{"id":262658,"date":"2023-05-13T11:30:28","date_gmt":"2023-05-13T11:30:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=262658"},"modified":"2023-05-13T11:30:28","modified_gmt":"2023-05-13T11:30:28","slug":"opiniao-as-ideias-continuam-para-la-do-fim-e-do-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-as-ideias-continuam-para-la-do-fim-e-do-fogo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: As ideias continuam, para l\u00e1 do fim e do fogo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_252912\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/12\/opiniao-o-natal-uma-historia-de-amor\/martha-mendes\/\" rel=\"attachment wp-att-252912\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-252912\" class=\"size-full wp-image-252912\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-252912\" class=\"wp-caption-text\">DR<\/p><\/div>\n<p>Esta semana assinalaram-se 90 anos do dia em que a sec\u00e7\u00e3o de propaganda da Associa\u00e7\u00e3o de Estudantes Alem\u00e3es reuniu milhares de universit\u00e1rios para o \u201cAto nacional contra o esp\u00edrito n\u00e3o-germ\u00e2nico\u201d, um ritual de queima conjunta de livros, considerados \u201cantigerm\u00e2nicos\u201d, que tinha como finalidade \u201climpar\u201d e \u201cdepurar\u201d a literatura. Um pouco por toda a Alemanha, milhares de obras foram queimadas. Nesse ano, Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, iniciou um movimento de \u201csincroniza\u00e7\u00e3o da cultura\u201d, para alinhar as Artes com a ideologia nazi, que come\u00e7ou com a expuls\u00e3o daqueles que eram politicamente desalinhados (maioritariamente judeus) das organiza\u00e7\u00f5es culturais. Havia uma for\u00e7a ultranacionalista e antissemita com origem em organiza\u00e7\u00f5es de estudantes que, no final da Grande Guerra, encontraram no Nazismo abrigo para a insatisfa\u00e7\u00e3o com a Rep\u00fablica de Weimar. Esses estudantes estiveram na origem destas queimas de livros. A Hist\u00f3ria consegue ser ir\u00f3nica. S\u00f3 em Berlim, ter\u00e3o ardido entre 20.000 e 25.000 livros, \u00e0 m\u00e3o de universit\u00e1rios.<br \/>\nV\u00e1rias queimas reuniram milhares de estudantes, em mais de 30 cidades alem\u00e3s, num ritual com desfiles, discursos de oficiais e acad\u00e9micos, m\u00fasica e juramentos ideol\u00f3gicos, para al\u00e9m de grandes fogueiras para onde eram atirados livros n\u00e3o recomend\u00e1veis, em \u201cprotesto\u201d contra o \u201cesp\u00edrito n\u00e3o-alem\u00e3o\u201d. A a\u00e7\u00e3o, com grande cobertura jornal\u00edstica, inaugurou uma era de censura pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m cultural e de manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica das Artes, na Alemanha.<br \/>\nNaquele dia foram queimados autores como Marx, Stefan Zweig, Brecht, Hemingway, Helen Keller, Thomas Mann, Freud ou Erich Maria Remarque, simplesmente porque n\u00e3o agradavam aos nazis. Lemos e quase n\u00e3o acreditamos. Parece que foi noutro mundo e noutro tempo. Mas foi aqui, na nossa Europa, h\u00e1 menos de 100 anos. E porque a Hist\u00f3ria consegue ser ir\u00f3nica \u2013 e \u00e9 uma vizinha sempre a rondar-nos a porta \u2013 recentemente vimos rebentar uma pol\u00e9mica no Reino Unido, onde as editoras est\u00e3o a reescrever algumas das obras de Enid Blyton, autora que tem iniciado milhares de crian\u00e7as e jovens pelos caminhos da leitura e dos livros. As obras de uma das escritoras mais queridas do Reino Unido (e do mundo) &#8211; das mais traduzidas universalmente &#8211; est\u00e3o a levar uma \u201catualiza\u00e7\u00e3o\u201d. Deve-se \u00e0 \u201clinguagem desatualizada e ofensiva\u201d, justificam-nos. E, ent\u00e3o, lembramo-nos de todas as vezes que quiseram \u201climpar\u201d e \u201cdepurar\u201d a literatura. Algumas bibliotecas passaram a disponibilizar apenas as \u201cvers\u00f5es atuais\u201d das obras de Blyton, armazenando as originais em espa\u00e7os n\u00e3o acess\u00edveis ao p\u00fablico, com medo de \u201cofender os leitores\u201d. Lemos e n\u00e3o acreditamos. Parece noutro mundo e noutro tempo. Mas \u00e9 aqui, na nossa Europa, hoje, agora. A Hist\u00f3ria \u00e9 uma vizinha sempre a rondar-nos a porta. E os livros s\u00e3o, tamb\u00e9m, provas da hist\u00f3ria da Humanidade. Atrav\u00e9s deles conhecemos quem somos e como cheg\u00e1mos aqui \u2013 eles t\u00eam, tamb\u00e9m, esse papel testemunhal, de salvaguarda da mem\u00f3ria. N\u00e3o podemos rescrever o passado, mas podemos e devemos escrever um futuro que mostre que aprendemos a li\u00e7\u00e3o. Se necess\u00e1rio, voltamos aos livros para rever a li\u00e7\u00e3o. Mas que faremos quando os livros ardem?<br \/>\nEm 1995, o artista israelita Micha Ullman criou um monumento na Bebelplatz, em Berlim, em mem\u00f3ria dos livros queimados. Passa quase despercebido, como acontece com muitos dos perigosos e perversos movimentos de censura, que chegam de mansinho, introduzindo-se sinuosamente, e v\u00e3o criando ra\u00edzes fundas, debaixo da terra, alimentados pela distra\u00e7\u00e3o \u00e0 superf\u00edcie. \u00c9 um espa\u00e7o subterr\u00e2neo, c\u00fabico, que pode ser visto atrav\u00e9s de um al\u00e7ap\u00e3o de vidro, aberto no ch\u00e3o da pra\u00e7a. No interior, vemos um espa\u00e7o amplo com estantes vazias: as suficientes para arrumar os cerca de 20.000 livros que ter\u00e3o sido queimados, ali, h\u00e1 90 anos. \u00c9 o que sobra quando a Arte falta: vazio. Helen Keller, autora de algumas das obras queimadas pelos nazis, escreveu numa carta aberta aos estudantes alem\u00e3es: \u201ca Hist\u00f3ria n\u00e3o vos ensinou nada se acham que podem matar ideias\u201d. Os livros ardem at\u00e9 ao fim. Mas as ideias continuam, para l\u00e1 do fim e do fogo. As ideias e a mem\u00f3ria n\u00e3o se queimam \u2013 e \u00e9 com ambas que preenchemos o vazio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martha Mendes, Gestora de Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":252912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[539,100],"class_list":["post-262658","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-martha-mendes","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=262658"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262658\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=262658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=262658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=262658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}