{"id":259196,"date":"2023-03-17T11:25:28","date_gmt":"2023-03-17T11:25:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=259196"},"modified":"2023-03-17T11:25:28","modified_gmt":"2023-03-17T11:25:28","slug":"bagagem-descrita-liberdade-versus-prosperidade-china-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/bagagem-descrita-liberdade-versus-prosperidade-china-2011\/","title":{"rendered":"Bagagem d\u2019escrita: Liberdade versus prosperidade China &#8211; 2011"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/19-bagagem-descrita-Jose-Luis-Santos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-259197\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/19-bagagem-descrita-Jose-Luis-Santos.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Observo a China enquanto me dirijo a alta velocidade num comboio ultramoderno rumo ao cora\u00e7\u00e3o de Pequim, uma das maiores metr\u00f3poles do mundo. Pelo vidro da janela, reparo no desenvolvimento desenfreado deste pa\u00eds ao confrontar-me com o n\u00edvel surreal de pr\u00e9dios, autoestradas, pontes e demais infraestruturas que est\u00e3o a ser constru\u00eddas a uma velocidade que ultrapassa o humanamente concretiz\u00e1vel num del\u00edrio colectivo que impressiona qualquer um.<br \/>\nDeixo a esta\u00e7\u00e3o de Dongzhimen para encontrar o apartamento de uma jornalista da ag\u00eancia noticiosa Reuters que tinha conhecido e que me disponibilizou um espa\u00e7o onde poderia ficar hospedado. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico. Nesta selva de asfalto o barulho \u00e9 ensurdecedor. Ningu\u00e9m se respeita, as passadeiras s\u00e3o uma utopia ou, melhor, uma gentileza envenenada. Foi a primeira vez que vi um carro a aproximar-se de uma e a apitar, sem abrandar, continuando a sua marcha indiferente aos pe\u00f5es que a estavam a atravessar.<br \/>\nAinda h\u00e1 poucos anos, a maior parte dos condutores apenas andava de bicicleta e agora v\u00eaem-se com um carro nas m\u00e3os e n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que isso implica. Com o tempo, fui-me apercebendo de que este epis\u00f3dio era o reflexo de um pa\u00eds que se desenvolveu desmesuradamente, exibindo uma crescente prosperidade, mas com uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seguiu essa evolu\u00e7\u00e3o pois, apesar de ostentar uma vasta gama de bens de consumo, n\u00e3o foi acompanhada no campo cultural, ou mesmo c\u00edvico, apresentando um esp\u00edrito, ou modo de vida que contrastam com a atualidade. Assim, atravessar uma rua \u00e9 uma aventura em que temos de estar constantemente atentos num \u00e2ngulo de 360 graus.<br \/>\nCom a trouxa j\u00e1 arrecadada em casa, apanho o metro e fico perplexo com tudo \u00e0 minha volta, seja pelo volume de gente, que \u00e9 do mais claustrof\u00f3bico poss\u00edvel, como o ritmo fren\u00e9tico com que passam as composi\u00e7\u00f5es. Somos partes min\u00fasculas, integrantes de enormes art\u00e9rias que bombeiam massa humana em todas as dire\u00e7\u00f5es. A cada trinta segundos, entram e saem hordas de gente com destinos t\u00e3o d\u00edspares, sempre num perp\u00e9tuo movimento. Saio na Pra\u00e7a Tiananmen, o ponto nevr\u00e1lgico para onde a minha aten\u00e7\u00e3o converge.<br \/>\nCom os seus 440.000 metros quadrados, \u00e9 a maior do mundo, mas diferencia-se das outras por n\u00e3o ser de livre acesso. H\u00e1 que passar por controlo de raio x e detetor de metais, e no seu interior n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico banco para se sentar e relaxar enquanto se aprecia a vista. H\u00e1 aqui uma austeridade que amarga a boca do visitante. O espa\u00e7o est\u00e1 cheio de visitantes, mas n\u00e3o se sente vida. Sobra na estranha sensa\u00e7\u00e3o de que estou a ser observado por algu\u00e9m do regime.<br \/>\nAo cimo, uma das famosas entradas para a Cidade Proibida assiste a um fren\u00e9tico entrar de turistas que fazem uma foto com o enorme cartaz de Mao Ts\u00e9-Tung como pano de fundo. \u00c9 por esse estadista que, do lado inverso da pra\u00e7a, uma enorme fila espera pacientemente para ver a sua m\u00famia apesar da chuva que se faz sentir. No meio, um monumento tempor\u00e1rio indica os 90 anos do Partido Comunista Chin\u00eas, atraindo tamb\u00e9m a aten\u00e7\u00e3o de quem queria fazer mais uma foto de fam\u00edlia na ida \u00e0 capital.<br \/>\nEmbrenhava-me numa sociedade demasiado pr\u00f3pria para esbo\u00e7ar um ju\u00edzo ou avaliar \u00e0 primeira vista. Se, por um lado, me confrontava com um regime autorit\u00e1rio e controlador, por outro n\u00e3o poderia negar o desenvolvimento que a\u00ed se est\u00e1 a viver nos \u00faltimos anos. Olhava para a sua popula\u00e7\u00e3o, com vis\u00edvel poder econ\u00f3mico e pouco importada que o governo fosse ditatorial ou democr\u00e1tico, relegando para um plano muito secund\u00e1rio qualquer \u201cismo\u201d a que o pa\u00eds pudesse estar associado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Santos<br \/>\nProfessor de Hist\u00f3ria e fot\u00f3grafo<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":259197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[208,2683,2984],"class_list":["post-259196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-china","tag-liberdade","tag-prosperidade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259196\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}