{"id":260053,"date":"2023-04-02T11:42:08","date_gmt":"2023-04-02T11:42:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=260053"},"modified":"2023-04-02T11:42:08","modified_gmt":"2023-04-02T11:42:08","slug":"a-prostituicao-nao-e-ilegal-mas-o-lenocinio-e-crime-e-crime-devera-permanecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/a-prostituicao-nao-e-ilegal-mas-o-lenocinio-e-crime-e-crime-devera-permanecer\/","title":{"rendered":"A prostitui\u00e7\u00e3o  n\u00e3o \u00e9 ilegal. Mas o lenoc\u00ednio \u00e9 crime, e crime dever\u00e1 permanecer"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-253410\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando eu era pequeno, todas as rotas de travessia de Coimbra passavam pela Baixa. Era por ali que se concentrava o com\u00e9rcio significativo, alguma pequena ind\u00fastria, escrit\u00f3rios de advogados e consult\u00f3rios m\u00e9dicos, farm\u00e1cias, artes\u00e3os e a Rua Direita. A Rua Direita era um lugar aonde os mi\u00fados como eu n\u00e3o iam. Havendo precis\u00e3o de chegar da Pra\u00e7a 8 de Maio ao Bota Abaixo, ia-se pelas ruas da Moeda ou da Lou\u00e7a. Tendo de chegar ao Terreiro da Erva, usava-se a Rua da Sofia. A Rua Direita parecia s\u00f3 dar acesso \u00e0 Rua Direita \u2013 uma via de proibi\u00e7\u00e3o para onde escorriam bandos de jovens em dias de \u201csortes\u201d, nos rituais inici\u00e1ticos impostos por naturalidades machistas, celebrados em bares ocultados por vidros opacos e sinal de pouca luz.<br \/>\nOper\u00e1ria cer\u00e2mica na f\u00e1brica do Terreiro da Erva, a minha m\u00e3e sabia responder \u00e0 pergunta infantil acerca de quem eram aquelas mulheres-\u00e0-espera, de cigarro entre os dedos e pose desafiadora, encostadas \u00e0s paredes das pens\u00f5es pobres que n\u00e3o cabiam no aperto da Rua Direita. N\u00e3o tenho mem\u00f3ria de desd\u00e9m ou desprezo na carateriza\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o. Mas havia conflito entre a condescend\u00eancia que percebia nas palavras da minha m\u00e3e e a injusta den\u00fancia de indignidade que, nas conversas de mi\u00fados, se adjetivava com deslustrosas quatro letras. N\u00e3o herdei, da minha inf\u00e2ncia, nem o registo condescendente nem a sanha acusat\u00f3ria. Mas cedo percebi o que mais tarde vim a ter por certo: as minhas concidad\u00e3s viviam num quadro de viol\u00eancia de que eram v\u00edtima, e que permanece o tra\u00e7o dominante da prostitui\u00e7\u00e3o. Mesmo que seja frequentemente apresentada como \u201ca mais antiga profiss\u00e3o do mundo\u201d, os apresentadores da \u201cprofiss\u00e3o\u201d raramente incluem mem\u00f3ria, no longevo of\u00edcio, do desempenho de m\u00e3es, av\u00f3s, uma tia de h\u00e1 muito, e menos ainda irm\u00e3s, filhas e demais parentes.<br \/>\nEste \u00e9 o tempo na normaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. O tempo em que a ideia da convers\u00e3o dos humanos em produto transacion\u00e1vel quer abandonar a prateleira do horror e converter-se em montra glamourosa. Mas, como na velha can\u00e7\u00e3o, \u201cem tempo de servid\u00e3o, h\u00e1 sempre algu\u00e9m que resiste, h\u00e1 sempre algu\u00e9m que diz n\u00e3o\u201d, neste caso \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o do lenoc\u00ednio, ao \u201cempreendedorismo\u201d proxeneta. Foi o que que fez nestes dias Sandra Benfica, do MDM, num debate ali \u00e0 Adelino Veiga, n\u00e3o longe dos lugares de persist\u00eancia da prostitui\u00e7\u00e3o e demais males desta sociedade que abandona os seus. Disse que \u201ca prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 um sistema organizado para o lucro, um sistema intrinsecamente violento, discriminat\u00f3rio e profundamente desumano. N\u00e3o \u00e9 um ato individual de uma pessoa que aluga o seu corpo por dinheiro, mas uma forma de escravatura incompat\u00edvel com a dignidade humana e com os direitos humanos fundamentais. A prostitui\u00e7\u00e3o est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0s desigualdades entre mulheres e homens, com pesado impacto no estatuto social, na perce\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e na sexualidade\u201d. Estejamos vigilantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha &#8211; docente<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":253410,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-260053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260053"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260053\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}