{"id":263152,"date":"2023-05-20T16:03:59","date_gmt":"2023-05-20T16:03:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=263152"},"modified":"2023-05-20T16:03:59","modified_gmt":"2023-05-20T16:03:59","slug":"opiniao-inteligencia-artificial-e-ignorancia-natural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-inteligencia-artificial-e-ignorancia-natural\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Intelig\u00eancia artificial e ignor\u00e2ncia natural"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-244331 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>O fasc\u00ednio pelas m\u00e1quinas \u00e9 antigo. Do homem-m\u00e1quina de Descartes aos Mensch-Maschinen dos Kraftwerk vai um pulo de breves s\u00e9culos. H\u00e1 muito que n\u00e3o queremos ser o reflexo carnal de um padr\u00e3o divino. Ao arqu\u00e9tipo transcendental preferimos o mimetismo da vida mec\u00e2nica.<\/p>\n<p>Sacrificamos o homem sagrado ao homem roldana. Aos nervos, tend\u00f5es, veias, linfa e neur\u00f3nios, preferimos as correias, os parafusos, os veios, as transmiss\u00f5es el\u00e9tricas, a CPU.<\/p>\n<p>Stanley Kubrick, antes de todos, em 2001: A Space Odyssey, inventou o vingativo e caprichoso computador sentimental, esse inesquec\u00edvel HAL, nemesis de astronautas em busca de um regresso a um primevo calor maternal.<\/p>\n<p>As humildes calculadoras de h\u00e1 d\u00e9cadas fazem figura de parentela pobre ao lado das super m\u00e1quinas digitais do pobre tempo presente.<\/p>\n<p>Se a vida no que realmente importa fosse uma competi\u00e7\u00e3o de rapidez de c\u00e1lculo, melhor, se a vida fosse c\u00e1lculo puro, capacidade de correla\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e outras vanidades do g\u00e9nero, ent\u00e3o dever\u00edamos abandonar o reino do homem ao prodigioso universo num\u00e9rico.<\/p>\n<p>Acontece que viver n\u00e3o \u00e9 calcular. Acontece que pensar n\u00e3o \u00e9 estabelecer correla\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas. Acontece que existir no mundo da vida n\u00e3o \u00e9 respirar algoritmos.<\/p>\n<p>A deifica\u00e7\u00e3o iluminista do admir\u00e1vel novo mundo digital traduz uma profund\u00edssima ignor\u00e2ncia da natureza humana.<\/p>\n<p>As m\u00e1quinas podem simular o amor. Mas s\u00e3o incapazes de amar. As m\u00e1quinas n\u00e3o se apaixonam, n\u00e3o sofrem, n\u00e3o odeiam, ignoram a trai\u00e7\u00e3o e a compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>As m\u00e1quinas desconhecem a intensa comunica\u00e7\u00e3o relacional do mundo vegetal. E est\u00e3o a anos luz da quietude org\u00e2nica do vivente mundo mineral.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser motivo de espanto, em todo o caso, a infinita ignor\u00e2ncia dos sacerdotes do digital. Desconhecem que o inconsciente freudiano \u00e9 estranho a c\u00e9rebros mec\u00e2nicos. Fazem t\u00e1bua rasa do estado da arte da biologia e das neuroci\u00eancias contempor\u00e2neas. Ignoram, por altivez num\u00e9rica ou por estupidez natural, que o c\u00e9rebro humano, ou o de um asno, ou o de uma formiga, ou o de uma centopeia, \u00e9 infinitamente mais complexo que o de qualquer maquinaria computacional.<\/p>\n<p>Porque as m\u00e1quinas, ainda que qu\u00e2nticas \u2013 celeste adjetivo \u2013 n\u00e3o fazem a menor das ideias do que seja ter olhos para ver, nariz para cheirar, pele para tocar, ouvidos para escutar, cora\u00e7\u00e3o para amar.<\/p>\n<p>As m\u00e1quinas n\u00e3o sabem nada do viver humano. Das experi\u00eancias, das ra\u00edzes comovidas, das falhas, das exalta\u00e7\u00f5es, dos fracassos. Da dor. Da perda. Do abandono. Do breve encontro. Do longo adeus. Da vontade de terra. Da vontade de c\u00e9u. Da vontade de nada. Da vontade de tudo.<\/p>\n<p>As m\u00e1quinas s\u00e3o menos que insetos. As m\u00e1quinas s\u00e3o menos que calhaus. As m\u00e1quinas s\u00e3o menos que cardos.<br \/>\nS\u00f3 as slots machines e as jukeboxes t\u00eam direito a partilhar os mundos das nossas vidas. Porque n\u00f3s fazem felizes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fasc\u00ednio pelas m\u00e1quinas \u00e9 antigo. Do homem-m\u00e1quina de Descartes aos Mensch-Maschinen dos Kraftwerk vai um pulo de breves s\u00e9culos. H\u00e1 muito que n\u00e3o queremos ser o reflexo carnal de um padr\u00e3o divino. Ao arqu\u00e9tipo transcendental preferimos o mimetismo da vida mec\u00e2nica. Sacrificamos o homem sagrado ao homem roldana. 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