{"id":266836,"date":"2023-07-23T13:14:31","date_gmt":"2023-07-23T13:14:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=266836"},"modified":"2023-07-23T13:14:31","modified_gmt":"2023-07-23T13:14:31","slug":"opiniao-antigamente-e-que-era-bom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-antigamente-e-que-era-bom\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Antigamente \u00e9 que era bom"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-252909\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/RUI-BEBIANO-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>Todos conhecemos a frase-feita que proclama \u00abantigamente \u00e9 que era bom\u00bb. Todavia, o conhecimento hist\u00f3rico mostra que o princ\u00edpio subjacente ao seu uso \u2013 perspetivando um passado considerado melhor que o presente \u2013 \u00e9 t\u00e3o antigo quanto a exist\u00eancia humana. Sabe-se que as grandes ca\u00e7adas representadas nas pinturas rupestres correspondiam a uma idealiza\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia colocada num passado ao qual se desejaria regressar. A idealiza\u00e7\u00e3o do tempo c\u00edclico, que antes da vit\u00f3ria da ideia de progresso acompanhou a maior parte do trajeto das sociedades humanas, reflete essa perspetiva, sempre ligada a um desejo de regresso ao que se cria outrora magn\u00edfico.<br \/>\nA cultura escrita reflete essa perspetiva pelo menos desde a frase de C\u00edcero \u00abo tempora o mores\u00bb (\u00aboh tempos, oh costumes!\u00bb) usada em 63 a.C. no primeiro dos seus discursos contra o senador romano Lucius Sergius Catilina. Quando trabalhei, como historiador, sobre os s\u00e9culos XVII e XVIII, deparei com in\u00fameros exemplos dessa express\u00e3o de nostalgia, como aconteceu com aquela carta de 1723 em que um amigo se queixava a outro, ambos de avan\u00e7ada idade, da falta de fibra da juventude, afirmando que \u00abnoutro tempo \u00e9 que havia homens de bigodes\u00bb. Perde-se hoje a conta \u00e0s obras de fic\u00e7\u00e3o e aos textos memorial\u00edsticos onde se utiliza esse registo venerador do passado.<br \/>\nEm Portugal, a cultura do Estado Novo insistiu muito nele. Desde logo ao descrever como exemplares, desde a escola prim\u00e1ria, figuras, factos e atitudes que tinham pautado uma grandeza imagin\u00e1ria ou exagerada, tomada como indispens\u00e1vel para alimentar uma determinada no\u00e7\u00e3o da identidade nacional e do destino p\u00e1trio. Depois, para exaltar a saga da constru\u00e7\u00e3o e da manuten\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio, olhado como patrim\u00f3nio inalien\u00e1vel. Finalmente, como eixo da sensibilidade e dos valores do salazarismo, insistindo na tradi\u00e7\u00e3o do catolicismo ultramontano e no elogio desse ruralismo incorporado num modelar e imut\u00e1vel \u00abdoce viver habitualmente\u00bb.<br \/>\nEsta especificidade nacional relaciona-se com um princ\u00edpio global que tende a colocar o \u00abnovo\u00bb em conflito com o \u00abantigo\u00bb, num processo de incompreens\u00e3o perante a novidade tanto maior quanto a velocidade das transforma\u00e7\u00f5es acelera. O psic\u00f3logo social norte-americano Adam Mastroianni, que tem estudado o modo como diferentes grupos e gera\u00e7\u00f5es olham o mundo \u00fanico e diverso que partilham, afirmou em entrevista recente sa\u00edda no \u00abP\u00fablico\u00bb que a frequente valoriza\u00e7\u00e3o do passado se deve \u00aba um vi\u00e9s da mem\u00f3ria\u00bb, j\u00e1 que tendemos sempre a guardar as melhores recorda\u00e7\u00f5es e a deixar fugir as piores. Desta forma, o \u00abantigamente \u00e9 que era bom\u00bb n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o.<br \/>\nEm artigo publicado com Daniel Gilbert na revista \u00abNature\u00bb, intitulado \u00abA ilus\u00e3o do decl\u00ednio moral\u00bb, Mastroianni analisou mais de 12 milh\u00f5es de respostas a inqu\u00e9ritos realizados em 60 pa\u00edses entre 1949 e 2019, concluindo que, ao longo destes 70 anos, a perce\u00e7\u00e3o de que a moralidade se encontra em queda existiu sempre. O estudo constatou ainda a exist\u00eancia de uma tend\u00eancia para pensarmos que esse decl\u00ednio come\u00e7ou sensivelmente por volta da altura em que nascemos, independentemente de termos nascido em 1935 ou em 1995, o que ajuda a corroborar a referida hip\u00f3tese do \u00abvi\u00e9s de mem\u00f3ria\u00bb que conduz \u00e0 hipervaloriza\u00e7\u00e3o do passado.<br \/>\nNa verdade, \u00abantigamente\u00bb era bom. como era mau, tal como com o \u00abhoje\u00bb acontece a mesma coisa. A aten\u00e7\u00e3o prestada \u00e9 que difere, como diferem os \u00e2ngulos de an\u00e1lise e os c\u00f3digos de quem observa. Realidades e pr\u00e1ticas positivas desapareceram, sem d\u00favida, substitu\u00eddas por outras diferentes, em alguns casos piores ou menos completas, mas o contr\u00e1rio tamb\u00e9m ocorre. Quem tem a felicidade de conviver de forma atenta, interativa e aberta, sob uma perspetiva nada moralista, com gera\u00e7\u00f5es mais novas, assim como quem conhece a hist\u00f3ria dos \u00faltimos duzentos anos, sabe que a l\u00f3gica do passado como modelo de perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 parcial e absurda. Funciona, al\u00e9m disso, como obst\u00e1culo a uma compreens\u00e3o din\u00e2mica e plural do presente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Bebiano<br \/>\nHistoriador, investigador do CES e autor<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":252909,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[100,547],"class_list":["post-266836","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-opiniao","tag-rui-bebiano"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=266836"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266836\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=266836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=266836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=266836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}