{"id":258385,"date":"2023-03-05T14:11:45","date_gmt":"2023-03-05T14:11:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=258385"},"modified":"2023-03-05T14:11:45","modified_gmt":"2023-03-05T14:11:45","slug":"a-ideia-de-docaria-conventual-e-um-mito-construido-investigador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/a-ideia-de-docaria-conventual-e-um-mito-construido-investigador\/","title":{"rendered":"A ideia de do\u00e7aria conventual \u201c\u00e9 um mito\u201d constru\u00eddo \u2013 investigador"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/08-doces-dr.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-249508\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/08-doces-dr.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Um investigador da Universidade de Coimbra concluiu, numa tese de doutoramento, que a ideia de \u201cdo\u00e7aria conventual\u201d \u00e9 um mito constru\u00eddo, defendendo que se deveria falar apenas em do\u00e7aria tradicional ou hist\u00f3rica portuguesa.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201c[A ideia de do\u00e7aria conventual] \u00e9 um mito criado. Os conventos tamb\u00e9m faziam doces, como toda a gente fazia. \u00c9 um facto hist\u00f3rico que os doces feitos nos conventos circulavam fora dos conventos e com alguma valoriza\u00e7\u00e3o social por serem feitos naqueles lugares. Agora, que eles eram completamente diferentes do que existia c\u00e1 fora? N\u00e3o. Que eles eram secretos? N\u00e3o. [\u2026] Dever\u00edamos falar em do\u00e7aria tradicional portuguesa ou, num conceito mais acad\u00e9mico, do\u00e7aria hist\u00f3rica portuguesa\u201d, afirma \u00e0 ag\u00eancia Lusa o docente e investigador Jo\u00e3o Pedro Gomes, que defendeu, em dezembro, na Universidade de Coimbra, a tese \u201cA do\u00e7aria portuguesa \u2013 Origens de um patrim\u00f3nio alimentar\u201d.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Ao longo da obra com cerca de 700 p\u00e1ginas, o investigador discorre sobre as origens do patrim\u00f3nio doceiro nacional, centrando-se entre o s\u00e9culo XV e XVIII, onde considera estarem as bases da do\u00e7aria tradicional que ainda hoje prevalece, com algum espa\u00e7o dedicado \u00e0s din\u00e2micas que levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do conceito de do\u00e7aria conventual.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Em Portugal, a do\u00e7aria come\u00e7a a desenvolver-se a partir do s\u00e9culo XV, acompanhando o ritmo de produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar pelo pa\u00eds, que, no final do s\u00e9culo XVI, se torna o principal produtor mundial.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Ainda no s\u00e9culo XV, com a valoriza\u00e7\u00e3o da componente visual nas mesas dos nobres, o a\u00e7\u00facar ganha protagonismo, por todas as suas possibilidades de brilhar nesse campo, ao ser manipulado em diferentes pontos.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Depois da \u201cinf\u00e2ncia da do\u00e7aria\u201d, no s\u00e9culo XV, em que surge o queijo e o leite no doce (os \u201cmanjares de leite\u201d com massas assadas ou fritas e recheadas), passa-se para a \u201cadolesc\u00eancia da do\u00e7aria\u201d, que se acredita ter come\u00e7ado na segunda metade do s\u00e9culo XVI, com \u201ca febre pelos doces feitos de ovos\u201d e em que a \u201cdo\u00e7aria come\u00e7a a ser usada e abusada nas mesas\u201d, ao ponto de levar D. Sebasti\u00e3o a pedir \u00e0s pessoas para n\u00e3o comerem doces.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201cA\u00ed, a gema \u00e9 feita para tudo. S\u00e3o feitas folhas de gema para montar bolos, fazem-se ovos mexidos com a\u00e7\u00facar e surgem aquilo que hoje chamamos de cornuc\u00f3pias, que eram chamados de canudos de ovos e que era exatamente um canudo de massa frita com ovos mexidos doces\u201d, aclara o investigador.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Se h\u00e1 do\u00e7aria na mesa dos nobres, esta tamb\u00e9m aparece nos conventos, muitos deles (especialmente os femininos) espa\u00e7os reservados para as classes altas da sociedade, ao contr\u00e1rio da ideia que se tem hoje daqueles lugares.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201cEra preciso dar muito dinheiro, o chamado dote, para a rapariga entrar, para aquela freira se manter\u201d, explica, sublinhando que os conventos das clarissas \u201ceram tendencialmente conventos de classes privilegiadas\u201d e v\u00e1rios mosteiros tinham associa\u00e7\u00f5es a grandes fam\u00edlias e at\u00e9 a dinastias.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Face \u00e0 quest\u00e3o da classe socioecon\u00f3mica associada a estes espa\u00e7os, as mulheres levavam consigo determinadas pr\u00e1ticas e h\u00e1bitos.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201cN\u00e3o se podia pedir a uma mulher habituada a comer cap\u00e3o e perdiz em casa que fosse para ali comer restos de frango. Havia que manter alguma qualidade e algum estatuto. Em rela\u00e7\u00e3o ao doce, ele funciona exatamente da mesma forma como funciona fora do convento &#8211; surge em \u00e9pocas festivas e para cimentar ou criar la\u00e7os entre hierarquias\u201d, observa.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Como os mosteiros femininos estavam dependentes das ordens masculinas, era comum as freiras fazerem \u201cgrandes quantidades de doces para dar aos mosteiros masculinos aos quais estavam ligadas\u201d, assim como a outras pessoas que se relacionavam com o convento.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Na tese, a do\u00e7aria como cimenta\u00e7\u00e3o de la\u00e7os sociais \u00e9 apontada em v\u00e1rios casos, alguns deles associados a subornos, sendo relatada uma hist\u00f3ria de um estudante que compra marmelada e pessegada a freiras para subornar um administrativo da Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Apesar de rejeitar a ideia de doces feitos apenas por freiras, Jo\u00e3o Pedro Gomes constata que h\u00e1 \u201cum reconhecimento social\u201d dos doces criados em conventos, havendo v\u00e1rias provas dessa valoriza\u00e7\u00e3o ainda no s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Um desses casos \u00e9 o livro \u201cArte da Cozinha\u201d, de Domingos Rodrigues, do final daquele s\u00e9culo, em que no esquema de um menu d\u00e1 nota para que os pratos finais sejam doces comprados a freiras.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Para a sua valoriza\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m contribuir a ideia do doce como \u201ca forma material que existe de a freira e de um homem n\u00e3o religioso se relacionarem\u201d, aponta.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201cEntende-se, at\u00e9 pela literatura barroca do s\u00e9culo XVIII, com algumas linhas meio er\u00f3ticas, que o doce \u00e9 a extens\u00e3o do corpo da mulher. Ou seja, o homem n\u00e3o lhe pode tocar, mas pode comer algo feito por ela e fica todo deliciado, porque est\u00e1 a comer algo vindo das m\u00e3os de uma freira, com toda aquela fantasia do corpo enclausurado\u201d, real\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Os doces feitos nos conventos circulavam fora deles, mas nunca numa perspetiva \u201ccomercial\u201d, referiu, notando que na muita documenta\u00e7\u00e3o que h\u00e1 sobre os rendimentos daqueles espa\u00e7os, em nenhuma aparece o lucro recebido por doces.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">A valoriza\u00e7\u00e3o da do\u00e7aria feita naqueles lugares vai ganhando for\u00e7a para l\u00e1 do per\u00edodo focado pelo investigador ao longo da sua tese, que aponta para o s\u00e9culo XIX como altura em que se refor\u00e7a o mito.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Com a extin\u00e7\u00e3o das ordens religiosas, as freiras vivem cada vez mais de esmolas e fazem-se valer dos doces para terem algum tipo de rendimento.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Ao mesmo tempo, alguns dos mosteiros passam a ter tamb\u00e9m fun\u00e7\u00f5es educativas nas comunidades, onde meninas \u201cpassam a aprender o trabalho dom\u00e9stico, a escrever e a ler e, obviamente, aprendem tamb\u00e9m a fazer doces\u201d, afirma o investigador.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Em conversa com a Lusa, Jo\u00e3o Pedro Gomes admite que os conventos poder\u00e3o ter tido algum papel na passagem de informa\u00e7\u00e3o de receitas, mas volta a vincar que essa pr\u00e1tica era comum na sociedade \u2013 o secretismo em torno do receitu\u00e1rio \u00e9 algo mais contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Nesse mesmo per\u00edodo, marcado pelo romantismo e pelo confronto entre liberais e n\u00e3o liberais em Portugal, h\u00e1 uma faixa conservadora da sociedade que se rev\u00ea num passado perdido, que ajuda tamb\u00e9m a \u201cbalancear\u201d a do\u00e7aria dos conventos.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">A obra que ser\u00e1 \u201ca pedra de toque de toda a gente que formula a ideia de do\u00e7aria conventual\u201d \u00e9 um livro de receitas assinado pela abadessa do Mosteiro de Santa Clara de \u00c9vora, do in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Esse manuscrito deixa \u201cd\u00favidas acad\u00e9micas\u201d a Jo\u00e3o Pedro Gomes, por usar elementos da cultura material como \u201cch\u00e1vena ou colher de sopa\u201d, quando na altura usava-se \u201cx\u00edcara\u201d e apenas \u201ccolher, porque ainda n\u00e3o havia o conceito de colher de sopa\u201d.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Ao longo do tempo, a ideia foi-se cimentando na sociedade portuguesa.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">Entre os mitos, surge a ideia de que as freiras usariam as claras para engomar os seus h\u00e1bitos e que ter\u00e1 sido pelo excesso de gemas que ter\u00e3o surgido os doces ricos em ovos.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201c\u00c9 uma historieta. N\u00e3o temos qualquer prova escrita de que a roupa era engomada com claras e a \u00fanica prova de como se engomava a roupa surge num manuscrito em \u00e1rabe, na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, que faz refer\u00eancia ao uso de amido de trigo para engomar a roupa\u201d, refere.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">No meio de hist\u00f3rias e mitos, as pastelarias fazem valer-se da pr\u00f3pria ideia de do\u00e7aria conventual para vender e comercializar doces, associando-lhes uma hist\u00f3ria, que muitas vezes n\u00e3o tem qualquer documento que a suporte, constata.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">H\u00e1 v\u00e1rios exemplos que contradizem aquilo que \u00e9 o conhecimento popular: o pastel de nata n\u00e3o \u00e9 de Bel\u00e9m (vem de Fran\u00e7a e originalmente em Portugal tinha pinh\u00f5es) e a receita mais antiga que se conhece de sericaia \u00e9 do Porto.<\/p>\n<p class=\"text-paragraph\">\u201cSeria mais interessante valorizar a hist\u00f3ria de cada doce, porque todos t\u00eam uma hist\u00f3ria, que n\u00e3o tem de ser necessariamente antiga ou vinda de um convento\u201d, vinca Jo\u00e3o Pedro Gomes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um investigador da Universidade de Coimbra concluiu, numa tese de doutoramento, que a ideia de \u201cdo\u00e7aria conventual\u201d \u00e9 um mito constru\u00eddo, defendendo que se deveria falar apenas em do\u00e7aria tradicional ou hist\u00f3rica portuguesa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":249508,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[39,31],"tags":[2688,686,546,2689,197],"class_list":["post-258385","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coimbra-2","category-geral","tag-docaria-conventual","tag-estudo","tag-investigador","tag-mito","tag-uc"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=258385"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258385\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=258385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=258385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=258385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}