{"id":257751,"date":"2023-02-24T10:19:35","date_gmt":"2023-02-24T10:19:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=257751"},"modified":"2023-02-24T10:19:35","modified_gmt":"2023-02-24T10:19:35","slug":"opiniao-a-mesa-com-portugal-a-pinca-e-a-colher-de-pau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-mesa-com-portugal-a-pinca-e-a-colher-de-pau\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: \u00c0 Mesa com Portugal \u2013 A pin\u00e7a e a colher de pau"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/OLGA-CAVALEIRO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-253299\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/OLGA-CAVALEIRO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tivemos o tempo em que a pin\u00e7a substituiu a colher de pau e a cozedura a v\u00e1cuo se fez mais interessante que o pote. Ir a um restaurante de cozinha de autor, num bairro da moda de uma cidade qualquer, era tend\u00eancia e ir a um lugar de comida de tacho era olhado de soslaio. Bem, atualmente, acho que todos queremos ir a um e a outro. O discurso \u00e9 p\u00f3s-moderno e admite v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es. O que \u00e9 incr\u00edvel para quem consome, pois permite a diversidade de sabor e n\u00e3o nos deixa s\u00f3 com uma vis\u00e3o da cozinha. Para os restaurantes, tal \u00e9 maravilhoso, sobretudo para os que se situam nos lugares mais distantes, pois permite a sobreviv\u00eancia de modos de vida, paisagens, produtos, sabores e pr\u00e1ticas culturais. Muito, mas mesmo muito importante, digo eu que tenho investigado por esses caminhos invis\u00edveis da cozinha portuguesa.<br \/>\nMas, precisamos perceber que o local e tudo o que o comp\u00f5e n\u00e3o pode, n\u00e3o deve ser algo que se cristalize como t\u00edpico, cultural, \u00e9tnico, etnogr\u00e1fico, apenas s\u00f3 porque sim. As fragilidades s\u00e3o imensas se o fizermos somente porque \u00e9 uma tend\u00eancia. \u00c9 que se acharmos que a riqueza do local est\u00e1 em qualquer elemento que julgamos quase m\u00edtico como os potes, os tachos, as colheres de pau, as hortas, as rugas das matriarcas, as m\u00e3os que amassam e tendem o p\u00e3o, pouco ou nada vamos fazer pelos recantos gastron\u00f3micos mais profundos de Portugal. Ser\u00e1 s\u00f3 uma quest\u00e3o de moda, de leva e traz que n\u00e3o deixa nada. Passada a euforia, o saldo resume pouco para quem l\u00e1 vive. As dificuldades ir\u00e3o permanecer. A cozinha local transforma-se num cartaz tur\u00edstico que leva \u00e0 sua plastifica\u00e7\u00e3o e os produtos, que eram \u00fanicos, passam a ser industrializados. Ter\u00edamos muitos exemplos para dar e que, estou certa, nos fariam pensar e muito sobre o tal produto que dizemos \u201clocal\u201d e \u201c\u00fanico\u201d. Ou ent\u00e3o, andamos a fazer publicidade a uma pr\u00e1tica que, ao contr\u00e1rio do que se pensa, pouco tem de \u201ctradicional\u201d pois que da pr\u00e1tica ancestral s\u00f3 sobrevive um sopro. Tamb\u00e9m aqui, os exemplos que conhe\u00e7o deixam-me inquieta.<br \/>\nReceio sempre muito as modas e as tend\u00eancias. Quase em voto de protesto, afasto-me sempre delas. N\u00e3o confio. Nem na forma como se faz, nem o que elas traduzem. Sou irrequieta, fa\u00e7o perguntas dif\u00edceis e inc\u00f3modas, n\u00e3o me deixo vencer apenas pela repeti\u00e7\u00e3o de discursos que suportam o clich\u00e9 que a todos agrada. A moral n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m e a cozinha portuguesa tamb\u00e9m n\u00e3o. Mas, vamos ouvi-la, senti-la, question\u00e1-la e lev\u00e1-la connosco para o futuro em cada gesto, em cada refei\u00e7\u00e3o, em cada viagem. Pelo menos, ser\u00e1 certo de que seremos honestos e que a nossa cozinha n\u00e3o ser\u00e1 apenas uma fotografia bonita de se publicar. Ter\u00e1 alma e substrato por detr\u00e1s, gente que ter\u00e1 de viver mesmo depois de desaparecer a tend\u00eancia do tacho, da panela, do pote e formos atr\u00e1s de uma outra moda qualquer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olga Cavaleiro<br \/>\nInvestigadora em Hist\u00f3ria e Cultura gastron\u00f3mica<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":253299,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2428,2429,2430,2431],"class_list":["post-257751","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-colher-de-pau","tag-cozedura-a-vacuo","tag-cozinha-de-autor","tag-pinca"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}