{"id":268719,"date":"2023-09-09T09:57:44","date_gmt":"2023-09-09T09:57:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=268719"},"modified":"2023-09-09T09:57:44","modified_gmt":"2023-09-09T09:57:44","slug":"vencem-nos-por-cansaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/vencem-nos-por-cansaco\/","title":{"rendered":"Vencem-nos por cansa\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/DIOGO-CABRITA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-205994\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/DIOGO-CABRITA-300x157.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" \/><\/a><\/p>\n<p>A estrutura de atendimento de doentes hoje \u00e9 uma escada de insatisfa\u00e7\u00e3o. O primeiro degrau \u00e9 o das pessoas, elas mesmas, que est\u00e3o insatisfeitas com a vida, com o custo desta, e com a desesperan\u00e7a de trabalhar e n\u00e3o conseguir sair da cepa torta. Trabalhar n\u00e3o garante casa, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, justi\u00e7a e sa\u00fade. Mais grave \u00e9 que n\u00e3o garante aquecimento ou conforto. \u00c9 o maior falhan\u00e7o da governa\u00e7\u00e3o portuguesa. Isto traduz-se em depress\u00f5es, ansiedades, desespero, rela\u00e7\u00f5es doentes. Casa onde n\u00e3o h\u00e1 p\u00e3o\u2026 O degrau seguinte \u00e9 buscar solu\u00e7\u00f5es gratuitas onde se inclui o recurso a urg\u00eancias hospitalares. As urg\u00eancias servem para suprir a falta de medicina familiar, a m\u00e1 presta\u00e7\u00e3o aos cuidados continuados, a aus\u00eancia de apoios eficazes nos lares, os constrangimentos criados sobre as consultas privadas.<br \/>\nEm Fran\u00e7a a op\u00e7\u00e3o pode ser consultar um cl\u00ednico, fazer os exames que pede e o dinheiro segue o paciente. Assim se retiram milhares de pessoas de urg\u00eancias sobrelotadas. \u00c9 o misto entre p\u00fablico e privado. Aqui a ideologia n\u00e3o quer. Se tenho um problema de pele poderia ir a um atendimento dermatol\u00f3gico. Se a pr\u00f3stata me perturba \u00eda a um urologista. Deste modo o Estado pagava o valor que custam estes atendimentos, directamente aos cl\u00ednicos nos seus espa\u00e7os. Mas claro que a ideologia tem destru\u00eddo, com milhares de regras e certifica\u00e7\u00f5es, o exerc\u00edcio privado e pessoal da medicina. Os constrangimentos for\u00e7aram a encerrar o que nunca causou problemas, para agora produzir monstros empresariais que abrem como cogumelos na voracidade das seguradoras.<br \/>\nO degrau seguinte foi encerrar portas de atendimento para barrar o acesso desta vertigem que s\u00e3o as queixas mi\u00fadas, as queixas pequenas. Os doentes n\u00e3o sabem se o que agora sentem \u00e9 grave, mas ouvem esses canais televisivos de estupidez sem fim a lan\u00e7ar o p\u00e2nico, a conduzir a discursos de medo. Podiam verter a estrat\u00e9gia em ensino, em forma\u00e7\u00e3o do simples, em atendimentos por whatsapp filmados em directo. O queixoso adoraria ver-se na TV e a sua quest\u00e3o respondida em directo seria uma aula. Torci o p\u00e9, apareceu-me rubor na mama, hoje tenho o rabo quente, sinto este sinal a crescer\u2026 Constru\u00edamos doutores da mula russa, mas agora com a experi\u00eancia de terem visto algo semelhante na TV. O degrau maior \u00e9 o espa\u00e7o de urg\u00eancias como a do hospital dos Cov\u00f5es onde um ou outro m\u00e9dico se atreve a enfrentar a horda de queixosos que n\u00e3o tem outro lugar onde ir. S\u00e3o dezenas de pedintes de clem\u00eancia e ajuda por aquilo que n\u00e3o sabem se \u00e9 grave, mas n\u00e3o t\u00eam outra porta, ou n\u00e3o a querem usar, ou acham que nas urg\u00eancias \u00e9 melhor.<br \/>\nA verdade \u00e9 que esperam, fazem alguns exames, s\u00e3o vistos de modo indiferenciado entre indigentes mal comportados, loucos sem solu\u00e7\u00f5es na actual organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos psiqui\u00e1tricos, ansiosos cr\u00f3nicos, superutilizadores de urg\u00eancias (milhares inscrevem-se mais de 15 vezes por ano em urg\u00eancias, al\u00e9m de consultas, atendimentos privados) etc. Neste processo, a gest\u00e3o n\u00e3o se preocupa com os tempos de espera, n\u00e3o se preocupa com a falta cr\u00f3nica de agentes de qualidade, com agentes m\u00e9dicos que aportam efici\u00eancia. A urg\u00eancia dos Cov\u00f5es \u00e9 j\u00e1 uma anedota e um \u201ccase study\u201d do que n\u00e3o devia estar aberto no sistema.<br \/>\nO problema n\u00e3o s\u00e3o os doentes, nem os servi\u00e7os, mas a aus\u00eancia de ARS, a aus\u00eancia de lideran\u00e7a do sistema. Uma ARS ausente, de cabe\u00e7a enterrada na areia, sem solu\u00e7\u00f5es de atendimentos, sem avan\u00e7ar estudos sobre a satisfa\u00e7\u00e3o dos doentes. Hoje dezenas de doentes abandonam as urg\u00eancias, vencidos pelo cansa\u00e7o, tentando solu\u00e7\u00f5es que desconhe\u00e7o, fugindo do desespero que \u00e9 ser pobre apesar de trabalhar. A realidade \u00e9 uma trovoada de desinteresse, um lugar onde o director de urg\u00eancia do CHUC nunca aparece, onde o gestor mor do CHUC nunca se inscreve para perceber aquilo que construiu. Ando t\u00e3o envergonhado desta pe\u00e7a de teatro em que me colocaram de actor!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A estrutura de atendimento de doentes hoje \u00e9 uma escada de insatisfa\u00e7\u00e3o. O primeiro degrau \u00e9 o das pessoas, elas mesmas, que est\u00e3o insatisfeitas com a vida, com o custo desta, e com a desesperan\u00e7a de trabalhar e n\u00e3o conseguir sair da cepa torta. Trabalhar n\u00e3o garante casa, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, justi\u00e7a e sa\u00fade. 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