{"id":266841,"date":"2023-07-23T13:27:00","date_gmt":"2023-07-23T13:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=266841"},"modified":"2023-07-23T13:27:00","modified_gmt":"2023-07-23T13:27:00","slug":"opiniao-tao-maes-como-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-tao-maes-como-eu\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: T\u00e3o m\u00e3es como eu"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_252912\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-252912\" class=\"size-full wp-image-252912\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-252912\" class=\"wp-caption-text\">DR<\/p><\/div>\n<p>Lemos e custa a acreditar que a not\u00edcia seja atual: em It\u00e1lia as autoridades \u2013 que j\u00e1 tinham proibido novos registos de filhos de casais homossexuais &#8211; est\u00e3o a exigir a altera\u00e7\u00e3o de certid\u00f5es de nascimento de menores, para que elas n\u00e3o incluam o nome de m\u00e3es n\u00e3o biol\u00f3gicas. Dezenas de mulheres come\u00e7aram, por estes dias, a receber uma notifica\u00e7\u00e3o que, validada por uma ordem judicial, pode vir a mudar-lhes a hist\u00f3ria e a fam\u00edlia.<br \/>\nEm It\u00e1lia a uni\u00e3o entre pessoas do mesmo sexo \u00e9 legal desde 2016. No entanto, n\u00e3o foram atribu\u00eddos aos casais homossexuais plenos direitos de ado\u00e7\u00e3o, por se temer que isso motivasse o recurso a barrigas de aluguer, que continuam a ser ilegais. N\u00e3o havendo legisla\u00e7\u00e3o clara sobre o tema, alguns tribunais autorizaram a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as registadas com progenitores do mesmo sexo. As crian\u00e7as cujas certid\u00f5es se pretende agora alterar foram concebidas no estrangeiro, atrav\u00e9s de fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro (FIV), e registadas com duas m\u00e3es. Mas em It\u00e1lia a FIV s\u00f3 \u00e9 permitida a casais heterossexuais (casados ou em uni\u00e3o de facto). A C\u00e2mara dos Deputados est\u00e1, atualmente, a analisar a possibilidade de criminalizar, com at\u00e9 dois anos de pris\u00e3o, o recurso a barrigas de aluguer por parte de homossexuais, mesmo que o procedimento seja feito em pa\u00edses onde este \u00e9 legal.<br \/>\nEm 2023, aqui ao lado, em It\u00e1lia &#8211; na Europa que partilhamos \u2013 uma m\u00e3e igual a mim, t\u00e3o m\u00e3e como eu, foi informada que o Estado quer apagar o seu nome dos documentos do filho, na esperan\u00e7a de conseguir apag\u00e1-la da sua hist\u00f3ria. Para al\u00e9m da crueldade da medida, isto tem consequ\u00eancias pr\u00e1ticas graves: por exemplo, em caso de falecimento da m\u00e3e biol\u00f3gica, a guarda parental pode n\u00e3o ser autom\u00e1tica, porque o outro elemento do casal n\u00e3o \u00e9 reconhecido como progenitor. \u00c9 uma inaceit\u00e1vel perda de direitos e um retrocesso intoler\u00e1vel. Em 1990 eu estava a entrar para a Escola; o 25 de Abril tinha sido h\u00e1 16 anos e faltavam apenas 2 para a assinatura do Tratado de Maastricht. O mundo parecia um espa\u00e7o arejado e, no entanto, foi s\u00f3 nesta altura que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) retirou a homossexualidade da classifica\u00e7\u00e3o estat\u00edstica internacional de doen\u00e7as e problemas relacionados com a sa\u00fade. At\u00e9 ent\u00e3o, a homossexualidade era tratada como uma desordem mental. Nas notifica\u00e7\u00f5es que estas fam\u00edlias est\u00e3o a receber o registo de duas m\u00e3es \u00e9 descrito como \u201ccontr\u00e1rio \u00e0 ordem p\u00fablica\u201d. Outra formula\u00e7\u00e3o, os mesmos ecos de um passado demasiado recente para j\u00e1 n\u00e3o nos lembrarmos dele.<br \/>\nEu ainda nasci num tempo em que a homossexualidade era tratada por organiza\u00e7\u00f5es respeit\u00e1veis como uma patologia. E, mais de trinta anos depois, ainda h\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses que criminalizam relacionamentos \u00edntimos, consensuais, entre adultos do mesmo sexo. Vou escrever isto de outra forma: continua a ser poss\u00edvel, hoje, um cidad\u00e3o ser judicialmente condenado &#8211; ao lado de assassinos, violadores e ladr\u00f5es &#8211; por amar uma pessoa do mesmo sexo. A orienta\u00e7\u00e3o sexual faz parte da nossa identidade. Somos tamb\u00e9m o que sentimos, quem amamos, o que desejamos. E a forma como lidamos com a diferen\u00e7a \u00e9 um dos maiores indicadores do est\u00e1dio de evolu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de uma sociedade. Os pais e as m\u00e3es homossexuais s\u00e3o, antes de mais, homens e mulheres que se recusam a hipotecar aquilo que s\u00e3o. E n\u00e3o h\u00e1 nada que mere\u00e7a mais respeito e admira\u00e7\u00e3o do que isso. S\u00e3o sempre os inteiros que mudam o mundo. Para melhor. O amor n\u00e3o \u00e9 padroniz\u00e1vel e as fam\u00edlias tamb\u00e9m n\u00e3o. Amamos sem regras, nem defini\u00e7\u00f5es &#8211; acima das regras e das defini\u00e7\u00f5es. E para a defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma fam\u00edlia s\u00f3 encontro uma regra: amor. O Papa Francisco disse, em tempos, que n\u00e3o existem m\u00e3es solteiras porque ser m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 um estado civil. Ser m\u00e3e tamb\u00e9m n\u00e3o tem nada a ver com a orienta\u00e7\u00e3o sexual e tem muito mais a ver com amor do que com biologia. \u00c9 esse o tra\u00e7o comum a todas as m\u00e3es, o que as une para l\u00e1 de todas as diferen\u00e7as: o amor pelos filhos. As m\u00e3es italianas que correm o risco de ver o seu nome retirado da certid\u00e3o dos filhos s\u00e3o t\u00e3o m\u00e3es como eu. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apag\u00e1-las.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martha Mendes<br \/>\nGestora de Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":252912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[539,100],"class_list":["post-266841","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-martha-mendes","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=266841"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266841\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=266841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=266841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=266841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}