{"id":261799,"date":"2023-04-29T10:48:35","date_gmt":"2023-04-29T10:48:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=261799"},"modified":"2023-04-29T10:48:35","modified_gmt":"2023-04-29T10:48:35","slug":"261799-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/261799-2\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Buarque e uma Liberdade comovida e muda"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_252912\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-252912\" class=\"wp-image-252912 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-252912\" class=\"wp-caption-text\">DR<\/p><\/div>\n<p>Depois de uma pandemia e de quatro anos \u00e0 espera, Chico Buarque veio, finalmente, a Portugal receber o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es 2019. Aquele que \u00e9 um dos maiores nomes da m\u00fasica mundial, da L\u00edngua Portuguesa e da Lusofonia, foi ao Pal\u00e1cio Nacional de Queluz, na v\u00e9spera dos 49 anos do 25 de Abril de 1974, receber o maior pr\u00e9mio da Literatura em L\u00edngua Portuguesa. Mas, mais do que isso, veio recordar-nos que pelo sonho \u00e9 que vamos. Ele disse-o, com todas as letras, e eu ouvi-o. Comovida e muda.<br \/>\nNo seu discurso de agradecimento, Buarque falou do pai, historiador e soci\u00f3logo, e da heran\u00e7a maior que ele lhe deixou: o amor pelos livros e pela L\u00edngua Portuguesa. A mesma inestim\u00e1vel heran\u00e7a que eu recebi do meu \u2013 embora o encontro do meu pai com os livros tenha ocorrido fora da Escola. Marginal, como o dos amantes. Falou-nos desse pai, seu primeiro leitor e cr\u00edtico, conselheiro de livros e autores, o pai que \u201cn\u00e3o se aborreceu\u201d quando ele se apaixonou pela m\u00fasica, amigo \u00edntimo de Vinicius, \u201cpara quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa L\u00edngua\u201d. Imaginou o orgulho que o pai sentiria de o ver ali. O pai que tanto contribuiu para a sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que \u201cdurante a ditadura do Estado Novo militou na Esquerda Democr\u00e1tica, futuro Partido Socialista\u201d e saiu da Universidade em solidariedade para com os colegas afastados do Ensino pela ditadura. O pai que n\u00e3o viveu o suficiente para ver a Democracia abra\u00e7ar o Brasil, nem ser novamente amea\u00e7ada.<br \/>\nFalou dos seus antepassados negros, ind\u00edgenas e judeus, crist\u00e3os-novos portugueses, perseguidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o. \u201cTrago nas veias sangue do a\u00e7oitado e do a\u00e7oitador\u201d, definiu-se. Falou de Portugal, onde \u201cmais ou menos\u201d se sente em casa, e destacou Lisboa, Coimbra e Porto como as cidades que melhor conhece. Recordou Jo\u00e3o Cabral, o primeiro brasileiro a receber o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es, que n\u00e3o gostava de m\u00fasica e que Buarque duvida que, alguma vez, tenha folheado um livro seu. Agradeceu o pr\u00e9mio e recordou que quando escreveu o seu primeiro romance, \u201cEstorvo\u201d, em 1990, public\u00e1-lo foi como voltar a entrar no escrit\u00f3rio do pai com um manuscrito que temia fr\u00e1gil, \u00e0 procura da aprova\u00e7\u00e3o dele &#8211; o primeiro leitor, o primeiro cr\u00edtico. De l\u00e1, para c\u00e1, fez um longo caminho, mas n\u00e3o se esquece da casa de partida: \u201cfa\u00e7o gosto em ser reconhecido no Brasil como compositor popular\u201d. E, como acontece sempre a quem tem ainda muito futuro, olha para o presente, honrando o que and\u00e1mos para aqui chegar: \u201cem Portugal, [fa\u00e7o gosto em ser reconhecido] como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim\u201d.<br \/>\nSaudando a felicidade de receber o pr\u00e9mio na v\u00e9spera da data da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, Buarque recordou, ainda, que enquanto esperou por este dia, passou \u201cuma eternidade\u201d no seu pa\u00eds. \u201cFoi um tempo em que o tempo parecia andar para tr\u00e1s\u201d. O Governo brasileiro que tentou retrair a na\u00e7\u00e3o do samba, do Pel\u00e9, das caipirinhas e do jeito mais sensual de falar a L\u00edngua de Cam\u00f5es e de Vinicius, foi vencido nas urnas, mas as sombras s\u00f3 com luz poderemos vencer. \u201cNem por isso podemos nos distrair, pois a amea\u00e7a fascista persiste, no Brasil como um pouco por toda [a] parte\u201d, recordou.<br \/>\nFrancisco Buarque de Hollanda \u2013 que tantas vezes me tem ajudado a entender o mundo e o Outro &#8211; veio a Portugal receber o maior pr\u00e9mio da Literatura em L\u00edngua Portuguesa, j\u00e1 assinado pelo Presidente Lula da Silva. No dia seguinte, acord\u00e1mos para uma madrugada de esperan\u00e7a, feita dia inicial inteiro e limpo. Fui descer a Avenida S\u00e1 da Bandeira \u2013 levava comigo o Chico e o meu pai. Trago-os sempre no peito, onde quer que v\u00e1. H\u00e1 j\u00e1 muito tempo que n\u00e3o via tanta gente, tantos cravos, na rua. Cravos que se recusam a murchar e que, naquele dia, transformaram a avenida numa grande alameda por onde passaram homens &#8211; e mulheres \u2013 livres, a gritar \u201csomos muitos, muitos, mil para continuar Abril!\u201d. Ouvi-os a todos. Comovida e muda.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o da gestora de comuica\u00e7\u00e3o, Martha Mendes, &#8220;Trago nas veias sangue do a\u00e7oitado e do a\u00e7oitador\u201d, definiu-se. 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