{"id":260785,"date":"2023-04-13T11:51:48","date_gmt":"2023-04-13T11:51:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=260785"},"modified":"2023-04-13T11:51:48","modified_gmt":"2023-04-13T11:51:48","slug":"opiniao-o-puto-perdido-no-liceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-puto-perdido-no-liceu\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O puto perdido no Liceu"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248854\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tinha apenas 10 anos quando partiu da aldeia para a cidade, do aconchego e conforto familiar para um quarto alugado.<\/p>\n<p>Na aldeia ficaram os familiares que mais amava e mais o protegiam, para entrar no espa\u00e7o de uma fam\u00edlia desconhecida. Para tr\u00e1s ficaram tamb\u00e9m os amigos desde a primeira inf\u00e2ncia, deixando o vazio para \u201cnovos amigos\u201d por conhecer e para as desconfian\u00e7as e incertezas do desconhecido. O motivo da partida foi a imperial necessidade de abandonar uma escola conhecida e segura para rumar ao universo do liceu onde tudo \u00e9 novo, diferente, tantas vezes agressivo.<\/p>\n<p>Pobre crian\u00e7a, sentiu-se como o pardalito que voa do seu ninho pela primeira vez e se perde por n\u00e3o encontrar o caminho do regresso. Viveu a dureza da partida do emigrante que sai com a sua mala de cart\u00e3o na m\u00e3o e se v\u00ea perdido numa grande metr\u00f3pole onde n\u00e3o conhece ningu\u00e9m, nem mesmo a l\u00edngua para pedir ajuda. Um enorme salto no escuro.<br \/>\nA entrada do Z\u00e9 no liceu, nome abreviado do garoto, n\u00e3o foi gloriosa. Nessa \u00e9poca s\u00f3 se podia entrar de fato e gravata, e o Z\u00e9 estava habituado a vestir-se simples e pr\u00e1tico. O pior \u00e9 que o fato encolheu e ele cresceu, j\u00e1 n\u00e3o cabia l\u00e1 dentro, e ainda n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o suficiente para fazer o n\u00f3 da gravata, nem tinha o pai por perto para dar uma ajuda. Olhava para os meninos urbanos e \u201cqueques\u201d e n\u00e3o se sentia bem na sua pele. As diferen\u00e7as sociais, reais ou sentidas, entram mesmo neste jogo. Foi preciso tempo para conquistar o espa\u00e7o onde se movia.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da escola prim\u00e1ria para o liceu foi a mudan\u00e7a do \u201ccosmos\u201d para o \u201cchaos\u201d, do universo harmonioso e ordenado para o ambiente da dispers\u00e3o e da confus\u00e3o total, de um professor que representa a autoridade, a ordem e a harmonia, que te acompanha a cada momento, para uma dezena de professores que n\u00e3o te conhecem nem fazem quest\u00e3o de conhecer. O curr\u00edculo tipo \u201cmanta de retalhos\u201d, que ainda permanece, j\u00e1 vem dessa \u00e9poca. H\u00e1 mi\u00fados, geralmente bem respaldados, que se adaptam bem a essa \u201cmix\u00f3rdia\u201d, outros perdem-se na multid\u00e3o de professores e na imensid\u00e3o de mat\u00e9rias que deviam estar mais compactas entre si, mais entrosadas com o mundo e a realidade da vida e aparecem totalmente desligadas.<\/p>\n<p>O Z\u00e9, desamparado, n\u00e3o se deu bem neste cen\u00e1rio e os primeiros anos n\u00e3o foram um mar de rosas. Mas cresceu, socializou-se e ganhou maturidade, sobretudo a partir do quarto ano, em que apanhou um valente chumbo. Nesse tempo, salvo erro 9 disciplinas, reprovava quem tivesse duas negativas, mesmo que tivesse m\u00e9dia global pr\u00f3xima ou mesmo superior ao Bom. A Matem\u00e1tica \u00e9ramos mesmo ignorantes porque no 3\u00ba ano o professor foi um velho militar, estropiado da guerra, \u00e0 falta de melhor, incapaz de comunicar e ensinar fosse o que fosse, e a professora do 4\u00ba ano foi implac\u00e1vel: s\u00f3 n\u00e3o reprovaram os que tinham explicadores particulares. A professora de Hist\u00f3ria, uma v\u00edbora que tinha o prazer s\u00e1dico de reprovar os alunos, foi a parelha ideal para consumar o desastre: em 28, foram aprovados apenas tr\u00eas.<\/p>\n<p>O regresso \u00e0 aldeia e a casa no fim do ano foi doloroso. O pai chorou, pela falta de ju\u00edzo do filho, e o filho chorou porque nunca tinha visto o pai a chorar. Foi um desgosto que ficou para toda a vida, n\u00e3o tanto pelo chumbo, mas pelas l\u00e1grimas do pai.<br \/>\nMas h\u00e1 males que v\u00eam por bem. A partir da\u00ed, o Z\u00e9 jurou a si mesmo que nunca mais faria sofrer o pai. E cumpriu. Uns anos mais tarde, o desgosto cedeu o espa\u00e7o ao orgulho e o pai apresentava o filho como \u201co meu filho doutor\u201d. Foi uma li\u00e7\u00e3o bem aprendida.<\/p>\n<p>Pai \u00e9 pai e o Z\u00e9 era eu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha apenas 10 anos quando partiu da aldeia para a cidade, do aconchego e conforto familiar para um quarto alugado. Na aldeia ficaram os familiares que mais amava e mais o protegiam, para entrar no espa\u00e7o de uma fam\u00edlia desconhecida. 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