{"id":263029,"date":"2023-05-18T11:25:29","date_gmt":"2023-05-18T11:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=263029"},"modified":"2023-05-18T11:25:29","modified_gmt":"2023-05-18T11:25:29","slug":"opiniao-a-tirania-do-merito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-tirania-do-merito\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: A tirania do m\u00e9rito"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248854\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Estamos no tempo da escolaridade obrigat\u00f3ria (EO) de longa dura\u00e7\u00e3o. Obrigat\u00f3ria para garantir o direito de todos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. De todos, ao longo da vida, desde o ber\u00e7o at\u00e9 \u00e0 cova. Estamos no tempo da inclus\u00e3o, plasmada na lei, que n\u00e3o permite deixar ningu\u00e9m para tr\u00e1s: NO CHILD LEFT BEHIND. Estas s\u00e3o as orienta\u00e7\u00f5es das organiza\u00e7\u00f5es mundiais que Portugal subscreveu.<br \/>\nN\u00e3o sei se podemos reinventar a escola \u201cex novo\u201d de acordo com o atual paradigma. A verdade \u00e9 que estamos a tentar construir um novo edif\u00edcio sobre as ru\u00ednas e alicerces de uma constru\u00e7\u00e3o antiga, com as mesmas paredes e uma hist\u00f3ria enraizada em dogmas e pr\u00e1ticas obsoletas.<br \/>\nChumbar os alunos hoje \u00e9 crime, \u00e9 incumprimento da lei, das orienta\u00e7\u00f5es da ONU e das suas ag\u00eancias. O governo e o minist\u00e9rio da educa\u00e7\u00e3o (ME) ainda n\u00e3o souberam encontrar as respostas adequadas para cumprir a lei, nem deram \u00e0s escolas os meios para se organizarem nesse sentido, nem formaram os professores para seguir as novas orienta\u00e7\u00f5es, nem lhes deram as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para poderem compreender e executar este plano de a\u00e7\u00e3o. As escolas e os professores chumbam os alunos, deixam-nos para tr\u00e1s, porque n\u00e3o aprenderam a educar cada um de acordo com o seu perfil. O desinvestimento na forma\u00e7\u00e3o de professores, que se agravou com o aumento da popula\u00e7\u00e3o escolar, obrigou a recrutar em massa professores sem as devidas habilita\u00e7\u00f5es. A profiss\u00e3o docente n\u00e3o teve as respostas adequadas e desceu v\u00e1rios n\u00edveis. O ensino obrigat\u00f3rio est\u00e1 mergulhado no caos e sem horizontes para progredir. Continuamos no caminho do empobrecimento.<br \/>\nA velha Universidade de Coimbra, onde nasceram e de onde irradiaram o ensino \u201cex cathedra\u201d, o \u201cmagister dixit\u201d, a \u201cli\u00e7\u00e3o\u201d, que contagiaram todos os n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 num processo de mudan\u00e7a que visa repensar as modalidades e estrat\u00e9gias de aprendizagem e investiga\u00e7\u00e3o adaptadas aos meios e objetivos do mundo atual. A Reitoria incentiva a mudan\u00e7a e as v\u00e1rias faculdades e centros de investiga\u00e7\u00e3o apostam em projetos inovadores em linha com o que de melhor se faz nos pa\u00edses mais avan\u00e7ados. Vejo do mesmo modo os departamentos do Instituo Polit\u00e9cnico num not\u00e1vel processo de emancipa\u00e7\u00e3o para se nivelarem por cima, nas suas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o, com o que de melhor se faz nas universidades. Est\u00e1 em marcha o caminho da confian\u00e7a e do prest\u00edgio. O ensino superior \u201cmexe\u201d e bem porque tem conhecimento, iniciativa e autonomia para responder a novas exig\u00eancias, apesar da escassez de or\u00e7amentos e de recursos. Porque \u00e9 que a EO n\u00e3o \u201cmexe\u201d como o ensino superior?<br \/>\nH\u00e1 escolas do ensino b\u00e1sico e secund\u00e1rio, p\u00fablicas e privadas, alinhadas com as orienta\u00e7\u00f5es das organiza\u00e7\u00f5es internacionais, mas, infelizmente, s\u00e3o ainda uma exce\u00e7\u00e3o. A matriz enraizada nas mentalidades de muitos pais, professores e alunos, e imposta pelo ME, \u00e9 a matriz da competi\u00e7\u00e3o, da sele\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o, com n\u00edveis de desperd\u00edcio \u00fanicos na europa. A l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a do pescador que lan\u00e7a a rede, captura o peixe grosso e lan\u00e7a ao mar o peixe mi\u00fado, excluindo anualmente milhares de alunos na EO, outros tantos impedidos de entrar no superior por incapacidade financeira e outros ainda que emigram para pa\u00edses mais atrativos depois de conclu\u00edrem mestrados e doutoramentos.<br \/>\nMichel Foucault (Surveiller et punir, Gallimard, 1993 ) investiga a origem da pris\u00e3o, digna sucessora da masmorra, da fogueira e da guilhotina, e situa-a num espa\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o a partir do s\u00e9culo XVI. A pris\u00e3o deixa de ser um instrumento de penaliza\u00e7\u00e3o dos crimes para ser um espa\u00e7o de reabilita\u00e7\u00e3o dos delinquentes de modo a torn\u00e1-los d\u00f3ceis e \u00fateis, e alarga esta orienta\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria \u00e0s escolas e col\u00e9gios, for\u00e7as armadas e igreja. A estrat\u00e9gia comum para a docilidade era vigiar, controlar, castigar, submetendo a exerc\u00edcios, nota\u00e7\u00f5es, classifica\u00e7\u00f5es e exames. No servi\u00e7o militar, o corpo cansado fica mais submisso, na escola, o exerc\u00edcio deixa menos espa\u00e7o para a indisciplina e o barulho. A r\u00e9gua e a palmat\u00f3ria s\u00e3o de uso corrente, o programa \u00fanico e os exames asseguram a submiss\u00e3o e a docilidade e no fim do ano os \u201cbons\u201d passam e os \u201cmaus\u201d chumbam. A igreja, sempre presente, mant\u00e9m viva a dicotomia entre a virtude e o pecado e amea\u00e7a com o inferno quem n\u00e3o mere\u00e7a o para\u00edso. Tudo isto \u00e9 o retrato do passado? Ou permanece a mentalidade de que o papel da escola \u00e9 selecionar os \u201cbons\u201d e eliminar os \u201cmaus\u201d? Onde fica aqui a inclus\u00e3o?<br \/>\nA meritocracia domina a organiza\u00e7\u00e3o dos sistemas de ensino. O m\u00e9rito \u00e9 um valor respeit\u00e1vel quando traduz trabalho, dedica\u00e7\u00e3o, disciplina, intelig\u00eancia, talento, honestidade como atributos da pessoa. Michael Sandel publicou em 2020 A Tirania do M\u00e9rito (The tyranny of merit: what\u2019s become the common good? New York: Farrar, Straus and Giroux), onde sustenta que n\u00e3o podemos avaliar o m\u00e9rito da pessoa sem ponderar os meios de que disp\u00f5e, ou seja, muitas pessoas podem ter todo o m\u00e9rito, talento e qualidades pessoais, mas n\u00e3o t\u00eam os meios indispens\u00e1veis para desabrochar. Os ricos disp\u00f5em de todos os meios, os pobres n\u00e3o t\u00eam acesso ao pr\u00f3prio m\u00e9rito. Uma crian\u00e7a sem livros, sem computador, sem internet, exposta a todas as desigualdades e injusti\u00e7as n\u00e3o tem espa\u00e7o para o m\u00e9rito; um jovem pode ter todo o m\u00e9rito para os mais altos voos no ensino superior, mas n\u00e3o tem capacidade financeira para o frequentar. O m\u00e9rito n\u00e3o \u00e9 apenas um atributo da pessoa, \u00e9 tamb\u00e9m o resultado das suas circunst\u00e2ncias. A inclus\u00e3o ser\u00e1 compat\u00edvel com a tirania do m\u00e9rito?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/jose-afonso-batista-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-263025\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/jose-afonso-batista-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"938\" height=\"2560\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":248854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1170,100],"class_list":["post-263029","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-afonso-baptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=263029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263029\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=263029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=263029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=263029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}