{"id":265088,"date":"2023-06-22T15:49:49","date_gmt":"2023-06-22T15:49:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=265088"},"modified":"2023-06-22T15:49:49","modified_gmt":"2023-06-22T15:49:49","slug":"opiniao-forever-young","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-forever-young\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Forever Young"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-244331\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Forever Young, singular \u00eaxito pop dos Alphaville, retrata, em tom festivo tocado por uma nota de melancolia, a mais subterr\u00e2nea das ang\u00fastias humanas: o medo de envelhecer (outro modo de dizer o medo de morrer).<br \/>\nA literatura d\u00e1-nos longo registo desta ang\u00fastia. \u201c N\u00e3o me venham falar da sabedoria dos velhos, mas da sua loucura. Do seu medo\u201d, diz T.S. Eliot em Quatro Quartetos. \u00c9 o pavor do decl\u00ednio f\u00edsico que leva Dorian Gray \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de um pacto demon\u00edaco, letal como todos os acordos faustianos.<br \/>\nO fasc\u00ednio suicida de Aschenbach pela deslumbrante beleza do adolescente Tadzio, em Morte em Veneza, mais que uma puls\u00e3o homoer\u00f3tica, significa o ensaio de uma fuga da morte. Ensaio sempre falhado, como Dom Fabrizio, Pr\u00edncipe de Salina, em O Leopardo, bem soube, pelas seis da manh\u00e3, sa\u00eddo do baile, regressando a p\u00e9, o corpo e o destino marcados pelo valsar com a vitalidade sensual da jovem Angelica.<br \/>\n\u00c9 muito antiga a busca pelo elixir da eterna juventude. N\u00e3o espanta que, nos presentes tempos, tal busca tenha adotado formas adequadas a uma mundivis\u00e3o individualista e consumista. Da\u00ed a corrida aos gin\u00e1sios, ao desporto chic \u2013 em sem\u00e2nticas anglicizadas ( running, trail, cycle\u2026) mais devoradoras de calorias, ao que consta -, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, \u00e0 dermocosm\u00e9tica, \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica.<br \/>\nE, no entanto, o tempo continua a passar. E continuamos a passar pelo tempo. Mesmo a Cher.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil envelhecer numa sociedade dominada pelo culto da beleza e da juventude. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser velho, ser mais velho, num mundo econ\u00f3mico regido por imperativos de rendimento, de produtividade e de performance. Nessa sociedade e neste mundo os velhos, os mais velhos, s\u00e3o, de modo expresso ou impl\u00edcito, rotulados como obsolesc\u00eancias humanas, como \u00f3nus para o er\u00e1rio p\u00fablico, como fardo social.<br \/>\nO fascismo tem muitos modos de regressar e de se reinventar. Assistimos, neste in\u00edcio de s\u00e9culo, nas democracias capitalistas servas dos dogmas da efici\u00eancia dos mercados, a um ressuscitar de eugenismos antigos. Mascarados, como \u00e9 mister, de piedosas inten\u00e7\u00f5es. Trasladadas em programas paternalistas, procedimentos tutelares e processos infantilizantes.<br \/>\nTriste destino o do ser s\u00e9nior massacrado com programas de envelhecimento ativo. Com um \u00fanico direito fundamental: o de morrer o mais depressa e o mais invisivelmente poss\u00edvel, para maior gl\u00f3ria da sustentabilidade financeira da seguran\u00e7a social.<br \/>\nPartiu esta semana, com 89 anos, Cormac McCarthy, autor do inesquec\u00edvel t\u00edtulo No Country for Old Men.<br \/>\nSabia que o tempo e o valor da vida n\u00e3o se contam pelo andar dos ponteiros do rel\u00f3gio. Sabia que envelhecer \u00e9 buscar continuamente, como Kane, o Rosebud da inf\u00e2ncia. Sabia que Ulisses, muitos anos depois, n\u00e3o deixaria de reencontrar Pen\u00e9lope, muito tempo adiante.<br \/>\nE sabia, tamb\u00e9m, como Ant\u00f3nio Os\u00f3rio, que \u201cpesadelo era a eternidade\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Castelo Branco<br \/>\nDocente do ISCAC<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":244331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1558,100],"class_list":["post-265088","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-castelo-branco","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265088","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=265088"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265088\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=265088"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=265088"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=265088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}