{"id":268888,"date":"2023-09-13T10:51:10","date_gmt":"2023-09-13T10:51:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=268888"},"modified":"2023-09-13T10:51:10","modified_gmt":"2023-09-13T10:51:10","slug":"opiniao-doacao-de-orgaos-a-dadiva-extrema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-doacao-de-orgaos-a-dadiva-extrema\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Doa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os\u2013A d\u00e1diva extrema"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/MANUEL-ANTUNES.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-206338\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/MANUEL-ANTUNES.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>No passado dia 20 de julho celebrou-se o Dia Nacional da Doa\u00e7\u00e3o e Transplanta\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os, institu\u00eddo em 2019 e \u201cdestinado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos atos comemorativos da doa\u00e7\u00e3o e transplanta\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os\u201d. A atividade da transplanta\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os humanos \u00e9 uma das \u00e1reas mais reconfortantes da carreira de um cirurgi\u00e3o. No caso do cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 literalmente dar uma nova vida a um doente que est\u00e1, geralmente, a poucos meses, semanas, ou mesmo dias de a perder. Para a equipa que faz este ato \u00e9, pois, um momento feliz e muito emocionante.<br \/>\nContudo, esta emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos faz esquecer que por detr\u00e1s do transplante est\u00e1, na grande maioria dos casos, a morte de uma pessoa, o dador, embora haja casos de transplanta\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de dador vivo, especialmente do rim. A doa\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o ou parte dele, em vida \u00e9, naturalmente, uma d\u00e1diva muito especial. Geralmente \u00e9 feita por um membro da fam\u00edlia do recetor, mas agora existe a possibilidade de \u2018doa\u00e7\u00e3o cruzada\u2019, que permite que o \u00f3rg\u00e3o seja utilizado noutra pessoa, o que \u00e9 uma prova de solidariedade extrema de ambos os lados.<br \/>\nVoltemos ao \u2018dador cad\u00e1ver\u2019. A lei portuguesa dita que todos somos dadores de \u00f3rg\u00e3os ap\u00f3s a morte, a menos que, em vida, nos registemos no Registo Nacional de N\u00e3o-dadores (RENNDA), criado em 1994. Desde o in\u00edcio do registo houve apenas 37.580 inscritos, correspondendo a 0,36% da popula\u00e7\u00e3o portuguesa. Esta \u00e9, pois, uma lei muito liberal que coloca o nosso Pa\u00eds em 3\u00ba lugar de taxa de doa\u00e7\u00e3o do mundo. Mas, ainda que respeitando a vontade dos que se inscreveram no RENNDA, esta taxa deveria ser zero. N\u00e3o custa nada, naquele momento j\u00e1 n\u00e3o precisamos dos \u00f3rg\u00e3os! E assim, mesmo depois da morte, praticamos uma obra de caridade.<br \/>\nMas h\u00e1, ainda, outros atores nesta hist\u00f3ria. Os familiares dos dadores. A fam\u00edlia n\u00e3o pode alterar esta situa\u00e7\u00e3o depois da morte. Nestas condi\u00e7\u00f5es, lidar com o ente ou entes mais pr\u00f3ximos, e a sua dor, exige cuidados especiais para evitar, tanto quanto poss\u00edvel, conflitos num momento t\u00e3o dif\u00edcil quanto crucial. Lembro-me, logo no princ\u00edpio da nossa atividade de transplanta\u00e7\u00e3o, de uma jovem esposa que, confrontada com a morte do seu companheiro e a imin\u00eancia da colheita de \u00f3rg\u00e3os, pareceu surpreendida, com um misto de raiva e impot\u00eancia. Foi uma rea\u00e7\u00e3o breve, recomp\u00f4s-se rapidamente e pediu apenas que lhe dessem \u201cuma meia hora a s\u00f3s\u201d com o seu amor, o que, evidentemente, lhe foi concedido, sem nenhuma consequ\u00eancia nociva.<br \/>\nPara melhor ilustrar o papel da fam\u00edlia, trago aqui uma carta dram\u00e1tica que a m\u00e3e de um dos nossos dadores me dirigiu e aqui transcrevo na \u00edntegra, omitindo apenas os detalhes que pudessem desvendar a sua identidade:<br \/>\nFaz hoje um m\u00eas que o senhor e a sua equipa procederam ao transplante do cora\u00e7\u00e3o recolhido do corpo de um jovem de 34 anos. Esse jovem foi algu\u00e9m muito querido e amado. Foi uma pessoa de ideais, de valores e de projetos para a vida e para a sociedade. Tinha grandes qualidades pessoais e profissionais\u2026Gostava do que fazia, tanto na \u00e1rea profissional como nos seus hobbies, ligados \u00e0 natureza e \u00e0 agricultura. Respeitava os animais e adorava os seus animais dom\u00e9sticos. Inteligente e sens\u00edvel, detestava a mediocridade dos que julgam tudo saber e n\u00e3o tolerava a mesquinhez de car\u00e1cter.<br \/>\nNum dia de calor excecional, o esfor\u00e7o f\u00edsico que n\u00e3o mediu e o anticoagulante que estava a tomar deram um resultado fat\u00eddico\u2026 Pela vossa compet\u00eancia e pela generosidade na disponibiliza\u00e7\u00e3o dos vossos conhecimentos a favor dos outros, s\u00f3 posso pensar que o transplante foi bem-sucedido.<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o que transplantaram \u00e9 parte de mim. \u00c9 meu. Foi gerado nas minhas entranhas. Ainda que ferida pela adversidade, estou c\u00e1, respiro\u2026 E, por mim e pelo meu filho, gostaria que fizessem saber \u00e0 pessoa (homem ou mulher, nova ou menos nova) que tem em si esse nosso cora\u00e7\u00e3o (meu e do meu filho), que desejo, que exijo, que o estime, que o cuide e que seja merecedor dele. Para que ele possa bater por longo tempo no seu peito e possa contribuir para a felicidade do seu portador e dos que lhe querem bem\u2026<br \/>\nPelo que soube de si, s\u00f3 posso pensar que \u00e9 a favor da medicina humanizada e com certeza que a equipa que lidera comunga do mesmo ponto de vista. Entender\u00e3o, portanto, a minha necessidade de vos fazer chegar estas palavras.<br \/>\nCom muita dor, com muito amor,<br \/>\nUma m\u00e3e que s\u00f3 agora arranjou for\u00e7a para escrever este texto.<br \/>\nComo a dor de alguns se pode facilmente transformar na felicidade de outros. E sem rancor!<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do Coordenador &#8211; Cirurgia Cardiotor\u00e1cica \u2013 Hospital CUF Coimbra  e professor catedr\u00e1tico jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Manuel Antunes<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":251136,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2563,1406,2046,35],"class_list":["post-268888","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-doacao","tag-manuel-antunes","tag-orgaos","tag-saudedb"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268888"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268888\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}