{"id":265973,"date":"2023-07-08T11:52:21","date_gmt":"2023-07-08T11:52:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=265973"},"modified":"2023-07-08T11:52:21","modified_gmt":"2023-07-08T11:52:21","slug":"opiniao-victoria-amelina-e-todos-os-nomes-que-nao-quero-esquecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-victoria-amelina-e-todos-os-nomes-que-nao-quero-esquecer\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Victoria Amelina  e todos os nomes  que n\u00e3o quero esquecer"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_252912\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/2022\/12\/opiniao-o-natal-uma-historia-de-amor\/martha-mendes\/\" rel=\"attachment wp-att-252912\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-252912\" class=\"size-full wp-image-252912\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-252912\" class=\"wp-caption-text\">DR<\/p><\/div>\n<p><strong>Victoria Amelina<\/strong> era uma escritora ucraniana que documentava crimes de guerra. Era romancista, ensa\u00edsta, poetisa e ativista de direitos humanos. Foi a fundadora de um festival de Literatura na regi\u00e3o de Donetsk que o ano passado, em resultado da invas\u00e3o russa, foi substitu\u00eddo pela iniciativa \u201cFight them with poetry\u201d, que ajuda a abastecer o ex\u00e9rcito ucraniano. \u00c9 autora de v\u00e1rios livros, entre eles \u201cFall Syndrome\u201d e \u201cDom\u2019s Dream Kingdom\u201d, pelos quais ganhou o Pr\u00e9mio Joseph Conrad e um lugar de finalista do Pr\u00e9mio de Literatura da Uni\u00e3o Europeia. Nos \u00faltimos meses, estava a trabalhar no livro \u201cWar and Justice Diary: Looking at Women Looking at War\u201d, que relata as experi\u00eancias de guerra de v\u00e1rias mulheres ucranianas. H\u00e1 uns dias, Victoria estava num restaurante que foi alvo de um ataque russo, no leste da Ucr\u00e2nia. Os russos ter\u00e3o usado um m\u00edssil de alta precis\u00e3o, sabendo que estavam a bombardear um local com v\u00e1rios civis. Victoria n\u00e3o sobreviveu aos ferimentos causados pelo bombardeamento. Morreu \u2013 ela e outras 12 pessoas (entre eles, quatro crian\u00e7as). Outras 60 pessoas ficaram feriadas. Tinha 37 anos e um filho pequeno; estava naquele restaurante com uma delega\u00e7\u00e3o de jornalistas e escritores colombianos. A semana passada, Victoria tornou-se numa v\u00edtima de um crime de guerra, semelhante \u00e0s das terr\u00edveis hist\u00f3rias que contou.<br \/>\nA guerra na Ucr\u00e2nia come\u00e7ou em fevereiro de 2022. A ONU estima que, entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023, o n\u00famero de v\u00edtimas civis na Ucr\u00e2nia j\u00e1 ultrapassava 21 mil: mais de 8 mil civis mortos e mais de 13 mil feridos. Estima-se que no total, em 12 meses de guerra, ter\u00e3o perdido a vida entre 30 mil a 40 mil civis (n\u00fameros n\u00e3o oficiais). No que diz respeito \u00e0s perdas militares, estimam-se, aproximadamente, 150 mil baixas de cada lado.<br \/>\nEm fevereiro deste ano, este conflito j\u00e1 tinha provocado a fuga de milh\u00f5es de pessoas (deslocados internos e para pa\u00edses europeus). A ONU classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a II Guerra Mundial. Cerca de 14 milh\u00f5es de pessoas ter\u00e3o sido retiradas das suas casas, mas v\u00e1rios milhares de civis vivem ainda em cidades bombardeadas, em caves, sem \u00e1gua nem eletricidade, dependentes de ajuda humanit\u00e1ria. Ao longo dos \u00faltimos meses, temos lido relatos dos mais horr\u00edveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade: execu\u00e7\u00f5es, viola\u00e7\u00f5es, torturas e raptos de crian\u00e7as, ataques a civis, bombardeamentos de maternidades, ataques a hospitais pedi\u00e1tricos. Parece valer tudo. Este \u00e9 o resultado da guerra \u2013 um jogo em que todos saem derrotados.<br \/>\nDias antes do bombardeamento, que acabaria por lhe ser fatal, Victoria Amelina escreveu no Twitter: \u201c\u00e0 noite, da minha varanda em Kiev, olhava para as bolas de fogo no c\u00e9u e ouvia as explos\u00f5es. Fui dormir sem ver as not\u00edcias. A guerra \u00e9 quando j\u00e1 n\u00e3o conseguimos acompanhar as not\u00edcias, nem chorar por todos os vizinhos que morrem no nosso lugar, a alguns quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Ainda assim, n\u00e3o me quero esquecer de aprender os nomes deles\u201d. S\u00e3o milhares de v\u00edtimas, numa longa lista que inclui, tamb\u00e9m, personalidades do meio cultural: Volodymyr Vakulenko, poeta, escritor infantil e ativista; Oleksandr Kysliuk, historiador e tradutor de l\u00ednguas cl\u00e1ssicas; Oleksandr Shapoval, bailarino e professor de dan\u00e7a; Yuri Kerpatenko, m\u00fasico e maestro, executado depois de se ter recusado a participar num concerto promovido pelos ocupantes da sua cidade.<br \/>\nE, agora, Victoria Amelina: romancista, ensa\u00edsta, poetisa e ativista de direitos humanos. Uma escritora que documentava crimes de guerra. Faulkner dizia que a literatura acende um f\u00f3sforo no campo no meio da noite. E embora um f\u00f3sforo n\u00e3o ilumine quase nada, permite-nos ver quanta escurid\u00e3o h\u00e1 \u00e0 nossa volta. Lembrei-me disto a prop\u00f3sito da tr\u00e1gica morte de Victoria: menos um f\u00f3sforo na escurid\u00e3o e o angustiante triunfo das sombras sobre a luz. A escurid\u00e3o cega, principalmente quando deixa de nos incomodar. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o me quero esquecer de aprender os nomes deles. Victoria Amelina. Digam o nome dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martha Mendes, Gestora de Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":252912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[539,100,5114],"class_list":["post-265973","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-martha-mendes","tag-opiniao","tag-victoria-amelina"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=265973"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265973\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=265973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=265973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=265973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}