{"id":262916,"date":"2023-05-17T09:54:06","date_gmt":"2023-05-17T09:54:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=262916"},"modified":"2023-05-17T09:54:06","modified_gmt":"2023-05-17T09:54:06","slug":"opiniao-desperdicio-um-dos-pecados-da-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-desperdicio-um-dos-pecados-da-saude\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Desperd\u00edcio, um dos pecados da Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/MANUELANTUNES-opi-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-251136\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/MANUELANTUNES-opi-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O or\u00e7amento do Estado para o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade (SNS) quase duplicou na \u00faltima d\u00e9cada. Passou de 7, 5 milh\u00f5es de euros em 2012 para 14,8 mil milh\u00f5es de euros em 2023. Ser\u00e1 que correspondeu a uma taxa equivalente de melhoria da quantidade\/qualidade de sa\u00fade prestada? \u00c9 evidente que n\u00e3o! Ent\u00e3o o que significa? A resposta \u00e9 \u00f3bvia \u2013 aumentou o desperd\u00edcio. Tanto dos recursos humanos como dos materiais.<br \/>\nO problema n\u00e3o \u00e9 novo. J\u00e1 em 2001, quando publiquei o livro A Doen\u00e7a da Sa\u00fade, dei-lhe o subt\u00edtulo SNS &#8211; Inefici\u00eancia e Desperd\u00edcio, dois adjetivos que andam de m\u00e3os dadas. De facto, uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas em 2011 conclu\u00eda que \u201cos hospitais do SNS desperdi\u00e7am 2 milh\u00f5es de euros por dia\u201d. A realidade pode at\u00e9 ser mais escura do que esta! A quem anda pelos corredores e enfermarias dos hospitais, basta pausar um bocadinho e olhar \u00e0 volta para se aperceber dela.<br \/>\nUm relat\u00f3rio da Deloitte de 2004 referia que os problemas est\u00e3o na inconst\u00e2ncia na pol\u00edtica da sa\u00fade, na rutura \u201caceite\u201d do modelo de financiamento, na incorreta presta\u00e7\u00e3o e consumo de sa\u00fade e na incipiente gest\u00e3o de recursos. Este diagn\u00f3stico implica, obviamente, prestadores (institui\u00e7\u00f5es e profissionais), consumidores (doentes) e gestores. Referir-me-ei a cada um destes agentes.<br \/>\nJ\u00e1 antes aqui discuti o problema dos recursos humanos que s\u00e3o a base do funcionamento das institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e o seu desaproveitamento constitui uma parte importante do desperd\u00edcio. Discuto agora a quest\u00e3o dos recursos materiais. Nos EUA, estima-se que cerca de 50% dos cuidados de sa\u00fade s\u00e3o induzidos pelos prestadores e n\u00e3o pelas necessidades dos doentes. N\u00e3o ser\u00e1 muito diferente noutros lados. Mas \u00e9 importante corresponsabilizar o utente pelos servi\u00e7os recebidos. A corresponsabiliza\u00e7\u00e3o tem um efeito pedag\u00f3gico significativo, diminuindo a sobreutiliza\u00e7\u00e3o e reduzindo o desperd\u00edcio. A excessiva aflu\u00eancia \u00e0s urg\u00eancias \u00e9 bem exemplo desse desperd\u00edcio.<br \/>\nO papel dos gestores \u00e9 fundamental. Mas a maior parte n\u00e3o tem \u2018know-how\u2019 de gest\u00e3o espec\u00edfica para atingir este desiderato. N\u00e3o t\u00eam ideia do que se passa nos corredores das enfermarias, muito menos dentro dos quartos! Por outro lado, sempre salientei o papel crucial da gest\u00e3o interm\u00e9dia, especialmente ao n\u00edvel dos servi\u00e7os cl\u00ednicos. O sistema de Centros de Responsabilidade, em que s\u00e3o delegadas no diretor compet\u00eancias no sentido de um maior grau de autonomia na gest\u00e3o dos recursos, com a consequente responsabiliza\u00e7\u00e3o, parecer-me-ia uma boa solu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o teve ader\u00eancia significativa.<br \/>\n\u00c9 nos servi\u00e7os cl\u00ednicos que se decide a utiliza\u00e7\u00e3o da maior parte e dos mais dispendiosos recursos materiais. Por exemplo, na prescri\u00e7\u00e3o medicamentosa, com especial enfoque nos gen\u00e9ricos &#8211; a taxa de uso de gen\u00e9ricos foi de 48,8% em 2021 (praticamente inalterada nos \u00faltimos 6 anos). O custo dos gen\u00e9ricos para o SNS \u00e9 cerca de 40% dos de marca. Mas n\u00e3o s\u00f3: uma pol\u00edtica adequada que vise a diminui\u00e7\u00e3o das perdas (por prazos expirados ou outros). Tamb\u00e9m o uso excessivo e inapropriado de antibi\u00f3ticos e outros f\u00e1rmacos.<br \/>\nEstima-se que um hospital com 700 camas produz 20 toneladas de res\u00edduos biol\u00f3gicos por m\u00eas. No bloco operat\u00f3rio, por cada grande cirurgia realizada podem gerar-se at\u00e9 15Kg de res\u00edduos, resultantes da maci\u00e7a utiliza\u00e7\u00e3o dos descart\u00e1veis, como batas cir\u00fargicas, len\u00e7\u00f3is operat\u00f3rios, luvas, dispositivos de uso \u00fanico e respetivas embalagens. Ainda que muito n\u00e3o possa ser evitado, h\u00e1 que recuar nalguns aspetos, como o uso de len\u00e7\u00f3is e batas descart\u00e1veis, voltando ao t\u00eaxtil reutiliz\u00e1vel. Do mesmo modo, h\u00e1 que repensar a reutiliza\u00e7\u00e3o dos dispositivos de uso \u00fanico, que a natureza f\u00edsica da maior parte deles at\u00e9 permite.<br \/>\nEsta nova filosofia dos 6R \u2013 Reduzir, Reciclar, Reparar, Reutilizar, Repensar, Responsabilizar \u2013 come\u00e7a a ganhar caminho, mas nota-se que a maior parte dos profissionais e dirigentes ainda a n\u00e3o interiorizaram. V\u00e1rios pa\u00edses, especialmente os mais desenvolvidos, t\u00eam-se movido neste sentido e a UE tem estado a discutir a altera\u00e7\u00e3o das regras de utiliza\u00e7\u00e3o dos descart\u00e1veis e dispositivos de uso \u00fanico. Mas o nosso Infarmed est\u00e1 estranhamente relutante a este respeito. A economia de custos pode atingir os 40 a 50%.<br \/>\nE o desperd\u00edcio n\u00e3o tem apenas um impacto econ\u00f3mico. Traduz-se tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o de res\u00edduos. Muito do lixo gerado nos hospitais n\u00e3o \u00e9 recicl\u00e1vel, pelo que tem um impacto ambiental significativo. A redu\u00e7\u00e3o significativa desta pegada ambiental \u00e9 um imperativo \u00e9tico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Antunes<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":251136,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1406,100],"class_list":["post-262916","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-antunes","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=262916"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/262916\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=262916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=262916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=262916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}