{"id":261807,"date":"2023-04-29T11:01:15","date_gmt":"2023-04-29T11:01:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=261807"},"modified":"2023-04-29T11:01:15","modified_gmt":"2023-04-29T11:01:15","slug":"opiniao-eu-noutros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-eu-noutros\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Eu noutros"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DIOGO-CABRITA-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-207228 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/DIOGO-CABRITA-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>No restaurante eleva-se o som do telem\u00f3vel n\u00e3o importando se incomoda. Na estrada para-se onde d\u00e1 jeito, n\u00e3o merecendo cuidado se atrapalha ou dificulta. Na loja tira-se tudo do lugar, desarruma-se sem pudor. Em casa faz-se ru\u00eddo ap\u00f3s as horas de repouso dos outros. No autocarro, ou na praia, ou no passadi\u00e7o, coloca-se m\u00fasica a inebriar o sossego dos outros, a violar o direito de todos ao sil\u00eancio. N\u00e3o importa se incomoda desde que eu fique bem. Ali\u00e1s, o que importa ? O centro dos outros sou eu e eu sou j\u00e1 a circunst\u00e2ncia.<br \/>\nNesta voracidade dos eus que permanentemente vociferam frases de auto elogio, sentenciam o dever de se colocarem antes de tudo, antes dos outros, afirmam repetidamente a sua confian\u00e7a, encontramos um mundo de grande aspereza social, onde cada pe\u00e7a do tecido se converte numa independ\u00eancia, numa estrutura que viola as paredes anexas, que galga a fronteira cidad\u00e3. N\u00e3o h\u00e1 agora o outro como entidade que se respeita e preventivamente queremos impedir de ofender ou perturbar.<br \/>\nN\u00e3o queremos fazer ru\u00eddo que os acorde. Fa\u00e7o na mesma porque me apetece. N\u00e3o queremos obrigar as pessoas a ouvir os nossos telem\u00f3veis, as conversas, os v\u00eddeos do tic toc. Ouvem porque eu quero ruidosamente alegrar-me. O eu que range \u00e9 invasivo. Os outros podem esperar. Os outros podem sujeitar-se. O eu vaidoso n\u00e3o limpa o que sujou. O eu narc\u00edsico n\u00e3o agradece. O egoc\u00eantrico n\u00e3o se preocupa com a vis\u00e3o lateral e sobretudo n\u00e3o se incomoda com aquilo que v\u00ea. \u00c9 um ver para dentro. Um ego\u00edsmo t\u00e3o brutal, que n\u00e3o transporta brinquedos para os filhos no restaurante. N\u00e3o carregam pap\u00e9is e l\u00e1pis. A crian\u00e7a brincar\u00e1 com o telem\u00f3vel, ver\u00e1 filmes, desde que n\u00e3o os perturbe. Eles perturbar\u00e3o o mundo mas permanecer\u00e3o imperturb\u00e1veis pelo mundo. Parece um grotesco sketch onde uma menina se penteia despreocupada enquanto caem bombas no pr\u00e9dio ao lado. Morrem crian\u00e7as e ela mant\u00e9m-se firme na toilette, comp\u00f5e sua maquiagem e sorri.<br \/>\nA realidade inovadora deste Dorian Gray imperturb\u00e1vel pela circunst\u00e2ncia, pelo envolvimento, condicionado ao retrato onde n\u00e3o cabe nada mais, transporta-nos para uma \u00e9poca diferente que catapulta cada c\u00e9lula a entrar em revolta com as suas cong\u00e9neres, provocando uma inflama\u00e7\u00e3o persistente. \u00c9 imposs\u00edvel permanecer a delicadeza onde a vida deixa de ser dar e receber. \u00c9 imposs\u00edvel o amor se ambos est\u00e3o virados ao espelho.<br \/>\nOs outros \u00e9 n\u00f3s \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o que nos transmite dec\u00eancia, simpatia, ajuda gratuita, apoio incondicional na adversidade, respeito. Constru\u00edmos esta ideia do Jap\u00e3o onde a defer\u00eancia se sobrep\u00f5e. A barb\u00e1rie do eu primeiro \u00e9 uma vilania moderna que se liberta da educa\u00e7\u00e3o permissiva, da instru\u00e7\u00e3o obtusa. O eu n\u00e3o \u00e9 a primazia da vida em sociedade.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Diogo Cabrita. &#8220;A crian\u00e7a brincar\u00e1 com o telem\u00f3vel, ver\u00e1 filmes, desde que n\u00e3o os perturbe. Eles perturbar\u00e3o o mundo mas permanecer\u00e3o imperturb\u00e1veis pelo mundo. 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