{"id":257420,"date":"2023-02-18T10:32:12","date_gmt":"2023-02-18T10:32:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=257420"},"modified":"2023-02-18T10:32:12","modified_gmt":"2023-02-18T10:32:12","slug":"opiniao-para-alem-e-para-aquem-de-kiev","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-para-alem-e-para-aquem-de-kiev\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o &#8211; Para al\u00e9m  e para aqu\u00e9m de Kiev"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/12\/opiniao-semente-de-esperanca-vinda-do-passado\/rui-bebiano-opi-2\/\" rel=\"attachment wp-att-252909\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-252909 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao longo de v\u00e1rios s\u00e9culos a <strong>popula\u00e7\u00e3o da Europa<\/strong> viveu <strong>atormentada<\/strong> por uma sombra amea\u00e7adora que os <strong>historiadores<\/strong> designaram <strong>\u00abo medo do turco\u00bb<\/strong>. Isto \u00e9, o constante receio de uma conquista otomana que virasse o seu mundo ao contr\u00e1rio. Ao mesmo tempo, setores da elite cultural foram alimentando uma dimens\u00e3o de fasc\u00ednio por esse universo instalado a oriente que a maioria desconhecia tanto quanto temia. Num e noutro dos casos, o sentimento dominante era o de estranheza perante h\u00e1bitos, cren\u00e7as, valores e formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social substancialmente diversos daqueles que, apesar da pluralidade de regimes e sociedades, eram basicamente compartilhados pela generalidade dos europeus.<br \/>\nO \u00abmedo do turco\u00bb emergiu com o avan\u00e7o do Imp\u00e9rio Otomano e a conquista de Constantinopla, ocorrida 1453, mantendo-se essencialmente at\u00e9 ao in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Em 1683, a derrota dos turcos na tentativa de conquistar Viena marcou um ponto de viragem no at\u00e9 ali impar\u00e1vel avan\u00e7o turco, permitiu tra\u00e7ar uma fronteira relativamente segura. Todavia, ainda em 1717 uma for\u00e7a naval composta sobretudo por navios venezianos, malteses, portugueses e dos Estados papais foi reunida para afastar a amea\u00e7a que permanecia, vencendo a armada do sult\u00e3o Ahmed III junto ao cabo Matapan, no extremo sul da Gr\u00e9cia. Dois grandes fatores determinaram esse medo: a consci\u00eancia de uma real e persistente amea\u00e7a militar, e a hip\u00f3tese de o Isl\u00e3o se sobrepor ao antigo complexo civilizacional de raiz crist\u00e3.<br \/>\nEntretanto, setores da elite culta europeia tinham desenvolvido um fasc\u00ednio que tendia a desvalorizar a amea\u00e7a e a fantasiar uma Turquia que na realidade mal conheciam, mas pintavam com tra\u00e7os de um atraente exotismo. Na sua magn\u00edfica biografia de Istambul, Orhan Pamuk aborda com muitos detalhes a tradi\u00e7\u00e3o de escritores, fil\u00f3sofos, artistas ou simples viajantes europeus que, a partir dos finais do s\u00e9culo XVIII, imaginaram a grande cidade do B\u00f3sforo e as regi\u00f5es que esta controlava como um espa\u00e7o fant\u00e1stico. O \u00aborientalismo\u00bb, que em 1976 Edward Sa\u00efd julgou no plano te\u00f3rico, traduziu esse logro, assente na representa\u00e7\u00e3o, a partir de uma perspetiva euroc\u00eantrica, de aspetos de culturas situadas a leste da Europa encaradas como fonte de encantamento e desejo.<br \/>\nEsta perspetiva duplamente desfocada de medo e de fasc\u00ednio por um \u00abmundo-outro\u00bb pode ser comparada, ainda que em contexto bem diverso, com a rela\u00e7\u00e3o que tem vindo a ser desenvolvida na Europa central e ocidental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia de Putin. O confronto em curso na Ucr\u00e2nia, agravado com a invas\u00e3o militar que completa agora um ano, tem vindo a aprofundar uma clivagem que tende a empurrar Moscovo para uma \u00e1rea extraeuropeia, por muito que a grande tradi\u00e7\u00e3o cultural da R\u00fassia, facilmente esquecida, tenha sido em larga medida constru\u00edda em contexto europeu. \u00c9 neste contexto de rutura e confronto que se situam as inaceit\u00e1veis medidas do governo ucraniano destinadas a extirpar a influ\u00eancia russa e a silenciar a obra de tantos criadores, mortos, como Dostoievski ou Tchaikovsky, ou mesmo vivos, interpretados como voz do inimigo.<br \/>\nA evolu\u00e7\u00e3o do conflito em curso, que tem distanciado poderosamente a autocracia russa e os seus aliados das democracias ocidentais, colocando os dois lados em estado de prontid\u00e3o armada, amplia esse universo de incompreens\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de mais uma guerra, pois est\u00e1 a deslocar dos Urais para a regi\u00e3o de Kiev o limite f\u00edsico e cultural de uma Europa das na\u00e7\u00f5es fundada na liberdade de express\u00e3o e no respeito pelas soberanias. Est\u00e1 a impor-se uma realidade amea\u00e7adora \u2013 diversa daquela, sobretudo ideol\u00f3gica, que foi a da Guerra Fria \u2013, tendente a instalar um clima de incompreens\u00e3o nefasto para os povos que, de um lado e do outro da nova linha de fronteira entre Leste e Oeste, e mesmo mais al\u00e9m, tender\u00e3o a olhar-se como estranhos e a temer-se.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano<br \/>\nHistoriador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":252909,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2304,100,547,2305],"class_list":["post-257420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-investigador-do-ces-e-autor","tag-opiniao","tag-rui-bebiano","tag-rui-bebiano-historiador"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257420"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257420\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}