{"id":257422,"date":"2023-02-18T10:45:27","date_gmt":"2023-02-18T10:45:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=257422"},"modified":"2023-02-18T10:45:27","modified_gmt":"2023-02-18T10:45:27","slug":"opniao-4815-o-numero-da-nossa-vergonha-dito-na-lingua-do-terror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opniao-4815-o-numero-da-nossa-vergonha-dito-na-lingua-do-terror\/","title":{"rendered":"Opni\u00e3o &#8211; 4815: O n\u00famero da nossa vergonha dito na L\u00edngua do terror"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2023\/02\/opniao-4815-o-numero-da-nossa-vergonha-dito-na-lingua-do-terror\/martha\/\" rel=\"attachment wp-att-257428\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-257428 size-medium\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/martha-300x167.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/martha-300x167.jpg 300w, https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/martha.jpg 479w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Passei muitos anos na escurid\u00e3o. Foi horr\u00edvel. Destruiu o meu futuro. Ainda hoje sinto a m\u00e3o nojenta a acariciar-me a nuca. Ia \u00e0 minha cama e apalpava-me, perguntava-me se eu j\u00e1 pecara. Vivi sempre sobressaltado. Tinha medo porque era pecador e ia para o inferno. Mandava-me ir buscar rebu\u00e7ados cada vez que tivesse maus pensamentos! Um dia, consegui 26 rebu\u00e7ados. 20 rapazes \u00f3rf\u00e3os. O Frei W. era s\u00e1dico, porco, muito mau. Deitava-se e adormecia. Agora tens de te ir confessar. Tinha tanta raiva de mim, que me batia a mim pr\u00f3prio. Devia ter denunciado. A culpa, a vergonha, faz encolher tudo para dentro. Os pedidos dos padres eram levados a s\u00e9rio, t\u00e3o sagrados como os dos pais. Recordo-me de crian\u00e7as completamente influenci\u00e1veis, ing\u00e9nuas. E recordo a religi\u00e3o feita assunto de vida, do levantar, ao deitar. Uma vez por semana, orienta\u00e7\u00e3o espiritual, num quarto do 1\u00ba andar. Cadeiras muito pr\u00f3ximas, demasiado pr\u00f3ximas. A m\u00e3o dele nas minhas pernas, as pernas dele entre as minhas. Agarrava-me, mantendo-me encostado \u00e0s pernas, ao peito. M\u00e3os que me apalpavam. O S, sempre triste, o mais fr\u00e1gil de todos, parecia quase n\u00e3o existir. Quando o meu pai nos ia buscar, dava-lhe boleia at\u00e9 uma casa suja e muito pobre no meio do pinhal. Quando soube que o S se suicidara, lembrei-me, de imediato, do padre B e perguntei-me porqu\u00ea. As pessoas achavam que fazia parte e o poder cat\u00f3lico sobre as consci\u00eancias \u00e9 brutal. Toda a gente sabe tudo. Disse que eu precisava de prote\u00e7\u00e3o. Por ser novinho. Eu tinha de fazer o que ele queria. Foi a primeira viola\u00e7\u00e3o. N\u00e3o contei nada, s\u00f3 dizia que n\u00e3o queria voltar. Obrigaram-me. Quando voltei, o padre usava daquelas chaves antigas, com uma grande argola, e deu-me com a chave na cabe\u00e7a, de castigo. Levou-me \u00e0 for\u00e7a para o quarto, pela segunda vez. Lembro-me de acordar durante a noite a transpirar, aos gritos. Sempre me apeteceu proteger as crian\u00e7as. Muitas, dos 4 aos 14 anos. Uma vez por semana, ao longo de anos. Com a coniv\u00eancia das freiras. Mandava cham\u00e1-la e levava-a. Fez queixa. 3 dias sem comer. O Estado devia pagar apoio psicol\u00f3gico \u00e0s v\u00edtimas. N\u00e3o sou um n\u00famero. Sou uma pessoa. Penso onde andar\u00e1 esse tarado, pois ele far\u00e1 mal a outros. Fic\u00e1mos em sil\u00eancio, depois de ele nos ter despido, tocado, sugado, mexido at\u00e9 atingirmos o fim, perverso. Essas situa\u00e7\u00f5es aconteceram a todos os meninos que ajudavam na Igreja. Contou aos pais, n\u00e3o acreditaram. O pai deu-lhe com o cinto. Eu deixava que ele fizesse, pensei at\u00e9 se gostaria daquilo. A Madre chama-me ao quadro e, diante da turma, diz que sou mentirosa, pecadora. Manda-me ir buscar uma colher de sopa de pimenta. A colher cheia. Fez-me engolir tudo, de uma vez, diante da turma inteira. Ainda sinto a sensa\u00e7\u00e3o de quase morrer asfixiada, a pimenta na garganta, nariz, pulm\u00f5es, olhos, ouvidos. Senti-me violentada pela segunda vez, no mesmo dia. Jamais se apagar\u00e1. Deste abuso resultou uma gravidez, que foi interrompida. A m\u00e3e do padre disse-lhe, na minha frente, que ele nunca mais me tocasse ou ela iria mat\u00e1-lo com as pr\u00f3prias m\u00e3os. A minha av\u00f3, 81 anos, viu o cartaz. N\u00e3o queria morrer sem contar o que aconteceu. Nunca ningu\u00e9m tinha acreditado em mim; agora posso contar a quem acredita. O X n\u00e3o aguentou, vinha a chorar, a chorar. Demorou tanto, tanto, a parar de chorar. N\u00e3o havia ningu\u00e9m a quem contar. Sabem o que penso? Onde andar\u00e1 ele? E se um dia for com o meu filho?<\/em><br \/>\n[O Estudo dos Abusos Sexuais de Crian\u00e7as na Igreja Cat\u00f3lica, apresentado esta semana, inclui centenas de testemunhos de v\u00edtimas. Quem sobreviveu para contar este horror, pervers\u00e3o e deprava\u00e7\u00e3o absolutos &#8211; quem grita, agora, pelo que durante tanto tempo se calou &#8211; \u00e9 heroico e merece que a sua voz ecoe, at\u00e9 que seja feita justi\u00e7a. Este \u00e9 o lugar do imperdo\u00e1vel. Vemos, ouvimos e lemos. N\u00e3o podemos ignorar. Admite-se que ter\u00e1 havido, no m\u00ednimo, 4.815 v\u00edtimas de abusos sexuais na Igreja portuguesa. S\u00e3o 512 testemunhos, ditos na L\u00edngua do terror. A cr\u00f3nica desta semana n\u00e3o foi escrita por mim. Esta \u00e9 a voz das v\u00edtimas. Fa\u00e7am barulho \u2013 sil\u00eancio, nunca mais.]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martha Mendes<br \/>\nGestora de Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":257430,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[539,100],"class_list":["post-257422","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-martha-mendes","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257422\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media\/257430"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}