{"id":259061,"date":"2023-03-15T10:50:56","date_gmt":"2023-03-15T10:50:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=259061"},"modified":"2023-03-15T10:50:56","modified_gmt":"2023-03-15T10:50:56","slug":"opiniao-o-mosteiro-de-santa-clara-a-velha-e-a-bienal-anozero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-mosteiro-de-santa-clara-a-velha-e-a-bienal-anozero\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e a Bienal AnoZero"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/jose-antonio-bandeirinha.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-250680\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/jose-antonio-bandeirinha.jpg\" alt=\"\" width=\"2500\" height=\"1308\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando, em 1647, o rei Jo\u00e3o IV emite o Alvar\u00e1 de constru\u00e7\u00e3o do novo mosteiro para as clarissas de Coimbra fica desde logo determinada a sua sumptuosidade, dada a previs\u00e3o de se vir a erigir em Mosteiro Real, ou seja, a capela-mor podia vir a receber sepulturas de reis e rainhas e devia ser considerado tamb\u00e9m um pal\u00e1cio anexo, se bem que comunicante, para a possibilidade de albergar os membros da fam\u00edlia real.<br \/>\nUm ano mais tarde, Frei Jo\u00e3o Turriano fica encarregado da tra\u00e7a do edif\u00edcio, situando-o no Monte da Esperan\u00e7a, perto da ermida com o mesmo nome e bem no alto, para dirimir os problemas com as cheias que, durante cerca de tr\u00eas s\u00e9culos, tanto tinham atormentado as monjas.<br \/>\nAs obras decorreram durante mais de cento e vinte anos. J\u00e1 em pleno per\u00edodo pombalino, os engenheiros militares Carlos Mardel e Guilherme Elsden estavam ainda a terminar os claustros. Mas a sumptuosidade foi garantida e o seu car\u00e1cter \u00e1ulico ficou bem patente at\u00e9 hoje.<br \/>\nComo todas as propriedades das ordens mon\u00e1sticas, o mosteiro teve uma exist\u00eancia atribulada a partir de 1834, data da extin\u00e7\u00e3o das ordens religiosas, e s\u00f3 em 1911, no dealbar da Primeira Guerra Mundial, \u00e9 entregue ao ex\u00e9rcito. A capela-mor e o claustro, por sua vez, j\u00e1 pertenciam \u00e0 Real Confraria da Rainha Santa Isabel desde o final do s\u00e9culo XIX, 1997-98. \u00c9 ent\u00e3o que o ex\u00e9rcito toma conta da parte norte \u2014 a ala de recolhimento \u2014 e da cerca do complexo edificado e a\u00ed permanece durante quase todo o s\u00e9culo XX. Mas eis que paulatinamente, coincidindo com a viragem para o s\u00e9culo XXI, o Estado abandona literalmente o monumento, \u201csacudindo\u201d as responsabilidades pela sua gest\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o. O Mosteiro Real de Santa Clara-a-Nova fica esquecido e quase abandonado, ningu\u00e9m se lembra do que est\u00e1 para al\u00e9m da igreja, do claustro e da fachada que encerra o adro de entrada a norte.<br \/>\nO culto de Isabel de Arag\u00e3o, da Rainha Santa, \u00e9 o mais genu\u00edno culto da cidade de Coimbra. \u00c9 aquele que melhor espelha a identidade discreta, mas intr\u00ednseca, dos seus habitantes. Contraditoriamente, ou talvez n\u00e3o, pelo menos nos \u00faltimos tempos, \u00e9 tamb\u00e9m aquele que menos transparece para fora, s\u00f3 \u00e9 vivido de dentro para dentro. \u00c9 um culto que s\u00f3 quem \u00e9 de c\u00e1 ou, por alguma raz\u00e3o, passou a ser de c\u00e1, sabe respeitar e viver. \u00c9 um culto religioso, sim, mas tamb\u00e9m \u00e9 eminentemente cultural, passe a redund\u00e2ncia.<br \/>\nEm 2015, \u00e9 precisamente um des\u00edgnio da cultura que vai entregar o velho Mosteiro de Santa Clara-a-Nova \u00e0 frui\u00e7\u00e3o das\/os cidad\u00e3s\/\u00e3os \u2014 a primeira Bienal de Arte Contempor\u00e2nea de Coimbra, a Bienal AnoZero. A partir da\u00ed, periodicamente, a cidade e o pa\u00eds passaram a usar o mosteiro como nunca o tinham feito antes, passaram a visit\u00e1-lo periodicamente, a fruir a arte contempor\u00e2nea na monumentalidade perene dos seus corredores, no recato das suas celas, na imensid\u00e3o dos espa\u00e7os da cerca, tudo locais que antes foram exclusivamente acess\u00edveis \u00e0 comunidade religiosa e, posteriormente, \u00e0 comunidade militar.<br \/>\nAgora o Estado resolveu dar sequ\u00eancia ao disposto no despacho conjunto das Finan\u00e7as e da Defesa Nacional e autorizar a concess\u00e3o do edif\u00edcio no \u00e2mbito do programa Revive, para explora\u00e7\u00e3o de empreendimentos tur\u00edsticos, no caso em apre\u00e7o, um equipamento tur\u00edstico de luxo. A manuten\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a da Bienal AnoZero no decurso futuro dessa concess\u00e3o foi considerada uma eventualidade, est\u00e1 dependente de um pequeno factor de majora\u00e7\u00e3o pontual dos candidatos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o. Pode acontecer ou pode n\u00e3o acontecer.<br \/>\nSe n\u00e3o acontecer, ser\u00e1 profundamente injusto, o nosso culto da percep\u00e7\u00e3o arquitect\u00f3nica e art\u00edstica da totalidade do mosteiro ficar\u00e1 irremediavelmente decepado, pelo menos por mais meio s\u00e9culo. Vamos novamente deixar de poder usufruir do Mosteiro Real para este nosso outro culto discreto. N\u00e3o est\u00e1 certo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":250680,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2951,100],"class_list":["post-259061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-antonio-bandeirinha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259061"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259061\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}