Teolinda Gers\u00e3o, que gentilmente partilhou comigo algumas particularidades do seu m\u00e9todo de escrita. Ou com Afonso Cruz, autor de um dos livros que mais me marcou pela sua qualidade liter\u00e1ria e pela criatividade t\u00e3o bem esculpida. Foram-me apresentados escritores de v\u00e1rios pa\u00edses e fic\u00e1mos a deambular por entre sonhos, encantos e utopias. A voz narrativa dos livros, na primeira pessoa, os bastidores da escrita, o olhar sobre a torrente da literatura e os seus caminhos que serpenteiam no ocaso de amanh\u00e3s incertos.<\/p>\n<p>Neste dia em que escrevo, olho pelo retrovisor do tempo e lembro que, h\u00e1 umas horas, partilhei a mesa com a escritora espanhola Cristina Morales. Ela falou de um dos seus livros, eu falei do meu romance de estreia, \u201cOs segredos de Juvenal Papisco\u201d. Levantei-me quando o meu editor deu por encerrada a sess\u00e3o. Comecei a arrumar a mochila. Mas havia gente com o livro na m\u00e3o, interessada em conversar sobre as personagens, sobre os detalhes, sobre a constru\u00e7\u00e3o e sobre a forma como escrevo: o ritmo, o campo sem\u00e2ntico, as imagens escondidas nas palavras. Naquele desajeitamento, n\u00e3o ia preparado para autografar coisa nenhuma. Queria s\u00f3 passar com ligeireza pela porta de sa\u00edda. Mas as portas, as portas constru\u00eddas pelo Homem, t\u00eam esta caracter\u00edstica: servem para sair, mas servem tamb\u00e9m para entrar.<\/p>\n<p>Lembro-me de ter dito \u2013 e n\u00e3o sei por que raio o disse \u2013 que uma boa hist\u00f3ria pode mudar uma vida, \u00e9 uma das \u00fanicas formas pac\u00edficas de mudar o mundo. Perguntar para que serve a arte, a cultura, a escrita, \u00e9 o mesmo que perguntar para que serve a exist\u00eancia. Se n\u00e3o me perguntarem, eu sei. Se me perguntarem, deixo de saber responder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Paix\u00e3o, Investigador em comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":248923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[455,2276,2277,100],"class_list":["post-257353","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-bruno-paixao","tag-carmen-yanez","tag-luis-sepulveda","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257353"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257353\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}