{"id":257882,"date":"2023-02-25T13:26:30","date_gmt":"2023-02-25T13:26:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=257882"},"modified":"2023-02-25T13:26:30","modified_gmt":"2023-02-25T13:26:30","slug":"opiniao-a-indecencia-de-nao-ter-onde-morar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-indecencia-de-nao-ter-onde-morar\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;A Indec\u00eancia de n\u00e3o ter onde morar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/12\/opiniao-abaixo-o-ano-velho-viva-o-ano-novo\/manuel-rocha-opi-2\/\" rel=\"attachment wp-att-253410\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-253410\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O mundo da minha adolesc\u00eancia estendia-se entre o largo do Arnado e o largo da Portagem. Vivia na Conchada, que era um afluente daquele rio de gente. O que talvez nos escapasse, nas idas e vindas de c\u00e1 para l\u00e1, era a exist\u00eancia de tantos moradores naquelas casas altas de r\u00e9s do ch\u00e3o comercial e, dali para cima, armaz\u00e9ns, consult\u00f3rios m\u00e9dicos e casas de habita\u00e7\u00e3o. Os moradores fazem muita falta naquele quase-s\u00f3 corredor de passagem, onde deixou de haver a galeria do \u201cPrimeiro de Janeiro\u201d, a Novalmedina, a Atl\u00e2ntida, os pontos de encontro da Brasileira e do Arc\u00e1dia, a barbearia do Bas\u00edlio, a loja-museu do Santos Ventosa, a Hilda (dos retratos da Cidade).<br \/>\nAli ao lado, em territ\u00f3rio de cota inferior, que a cheia do Mondego \u00e0s vezes submergia, a Baixa era o lugar dos of\u00edcios e do com\u00e9rcio mais mi\u00fado. Dali sa\u00edram, h\u00e1 muito, os bazares, as sapatarias, as lojas de ferragens, as mercearias, o imp\u00e9rio de vidro e barro do Saul Morgado, o Loureiro dos Caf\u00e9s (que deixou um balc\u00e3o de liquida\u00e7\u00e3o de heran\u00e7as familiares tomar-lhe o perfume), e quase s\u00f3 o Pedrosa resiste ali ao Largo do Po\u00e7o, a vestir gera\u00e7\u00f5es de beb\u00e9s desta terra. Do outro lado, al\u00e9m do Arco de Almedina, o Quebra Costas abrigava lojas de mob\u00edlias e moradores, muitos moradores, que eram o sangue da Cidade.<br \/>\nMuito fr\u00e1gil se revelou, afinal, aquele mundo de gente e suas ocupa\u00e7\u00f5es. As ruas desta cidade arrumaram-se facilmente em meia-d\u00fazia de corredores de superf\u00edcies comerciais, e a morte marcada da Jaime Cortes\u00e3o e da Esta\u00e7\u00e3o Nova dar\u00e1 por encerrado um tempo de Coimbra, substituindo, por gente nenhuma, a gente que morava, que trabalhava, que comprava, que passava tempo a ver a Cidade fluir.<br \/>\nServe a saudade para pouco. Usemo-la, ent\u00e3o, nestas p\u00e1ginas de tamb\u00e9m-Cidade para lutar pela reposi\u00e7\u00e3o do que continua a ser roubado \u00e0 respira\u00e7\u00e3o da urbe \u2013 a morada das pessoas nas ruas precisadas de gente. Casas sem gente s\u00e3o o pasto do neg\u00f3cio imobili\u00e1rio sem freio, inventor dos muitos \u201cespa\u00e7os\u201d que alimentam o exerc\u00edcio especulativo que \u00e9 a sua raz\u00e3o de ser. Mas a exist\u00eancia de tanta gente sem casa \u00e9 raz\u00e3o suficiente para que as governa\u00e7\u00f5es das cidades, as governa\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, tomem medidas que travem a convers\u00e3o de cidades inteiras num cat\u00e1logo de metros quadrados que os fundos imobili\u00e1rios compram por tost\u00f5es para vender por milh\u00f5es.<br \/>\nO governo apresentou agora \u201cao pa\u00eds\u201d aquilo a que chamou \u201cNova Gera\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Habita\u00e7\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, bem vistas as coisas, o produto \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio do publicitado. A \u201cnova pol\u00edtica\u201d desprotege inquilinos e pequenos propriet\u00e1rios e inspira-se, afinal, na cartilha neoliberal: alarga os benef\u00edcios fiscais para especuladores, p\u00f5e a Autoridade Tribut\u00e1ria a cobrar rendas, trava o investimento p\u00fablico, garante \u00e0 Banca o papel de (des)regulador do mercado, de dona da maior parcela do rendimento das fam\u00edlias, de executora das vidas desvalidas.<br \/>\nNo Portugal de tantas mil habita\u00e7\u00f5es devolutas, haver gente sem casa e casas sem gente n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade \u2013 \u00e9 indecente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha, Docente<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":253410,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-257882","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=257882"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/257882\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=257882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=257882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=257882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}