{"id":268716,"date":"2023-09-09T09:55:07","date_gmt":"2023-09-09T09:55:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=268716"},"modified":"2023-09-09T09:55:07","modified_gmt":"2023-09-09T09:55:07","slug":"a-ingreme-escada-social-ate-a-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/a-ingreme-escada-social-ate-a-universidade\/","title":{"rendered":"A \u00edngreme escada social at\u00e9 \u00e0 universidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_252912\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-252912\" class=\"size-medium wp-image-252912\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/MARTHA-MENDES-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-252912\" class=\"wp-caption-text\">DR<\/p><\/div>\n<p>Este ano foi pela primeira vez aplicado, no concurso de acesso ao ensino superior p\u00fablico, o contingente especial para benefici\u00e1rios do escal\u00e3o A da A\u00e7\u00e3o Social Escolar (ASE). A medida garantiu a entrada de 1013 alunos dos 2.800 jovens carenciados que ingressaram no ensino superior. Aparentemente, o n\u00famero \u00e9 feliz e mostra uma evolu\u00e7\u00e3o positiva &#8211; o ano passado s\u00f3 tinham conseguido vaga 1400 alunos benefici\u00e1rios do 1.\u00ba escal\u00e3o do abono de fam\u00edlia. Mas isto continua a ser muito pouco. Em cerca de 49.500 estudantes j\u00e1 colocados, menos de 6% s\u00e3o carenciados. Os n\u00fameros s\u00e3o preocupantes e vistos \u00e0 lupa pioram. Os resultados mostram um dado importante: a diferen\u00e7a entre as m\u00e9dias do acesso geral e do contingente especial, na maioria dos cursos, n\u00e3o \u00e9 significativa. Pelo contr\u00e1rio: em quase metade das licenciaturas, os mais pobres conseguem melhores resultados. Estamos a falhar o alvo.<br \/>\nO aluno carenciado que entrou em Medicina com 18.5 \u00e9 t\u00e3o brilhante como o que entrou, via acesso geral, com 18.6. O contexto financeiro da sua fam\u00edlia n\u00e3o o impediu de ser brilhante. N\u00e3o s\u00e3o estes os alunos que precisam da ajuda do pa\u00eds. No entanto, sem o novo contingente, n\u00e3o teria sido colocado nenhum estudante carenciado em 80% dos cursos com nota mais elevada. Os dados s\u00e3o incongruentes e obrigam-nos a perguntar: o que \u00e9 que continuamos a fazer mal? Porque \u00e9 que os alunos desfavorecidos, mesmo os brilhantes, continuam a n\u00e3o entrar nos cursos com as m\u00e9dias mais altas? E porque \u00e9 que os alunos que, efetivamente, correm riscos de n\u00e3o se cumprirem continuam sem ter medidas que fa\u00e7am a diferen\u00e7a?<br \/>\nH\u00e1 alunos carenciados em 50 dos 71 cursos com m\u00e9dias iguais ou superiores a 17 valores. Em quase 40 destes cursos n\u00e3o teria entrado nenhum aluno carenciado se este contingente n\u00e3o existisse. Mas o dado mais curioso \u00e9 mesmo a inexist\u00eancia de diferen\u00e7as: em quase metade dos cursos, as notas dos estudantes carenciados foram superiores \u00e0s do acesso geral. E nos cursos em que isto n\u00e3o se verificou, os alunos do contingente especial t\u00eam m\u00e9dias apenas 0,1 ou 0,2 valores inferiores \u00e0 do \u00faltimo colocado pelo regime geral. T\u00eam um perfil muito semelhante ao dos restantes alunos \u2013 ou at\u00e9 superior. Ent\u00e3o, porque \u00e9 que continuam a ser exclu\u00eddos dos cursos que desejam? Os estudantes carenciados disputam, entre si, 2% das vagas de cada curso ou um m\u00ednimo de duas vagas. A medida \u00e9 t\u00e3o restrita que s\u00f3 chega aos melhores \u2013 e isso muda pouco. Enquanto n\u00e3o houver alunos com m\u00e9dia de 15 ou 16 a entrar em Medicina e Engenharia Aeroespacial, n\u00e3o estamos efetivamente a mudar nada.<br \/>\nA Escola P\u00fablica \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o de desenvolvimento social, que deve servir a equidade, a diversidade e a mobilidade social. T\u00e3o importante como colocar jovens desfavorecidos no ensino superior \u00e9 coloc\u00e1-los nos cursos com m\u00e9dias elevadas &#8211; por tradi\u00e7\u00e3o, reservados \u00e0s classes altas. Um ensino verdadeiramente democr\u00e1tico d\u00e1 a todos condi\u00e7\u00f5es para chegar \u00e0 Universidade, mas tamb\u00e9m garante que n\u00e3o h\u00e1 corredores vedados dentro da Universidade, para que, no futuro, n\u00e3o haja, c\u00e1 fora, corredores de acesso restrito aos privilegiados.<br \/>\nO Governo tinha anunciado um contingente espec\u00edfico para alunos de escolas em Territ\u00f3rios Educativos de Interven\u00e7\u00e3o Priorit\u00e1ria &#8211; territ\u00f3rios econ\u00f3mica e socialmente desfavorecidos, marcados pela pobreza e exclus\u00e3o social, onde a viol\u00eancia, o abandono e o insucesso escolar mais se manifestam.<br \/>\nEste contingente nunca chegou a sair do papel, dando origem ao que visa benefici\u00e1rios de ASE. Talvez estejamos a falhar na defini\u00e7\u00e3o do problema ou, pelo menos, do seu alcance. Quais s\u00e3o as verdadeiras car\u00eancias, que impedem os jovens de quebrar o ciclo? Talvez as dificuldades financeiras sejam s\u00f3 uma parte do problema, num contexto em que h\u00e1 problemas mais urgentes. \u00c9 a\u00ed que o Estado \u00e9 necess\u00e1rio: para garantir que quando o contexto puxa para baixo, o pa\u00eds puxa para cima. E que o caminho da mobilidade social se faz atrav\u00e9s de um elevador social democr\u00e1tico, justo e em pleno funcionamento, e n\u00e3o atrav\u00e9s de uma escada \u00edngreme e sem corrim\u00e3o que, quase 50 anos depois do 25 de Abril, continua a ser imposs\u00edvel de escalar para a maioria dos jovens que nascem do lado errado da sorte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano foi pela primeira vez aplicado, no concurso de acesso ao ensino superior p\u00fablico, o contingente especial para benefici\u00e1rios do escal\u00e3o A da A\u00e7\u00e3o Social Escolar (ASE). A medida garantiu a entrada de 1013 alunos dos 2.800 jovens carenciados que ingressaram no ensino superior. 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