{"id":261804,"date":"2023-04-29T10:55:59","date_gmt":"2023-04-29T10:55:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=261804"},"modified":"2023-04-29T10:55:59","modified_gmt":"2023-04-29T10:55:59","slug":"opiniao-novo-pensamento-unico-e-cultura-global-do-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-novo-pensamento-unico-e-cultura-global-do-odio\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Novo pensamento \u00fanico e cultura global do \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-252909 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ditaduras e tiranias, seja qual for a forma que tomam ou os princ\u00edpios de ordem pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que as justificam, assentam no uso arbitr\u00e1rio da for\u00e7a, na supress\u00e3o da diverg\u00eancia e na instala\u00e7\u00e3o do medo. Conseguem-no, num primeiro momento, recorrendo a mecanismos destinados a silenciar toda a discord\u00e2ncia: a pol\u00edcia pol\u00edtica, uma censura f\u00e9rrea, o controlo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, tribunais obedientes ou leis antidemocr\u00e1ticas que excluem ou controlam o voto livre, o pluralismo e o exerc\u00edcio da cr\u00edtica. S\u00e3o estes os instrumentos habituais de imposi\u00e7\u00e3o de uma ordem \u00fanica que se cr\u00ea eterna e se pretende incontestada. Por\u00e9m, para quem os promove, eles ainda s\u00e3o insuficientes, sobretudo em sociedades cada vez mais complexas e din\u00e2micas.<br \/>\nEntram aqui em jogo os processos complementares de constru\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o do pensamento \u00fanico, tendente a produzir a unanimidade e, como lembrou Herbert Marcuse, a fechar o universo do discurso, dele excluindo toda a liberdade. A escola, a propaganda, uma informa\u00e7\u00e3o filtrada, o doutrinamento, s\u00e3o ent\u00e3o mobilizados para estabelecer uma forma de representar o mundo e uma linha da hist\u00f3ria de acordo com modelos que rejeitam o contradit\u00f3rio. Procura-se ent\u00e3o isolar, excluir, coagir, silenciar, e no limite prender, torturar ou aniquilar, quem possa produzi-lo. Ao mesmo tempo, mobilizam-se aliados junto das popula\u00e7\u00f5es, capazes, atrav\u00e9s da den\u00fancia ou do constrangimento social, de funcionar como seus agentes de proximidade, levando a sujei\u00e7\u00e3o a todos os recantos.<br \/>\nS\u00e3o numerosos, distribuindo-se por diferentes \u00e9pocas e sociedades, os casos hist\u00f3ricos deste processo de vigil\u00e2ncia e castigo, que tende a criminalizar e a punir quem n\u00e3o siga a voz do dono, como no universo de \u00ab1984\u00bb, o romance dist\u00f3pico de Orwell. Em todos eles, a den\u00fancia an\u00f3nima e o julgamento sum\u00e1rio s\u00e3o praticados de forma sistem\u00e1tica, assegurando o completo controlo das consci\u00eancias. Assim aconteceu com a Inquisi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, com a intoler\u00e2ncia religiosa dos s\u00e9culos XVI e XVII, com o Terror na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, com o nazismo e os diferentes fascismos, com o estalinismo e os Processos de Moscovo, com o macarthismo nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, com a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Chinesa, com o Khmer Vermelho no Camboja, com as ditaduras sul-americanas do s\u00e9culo XX, ou, atualmente, com a monstruosa ditadura norte-coreana.<br \/>\nSensivelmente h\u00e1 tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas, acreditou-se que esses universos de exce\u00e7\u00e3o, assentes na opress\u00e3o da liberdade e na interdi\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, se encontravam em vias de extin\u00e7\u00e3o. Contudo, o tempo que vivemos tem mostrado como essa cren\u00e7a otimista n\u00e3o passava de uma ilus\u00e3o, pois vivemos um tempo que conhece outras formas tir\u00e2nicas de pensamento \u00fanico e de coa\u00e7\u00e3o. Agora com tr\u00eas particularidades: em primeiro lugar, elas emergem de forma aut\u00f3noma das pr\u00f3prias sociedades, n\u00e3o necessariamente de quem nelas det\u00e9m o poder; em segundo, surgem tamb\u00e9m e at\u00e9 especialmente dentro dos regimes democr\u00e1ticos; e em terceiro, procuram impor-se invocando em muitos casos, por paradoxal que pare\u00e7a, escolhas e causas que det\u00eam uma natureza justa e emancipat\u00f3ria.<br \/>\nDe facto, a Internet e as redes, bem como muita comunica\u00e7\u00e3o social desprovida de deontologia, associadas \u00e0 iniciativa de grupos radicalizados, emergentes em alguns ambientes, incluindo os acad\u00e9micos, tem desenvolvido modelos te\u00f3ricos e modos de agir que passam pela vigil\u00e2ncia de comportamentos e pela den\u00fancia an\u00f3nima. Radicalizadas a partir de causas imprescind\u00edveis \u2013 ligadas aos direitos das mulheres, \u00e0s causas das m\u00faltiplas minorias, \u00e0 repress\u00e3o do ass\u00e9dio ou da homofobia, aos imperativos da ecologia ou \u00e0 luta contra o racismo e a xenofobia \u2013 procuram impor condutas e policiar linguagens, julgando sumariamente, sem direito ao contradit\u00f3rio, quem n\u00e3o siga exatamente os seus ditames. No limite, em associa\u00e7\u00e3o com a nova cultura global do \u00f3dio, os seus atores intimidam, difamam e excluem quem rejeite as suas formas de pensamento \u00fanico.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do historiador, investigador do CES e autor, Rui Bebiano. &#8220;De facto, a Internet e as redes, bem como muita comunica\u00e7\u00e3o social desprovida de deontologia, associadas \u00e0 iniciativa de grupos radicalizados, emergentes em alguns ambientes, incluindo os acad\u00e9micos, tem desenvolvido modelos te\u00f3ricos e modos de agir que passam pela vigil\u00e2ncia de comportamentos e pela den\u00fancia an\u00f3nima&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":252909,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[544,545,546,3841,547],"class_list":["post-261804","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-autor","tag-historiador","tag-investigador","tag-pensamento","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=261804"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261804\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=261804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=261804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=261804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}