{"id":265237,"date":"2023-06-25T09:49:14","date_gmt":"2023-06-25T09:49:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=265237"},"modified":"2023-06-25T09:49:14","modified_gmt":"2023-06-25T09:49:14","slug":"opiniao-sobre-a-utilidade-das-vanguardas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-sobre-a-utilidade-das-vanguardas\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Sobre a utilidade das vanguardas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-252909 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>Vivemos cercados por uma forma conformista de encarar o presente. Segundo ela, as sociedades que n\u00e3o se autodestroem apenas podem ser geridas pelos valores e limites impostos pelo neoliberalismo, apresentado como o mais perfeito e o \u00faltimo dos sistemas que atravessaram a hist\u00f3ria. Para este, como afirmava Margareth Tatcher e continuam a repetir os defensores do desmantelamento do Estado social, \u00abn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u00bb. Esquece-se a ideia de progresso proposta pelos fil\u00f3sofos iluministas, que orientou os grandes ideais de transforma\u00e7\u00e3o depois seguidos por mais de duzentos anos. Ao mesmo tempo, fixa-se o futuro num horizonte expect\u00e1vel, de cor cinza, como se a vida das sociedades fosse agora uma eterna repeti\u00e7\u00e3o, abandonando-se a perspetiva linear do trajeto hist\u00f3rico, potencialmente moderna e libertadora, e retomando-se \u00e0 tirania da no\u00e7\u00e3o circular do tempo, perante a qual nada de substancialmente novo h\u00e1 a esperar.<\/p>\n<p>Deste modo, habitamos um tempo dif\u00edcil para a iniciativa das vanguardas pol\u00edticas, est\u00e9ticas, filos\u00f3ficas e vivenciais, por defini\u00e7\u00e3o empenhadas na abertura de caminhos e na imagina\u00e7\u00e3o do novo. Elas requerem sempre o impulso, a ousadia, a experimenta\u00e7\u00e3o, por vezes a \u00e1rdua capacidade de provocar situa\u00e7\u00f5es, de remar contra a corrente ou de saltar sobre ela, sendo isto que lhes concede o dinamismo e a capacidade para gerar mudan\u00e7a. No campo das artes, o cubismo, o futurismo, o expressionismo, o construtivismo, o movimento Dada e o surrealismo projetaram possibilidades, ignoradas at\u00e9 \u00e0 altura em que emergiram, de representar artisticamente o mundo. Do mesmo modo, no territ\u00f3rio da pol\u00edtica e das ideias, perfilaram-se vanguardas \u2013 como o anarquismo, o comunismo, o situacionismo, o existencialismo, o pensamento cr\u00edtico ou mesmo alguns dos fascismos no seu in\u00edcio \u2013 que se afirmaram como destacamentos avan\u00e7ados da transfigura\u00e7\u00e3o do mundo e de ensaio do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que elas podem traduzir, como escreveu Fran\u00e7ois Noudelmann, \u00abmovimentos de moda que muito rapidamente saem de moda\u00bb. Ap\u00f3s abrirem caminhos atrav\u00e9s do seu car\u00e1ter inovador e radical, acabam por ser recuperadas pelo sistema de mercado e pelo pensamento dominante, ou ent\u00e3o passam a repetir-se a si pr\u00f3prias, perdendo a vitalidade e tornando-se caricaturas. No mundo atual, em particular na Europa e nas Am\u00e9ricas, esta apropria\u00e7\u00e3o das vanguardas pelo sistema \u2013 transformando em gasto \u00abd\u00e9j\u00e0 vu\u00bb aquilo que nasceu para ser novo \u2013 tem-se afirmado com particular \u00eanfase, apoiada nas novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e na comunica\u00e7\u00e3o global. Ali\u00e1s, logo pelos anos 40 e 50 os fil\u00f3sofos Theodor Adorno e Max Horkheimer consideravam j\u00e1 a \u00abind\u00fastria cultural\u00bb como espa\u00e7o para a padroniza\u00e7\u00e3o de tudo \u2013 mesmo gestos, palavras, pensamentos e obras de in\u00edcio inovadores ou a contracorrente \u2013, fazendo-o atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o da sociedade de massas.<\/p>\n<p>Em 1974, o cr\u00edtico liter\u00e1rio Peter B\u00fcrger abordar\u00e1 a forma como o capitalismo se apoderou deste universo.<br \/>\nEsta apropria\u00e7\u00e3o ocorre tamb\u00e9m porque o recuo das ideologias e a imposi\u00e7\u00e3o de um pragmatismo projetado no curto prazo fazem com que n\u00e3o se leve a s\u00e9rio, mesmo nos programas partid\u00e1rios, a capacidade para imaginar al\u00e9m do imediato e do \u00absenso comum\u00bb. Rejeita-se tudo o que n\u00e3o seja instantaneamente assimilado pelo cidad\u00e3o, desvalorizando-se o trabalho de quem, individual ou coletivamente, pensa e prop\u00f5e al\u00e9m desse horizonte limitado. Todavia, sem a capacidade de abrir caminhos e perspetivas que o pensamento e a atitude de vanguarda oferecem, jamais ser\u00e1 poss\u00edvel sair do c\u00edrculo vicioso imposto pela aus\u00eancia de reais alternativas. As vanguardas, \u00e9 certo, s\u00e3o sempre destacamentos avan\u00e7ados e minorias, como os batedores que nas batalhas do passado iam \u00e0 frente para reconhecerem o territ\u00f3rio inimigo, mas sem elas as sociedades permanecer\u00e3o bloqueadas. Se ciclicamente renovadas, podem ser far\u00f3is que orientam a esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos cercados por uma forma conformista de encarar o presente. 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