{"id":258378,"date":"2023-03-04T14:26:16","date_gmt":"2023-03-04T14:26:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=258378"},"modified":"2023-03-04T14:26:16","modified_gmt":"2023-03-04T14:26:16","slug":"opiniao-da-aventura-de-ler-ao-desvario-de-rever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-da-aventura-de-ler-ao-desvario-de-rever\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8220;Da aventura de ler ao desvario de rever&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-252909 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando comecei a decifrar as letras tornei-me logo um leitor voraz. Por isso a minha perspetiva do mundo confunde-se com a imagina\u00e7\u00e3o, a d\u00favida, a experi\u00eancia e os saberes proporcionados pela leitura intensa e quotidiana. Sem ela, jamais teria conhecido tantos lugares distantes, nunca teria voado sobre fal\u00e9sias e despenhadeiros, navegado at\u00e9 outras \u00e9pocas e planetas, conversado com personagens de romance ou medido a extens\u00e3o do real e do irreal. Tamb\u00e9m pouco ou nada saberia da hist\u00f3ria do mundo e do seu legado, de outras l\u00ednguas, de filosofias que libertam, do imperativo das utopias e da infinita diversidade do humano nas escolhas e na subjetividade. Habitaria apenas realidades expect\u00e1veis, servo de destinos que n\u00e3o entenderia e jamais poderia contrariar.<br \/>\nDa\u00ed a m\u00e1goa que sinto de cada vez que observo a vida pequena de quem n\u00e3o l\u00ea e nem sabe o que alcan\u00e7aria se o fizesse. Num panorama que tem vindo a crescer mesmo em campos, como o do ensino universit\u00e1rio, onde tem aumentado a percentagem de quem n\u00e3o tem h\u00e1bitos de leitura ou que l\u00ea sem sentido cr\u00edtico e apenas por dever. \u00c9 claro, todavia, que a for\u00e7a da imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 libertada apenas pela leitura convencional. A pluralidade das tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o permite hoje aceder por diferentes vias a m\u00f3dulos de conhecimento, aos quais, na forma tradicional, jamais se chegaria. Ainda assim, nada existe que substitua a leitura silenciosa, imersiva e pessoal, feita no papel ou por via eletr\u00f3nica, capaz de reunir em cada consci\u00eancia experi\u00eancias fortes e \u00fanicas.<br \/>\nPara ser completa e criadora, a vertigem de conhecimento proporcionada pela leitura requer, entretanto, uma variedade de sentidos e express\u00f5es. N\u00e3o pode ser tolhida pela censura ou pela destrui\u00e7\u00e3o dos \u00ablivros perigosos\u00bb \u2013 como no romance dist\u00f3pico \u00abFarenheit 451\u00bb, de Ray Bradbury \u2013, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser sujeita a deforma\u00e7\u00f5es impostas pelo pensamento dominante ou pela \u00abpresentifica\u00e7\u00e3o\u00bb do passado, adaptado a uma vis\u00e3o depurada da linguagem, como a \u00abnovil\u00edngua\u00bb aludida por Orwell em \u00ab1984\u00bb, que molda a realidade. Para quem assim pensa, escreveu no P\u00fablico a colunista Maria Jo\u00e3o Marques, \u00abos leitores n\u00e3o podem ser confrontados com o que \u00e9 ofensivo e fora das lentes atuais, n\u00e3o devem aprender que o mundo nem sempre foi como \u00e9 agora, que as circunst\u00e2ncias pol\u00edticas e sociais mudam e o quadro de valores das comunidades evolui.\u00bb<br \/>\nPromovem-se reedi\u00e7\u00f5es e reescritas de textos, escritos no passado, por vezes at\u00e9 de cl\u00e1ssicos do pensamento ou da fic\u00e7\u00e3o, que omitem realidades hoje julgadas inadequadas ou ofensivas, alterando-se palavras ou formula\u00e7\u00f5es. E apagando-se mesmo o que n\u00e3o agrada se detiver um conte\u00fado julgado racista, antissemita, machista, colonialista ou com pecados relacionados com formas atuais de n\u00e3o-exclus\u00e3o. Como se a diversidade do mundo, a sua aprendizagem, e acima de tudo a capacidade para discernir o certo do errado ou o justo do injusto, n\u00e3o passasse por tr\u00eas opera\u00e7\u00f5es cruciais: a perce\u00e7\u00e3o da diversidade contradit\u00f3ria de tudo; o conhecimento daquilo que merece ser criticado; e a capacidade para, avaliando todos os fatores, definir em liberdade uma escolha pr\u00f3pria.<br \/>\nNeste contexto, a recente iniciativa \u2013 apenas mais uma entre muitas an\u00e1logas \u2013 de reeditar os livros de Ian Fleming, o criador de James Bond, depurando-os de express\u00f5es e de palavras julgadas inapropriadas, \u00e9 absurda e perigosa. Mesmo como personagem de fic\u00e7\u00e3o, o Agente 007, e as aventuras que vive no papel e no ecr\u00e3, representam valores, linguagens, pol\u00edticas e tipos do tempo em que foram criados, deixando num outro contexto e com outro rosto de ser o que s\u00e3o. Por este caminho, todos os livros deveriam ser revistos e os seus autores criticados e corrigidos, quando n\u00e3o ocultados ou riscados de cat\u00e1logos e bibliotecas. Os leitores viveriam assim num mundo ass\u00e9tico, sem passado ou escolha, como seres sem capacidade cr\u00edtica, prisioneiros do pensamento \u00fanico.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o de Rui Bebiano na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do historiador, investigador do CES e autor, Rui Bebiano. &#8220;Por este caminho, todos os livros deveriam ser revistos e os seus autores criticados e corrigidos, quando n\u00e3o ocultados ou riscados de cat\u00e1logos e bibliotecas. 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