{"id":265090,"date":"2023-06-22T15:53:56","date_gmt":"2023-06-22T15:53:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=265090"},"modified":"2023-06-22T15:53:56","modified_gmt":"2023-06-22T15:53:56","slug":"opiniao-a-cabra-chama-por-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-cabra-chama-por-nos\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: A cabra chama por n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-253410\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manuel-Rocha-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Vivi em Moscovo, entre os 20 e os 26 anos, naquele tempo em que se vive a dobrar, memorizando impress\u00f5es que a juventude agarra e n\u00e3o larga nunca mais. Nos anos de 1980, a imagem em tempo real, dispon\u00edvel num ecr\u00e3 de bolso, ainda n\u00e3o existia &#8211; longe era mesmo muito longe. Havia cartas, que iam e vinham \u00e0 velocidade (lenta) dos transportadores, havia liga\u00e7\u00f5es telef\u00f3nicas internacionais que, para um curto conversar, eram demasiado caras. Por isso, a atualiza\u00e7\u00e3o de imagens da minha terra, da minha gente, acontecia de ano a ano, nos sessenta dias de julho e agosto em que retomava Coimbra e a Berlenga \u2013 as minhas esta\u00e7\u00f5es de Portugal.<br \/>\nVinha e regressava de comboio. Primeiro, desde a Esta\u00e7\u00e3o moscovita de Bielorrusky Vokzal \u00e0 Gare du Nord de Paris, passando por Brest, pelas searas da Pol\u00f3nia, por Berlim com muro, Col\u00f3nia e Li\u00e8ge. Depois, em Paris-Austerlitz, embarcava no Sud Express, o comboio dos emigrantes e da malta do Inter-Rail. Chegava a Coimbra com a ansiedade pr\u00f3pria dos reencontros, da mitiga\u00e7\u00e3o da saudade. Pedia sempre ao meu pai para n\u00e3o subir \u00e0 Conchada pelo trajeto da Rua de Aveiro. Queria reconhecer Coimbra. Da primeira vez que desembarquei Esta\u00e7\u00e3o Velha surpreendeu-me a crescente fealdade da Cidade \u2013 o Monte Formoso a encher-se de \u201ccaixotes\u201d, a Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es acentuando a desgra\u00e7a urban\u00edstica que ali est\u00e1, a cidade \u201cnova\u201d ano ap\u00f3s ano mais \u201cpato-bravada\u201d.<br \/>\nEm cada regresso, naquela primeira volta seis vezes repetida, constatava, desgostoso, que Coimbra n\u00e3o tinha digerido a Torre do Arnado, nem retomado as rotas dos el\u00e9tricos, nem recomposto a destru\u00edda Navarro. Mas no campo de batalha em que a urbe ia sucumbindo \u00e0s ofensivas da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e do provincianismo novo-rico, uma Coimbra salvava-se ainda. Passada a fronteira da Rua da Sofia ao p\u00e9 de Santa Justa, as paredes altas dos velhos Col\u00e9gios permaneciam e, ao fundo, sobre a colina, l\u00e1 estava a Torre da Universidade, por detr\u00e1s do Col\u00e9gio dos \u00d3rf\u00e3os aonde o fogo chegou um dia, mas os pato-bravos ainda n\u00e3o.<br \/>\nNaqueles dias de reencontro com a Cidade permanecente passei a olhar para cima, encantado. Reparei nos beirais, nas g\u00e1rgulas, nos recortes de madeira e nos pain\u00e9is de cer\u00e2mica, nas portadas exteriores de madeira vivida, nos capit\u00e9is, nos frisos. E, ao n\u00edvel dos olhos, reparei nos estendais, nos canteiros, nos velhos perscrutadores do caminho alheio. J\u00e1 n\u00e3o havia, ent\u00e3o, a presen\u00e7a sonora dos preg\u00f5es naquela Coimbra que come\u00e7ava a aprender o significado de um novo palavr\u00e3o (de uma nova realidade): gentrifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFaz agora 10 anos que o territ\u00f3rio pelo qual se estende a Universidade de Coimbra \u2013 Alta e Sofia passou a integrar a Lista do Patrim\u00f3nio Mundial da UNESCO. N\u00e3o tive nada a ver com o processo conduzido pela equipa do ent\u00e3o Reitor Seabra Santos, mas apraz-me constatar que o territ\u00f3rio agora classificado seja aquele em que encontrei identidade, nos dias depois de Moscovo (em que as saudades mudaram de dire\u00e7\u00e3o). Nesta Cidade crescentemente descaraterizada, celebrar o Patrim\u00f3nio \u00e9 celebrar os edif\u00edcios e suas fun\u00e7\u00f5es, o Fado e as demais can\u00e7\u00f5es, a l\u00edngua portuguesa, os moradores de um Patrim\u00f3nio que n\u00e3o pode ser um cen\u00e1rio desabitado em regime de aluguer de curta dura\u00e7\u00e3o. Coimbra merece o nosso envolvimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Rocha<br \/>\nDocente<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":253410,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[935,100],"class_list":["post-265090","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-manuel-rocha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265090","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=265090"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265090\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=265090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=265090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=265090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}