{"id":266436,"date":"2023-07-14T10:45:52","date_gmt":"2023-07-14T10:45:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=266436"},"modified":"2023-07-14T10:45:52","modified_gmt":"2023-07-14T10:45:52","slug":"opiniao-a-mesa-com-portugal-a-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-a-mesa-com-portugal-a-lingua\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: \u00c0 Mesa com Portugal \u2013 a L\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/OLGA-CAVALEIRO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-253299\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/OLGA-CAVALEIRO.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>A l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 um adere\u00e7o. \u00c9 um dos \u00f3rg\u00e3os mais fascinantes que temos. Provavelmente devemos \u00e0 l\u00edngua a nossa sobreviv\u00eancia, pois que, desde sempre, a forma como escolhemos os alimentos muito ficou a dever \u00e0 triagem que este \u00f3rg\u00e3o permitiu. O bom e o mau, aquilo que nos alimenta e o que nos intoxica, tudo isso vem da fun\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria da l\u00edngua. Quantas vezes, perante a d\u00favida do alimento que temos \u00e0 nossa frente n\u00e3o o colocamos, a medo, sobre a l\u00edngua e, muito timidamente, vamos saboreando. Das duas uma, ou damos permiss\u00e3o de entrada mastigando e engolindo ou, ent\u00e3o, barramos o alimento cuspindo. Sempre percebemos o doce como atrativo e nutritivo e o amargo como perigoso e fatal. Pelo meio, fic\u00e1mos entusiasmados pelo salgado e ach\u00e1mos o \u00e1cido um del\u00edrio, em situa\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas. Ali\u00e1s, se calhar habitu\u00e1mo-nos ao \u00e1cido por uma necessidade de sobreviv\u00eancia e aprendemos a dar-lhe valor. N\u00e3o queremos sempre, mas n\u00e3o h\u00e1 nada melhor que uma ameixa com aquele travo de acidez ou um escabeche que arrepela na boca. Urg\u00eancia em sobreviver que nos fez descobrir coisas maravilhosas.<br \/>\nMas a l\u00edngua \u00e9 mesmo um \u00f3rg\u00e3o maravilhoso. Mais do que comer, adoro o que ela me deixa sentir o sabor. N\u00e3o como se estivesse a dissec\u00e1-lo ou a analis\u00e1-lo, mas s\u00f3 a saborear. Por isso, gosto de evitar a rotina do sabor. N\u00e3o comer sempre a mesma coisa ou comer, \u00e0quela hora, aquela coisa que num determinado momento nos fez sentir bem. \u00c0s vezes, at\u00e9 gosto de provar o inusitado como uma fruta ainda meia verde ou um queijo pouco curado para entender a beleza de uma fruta madura no ponto certo ou um queijo com v\u00e1rias meses de cura. Gosto de sentir o \u00e1cido ou o amargo a cortar-me a l\u00edngua e dou gra\u00e7as porque os nossos antepassados souberam transformar o perigoso em inofensivo e muito saboroso.<br \/>\nFico desfeita quando percebo que as nossas crian\u00e7as n\u00e3o se sentem impelidas a experimentar novos sabores e vivem no conforto do \u201cmundo feliz\u201d do doce e do salgado como se n\u00e3o existisse mais nada. Fico triste ao pensar que reduzem brutalmente a paleta de sabores apenas porque a abund\u00e2ncia n\u00e3o exige pensar na conserva\u00e7\u00e3o, na transforma\u00e7\u00e3o para conseguir a sobreviv\u00eancia. Temos crian\u00e7as moles, cheias de rotinas do tudo dispon\u00edvel dentro de um pacote, todos os dias, que n\u00e3o se deixam provocar por um pico de acidez ou de amargo. Est\u00e3o bem confort\u00e1veis no mundo colorido do sempre dispon\u00edvel e nem percebem que a marmelada s\u00f3 tem o sucesso que tem porque o marmelo cru pouco pr\u00e9stimo tem. Para descobrirem isso precisavam experimentar o marmelo cru e depois deliciarem-se com uma fatia de marmelada. Mimos que hoje n\u00e3o abundam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olga Cavaleiro<br \/>\nInvestigadora em Hist\u00f3ria e Cultura gastron\u00f3mica<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":253299,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[5284,3815],"class_list":["post-266436","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-a-mesa-com-portugal","tag-lingua"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=266436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266436\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=266436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=266436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=266436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}