{"id":266505,"date":"2023-07-15T09:56:58","date_gmt":"2023-07-15T09:56:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=266505"},"modified":"2023-07-15T09:56:58","modified_gmt":"2023-07-15T09:56:58","slug":"opiniao-o-totaliberalismo-ou-o-regresso-do-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-totaliberalismo-ou-o-regresso-do-fascismo\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O totaliberalismo ou o regresso do fascismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-244331 size-large\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/MANUEL-CASTELO-BRANCO-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>As democracias ocidentais, desde 11 de setembro de 2001, entraram, p\u00e9 ante p\u00e9, numa vertigem fascista. O 11 de setembro representou, sob o pretexto de uma proclamada \u201cguerra ao terrorismo\u201d, um momento cr\u00edtico de inflex\u00e3o democr\u00e1tica. O momento inaugural da p\u00f3s-democracia. Outro modo de enunciar o subtil regresso do fascismo.<\/p>\n<p>Regresso ancorado em estrat\u00e9gias sem\u00e2nticas, desde logo. A principal consiste na constru\u00e7\u00e3o de um nov\u00edssimo conceito de terrorista. As democracias europeias p\u00f3s Maio de 68 conheceram, de modo exato e cruel, o real e aut\u00eantico terrorismo. Os assassinatos e atentados da ETA, do IRA, dos Baader-Meinhof, nesses anos de chumbo, n\u00e3o foram, n\u00e3o obstante o seu car\u00e1ter espetacular \u2013 recorde-se o rapto e homic\u00eddio de Aldo Moro, primeiro ministro democrata-crist\u00e3o da conturbada It\u00e1lia do \u201ccompromisso hist\u00f3rico\u201d \u2013 pretexto ou causa de pol\u00edticas securit\u00e1rias nem da transforma\u00e7\u00e3o dos Estados demoliberais em Estados orwellianos de controlo e de vigil\u00e2ncia total.<\/p>\n<p>0 11 de setembro desvelou a tenta\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria de algumas democracias, h\u00e1 muito doentes, como a americana. A reconstru\u00e7\u00e3o do conceito de terrorista representa uma pe\u00e7a angular desse decaimento totalit\u00e1rio. Qualificar como terrorista qualquer indiv\u00edduo portador de um canivete su\u00ed\u00e7o em pontes londrinas, ou qualquer alucinado condutor de carrinhas invasor de zonas pedonais, significa algo de muito simples: todos somos terroristas em pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Ora sendo todos, do nascimento \u00e0 \u00faltima viagem, terroristas em pot\u00eancia, encontrada est\u00e1 a perfeita justifica\u00e7\u00e3o das democracias ocidentais para a queda nas consabidas virtudes da vigil\u00e2ncia, do controlo, do dom\u00ednio total da vida p\u00fablica e privada dos seus cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o tumoral das c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia \u00e9 a met\u00e1fora precisa do momento em que os Estados ocidentais deixaram de ser democracias..A profecia de Orwell, falhada a utopia sovi\u00e9tica, encontrou inesperado terreno f\u00e9rtil nas democracias do Velho Continente, mortinhas, valha a verdade, por apresentar credenciais musculadas dignas de tiranos a valer.<br \/>\nLe coup de gr\u00e2ce deste soturno cen\u00e1rio foi dado pelo Covid 19, esse v\u00edrus multiresistente aos discursos racionalistas dos que querem ser os Senhores da natureza, do universo e do mundo.<\/p>\n<p>Com o Covid 19 aprendemos que, afinal, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a de maior entre o totalitarismo chin\u00eas e o novo Estado Total Liberal. Aprendemos que os cidad\u00e3os livres mais n\u00e3o s\u00e3o que s\u00fabditos a ser, sem um pio, bovinamente confinados, enjaulados e segregados, pelo simples e inquestionado capricho de quem, ainda que com a peri\u00f3dica valida\u00e7\u00e3o formal do voto popular, se investe, a um tempo, em Diderot e Torquemada.<\/p>\n<p>Hanna Arendt, no seminal As Origens do Totalitarismo, aponta como crit\u00e9rio da transi\u00e7\u00e3o do Estado Democr\u00e1tico para o Estado Totalit\u00e1rio a circunst\u00e2ncia de as Pol\u00edcias se investirem do poder de criadores e int\u00e9rpretes aut\u00eanticos das Leis Penais. Ou, dito de outro modo, a circunst\u00e2ncia de as Pol\u00edcias, e n\u00e3o o Legislativo, serem o rosto criador da Lei.<br \/>\nNuma democracia aut\u00eantica os cidad\u00e3os gozam do direito inalien\u00e1vel de n\u00e3o ficarem submetidos a pr\u00e1ticas e tecnologias draconianas de controlo . N\u00e3o h\u00e1 democracia a s\u00e9rio sem o respeito absoluto pelos espa\u00e7os de intimidade e de privacidade de cada pessoa singular.<\/p>\n<p>No dia em que perdermos, ou abdicarmos, do direito ao anonimato e do direito \u00e0 n\u00e3o rastreabilidade dos nossos passos, nesse dia seremos os espectadores, nada comprometidos, de um mundo \u00e9tico-pol\u00edtico em ru\u00ednas<br \/>\nVivemos j\u00e1 nesse mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As democracias ocidentais, desde 11 de setembro de 2001, entraram, p\u00e9 ante p\u00e9, numa vertigem fascista. O 11 de setembro representou, sob o pretexto de uma proclamada \u201cguerra ao terrorismo\u201d, um momento cr\u00edtico de inflex\u00e3o democr\u00e1tica. O momento inaugural da p\u00f3s-democracia. Outro modo de enunciar o subtil regresso do fascismo. 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