{"id":268932,"date":"2023-09-14T11:29:01","date_gmt":"2023-09-14T11:29:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=268932"},"modified":"2023-09-14T11:29:01","modified_gmt":"2023-09-14T11:29:01","slug":"opiniao-educacao-a-cultura-da-dependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-educacao-a-cultura-da-dependencia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Educa\u00e7\u00e3o: a cultura da depend\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-248854 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi-1024x536.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"340\" \/><\/a><\/p>\n<p>A autonomia \u00e9 o chav\u00e3o dos discursos de estado. A depend\u00eancia \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o a que o estado nos conduziu.<br \/>\nEu sa\u00ed da casa de meus pais aos 10 anos, quando fiz a 4\u00aa classe e fui para o Liceu. Da organiza\u00e7\u00e3o e disciplina familiar bem estruturadas, passei a habitar um quarto numa casa de h\u00f3spedes, sendo respons\u00e1vel pela gest\u00e3o da minha vida pessoal e escolar. O tempo do Liceu foi a transi\u00e7\u00e3o para a independ\u00eancia e para a autonomia. Nem tudo correu bem, mas acabou bem. Conclu\u00ed o Liceu com boas notas e entrei na Universidade. A iniciativa \u00e9 filha da necessidade.<br \/>\nPortugal \u00e9 um dos pa\u00edses onde os filhos ficam mais tempo na depend\u00eancia dos pais. Depend\u00eancia econ\u00f3mica e sem ousadia para planificar e construir a autonomia. \u00c9 a gera\u00e7\u00e3o nim, n\u00e3o estudam nem trabalham. Muitas crian\u00e7as da gera\u00e7\u00e3o dos meus filhos, hoje a passar dos 40, parecem sofrer de abulia e permanecem \u201cno doce aconchego familiar\u201d, alguns licenciados e com boas oportunidades de trabalho. No mundo desregulado em que vivemos \u00e9 elevado o n\u00famero de jovens que sofrem de perturba\u00e7\u00f5es mentais com impacto no seu percurso escolar e profissional. Mas a mentalidade e a cultura em Portugal, na fam\u00edlia e na escola, contribuem muito para esta gera\u00e7\u00e3o nim. As crian\u00e7as e jovens n\u00e3o s\u00e3o educados para a independ\u00eancia e para a autonomia. Para qu\u00ea trabalhar se disp\u00f5em de tudo o que precisam? Estamos perante uma esp\u00e9cie de atrofia mental que lhes retira a capacidade de lutar.<br \/>\nH\u00e1 pais entre os 70 e 80, com bons n\u00edveis sociais e econ\u00f3micos, atormentados com a ideia de deixar os filhos na in\u00e9rcia que conduz \u00e0 pobreza. Nem os pais nem a escola estimulam a autonomia, a independ\u00eancia e a iniciativa dos jovens, pelo contr\u00e1rio, educam para a passividade, na feliz express\u00e3o de Jo\u00e3o Formosinho. Muitas crian\u00e7as e jovens sentem-se dispensados de pensar e agir porque h\u00e1 sempre quem pense e fa\u00e7a por eles.<br \/>\nNas minhas andan\u00e7as por outros pa\u00edses, sobretudo no norte da Europa, acordei para uma mentalidade totalmente diferente desta pac\u00edfica acomoda\u00e7\u00e3o lusitana. Numa escola secund\u00e1ria na Dinamarca, condado de Viborg, pude conhecer alunas finalistas, 18 anos, totalmente independentes dos pais, em termos de habita\u00e7\u00e3o e de sustentabilidade econ\u00f3mica. E fiquei escandalizado quando uma me disse que era respons\u00e1vel pela limpeza dos espa\u00e7os comuns num pr\u00e9dio de habita\u00e7\u00e3o e outra se ocupava da assist\u00eancia a um casal de idosos. O suficiente para terem a sua total independ\u00eancia em termos de resid\u00eancia e de finan\u00e7as. Trabalhavam e estudavam. Tenho duas filhas que teriam ent\u00e3o uma idade aproximada e pensei: se permitisse que seguissem os exemplos das duas jovens dinamarquesas, diriam que eu era um tirano e um imbecil.<br \/>\nTenho agora uma neta que fez todo o seu percurso escolar no Reino Unido, desde o pr\u00e9-escolar. Aos 18 anos candidatou-se \u00e0 Universidade e decidiu que era tempo de assumir a sua maioridade e de ter a sua vida aut\u00f3noma e independente. Reunia todas as condi\u00e7\u00f5es para escolher, mas excluiu as faculdades da sua \u00e1rea de resid\u00eancia. Ningu\u00e9m interferiu nas suas escolhas, ela estava preparada para assumir a sua independ\u00eancia e autonomia. \u00c9 rica e pode pagar! N\u00e3o, o estado assume a cultura de emancipa\u00e7\u00e3o dos filhos maiores de idade e concede a todos, sem exce\u00e7\u00e3o, os meios para definirem e seguirem o seu caminho. As bolsas (loans, empr\u00e9stimos reembols\u00e1veis) cobrem as despesas de alimenta\u00e7\u00e3o e de resid\u00eancia e refletem a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica dos pais, sendo de maior valor para os estudantes mais carenciados.<br \/>\nNo Reino Unido, como nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, para al\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o para a autonomia, existe a disponibilidade para o trabalho. O pr\u00f3prio mercado de trabalho conta com a disponibilidade dos estudantes e a universidade acompanha e recomenda que n\u00e3o ultrapassem as 15 horas semanais para n\u00e3o comprometer os estudos. Esta experi\u00eancia de trabalho tamb\u00e9m faz parte do crescimento e permite responder \u00e0s despesas pessoais dos estudantes. Trabalhando aos fins de semana num caf\u00e9-pastelaria, a minha neta juntou o suficiente para viajar nas f\u00e9rias de ver\u00e3o por essa europa fora, sem esquecer o pa\u00eds e a cidade onde nasceu. Independ\u00eancia e autonomia tamb\u00e9m \u00e9 isto, as pessoas aprenderem a gerir responsavelmente a sua vida pessoal e acad\u00e9mica.<br \/>\nTenho um jovem amigo m\u00e9dico que nasceu e cresceu em Coimbra at\u00e9 \u00e0 Universidade. Optou por fazer o curso em Lisboa, longe da fam\u00edlia, sem precisar de apoios do estado. Nos seus vinte e seis anos, tem total autonomia, total independ\u00eancia, enorme esp\u00edrito de iniciativa, total capacidade de movimentos por esse mundo fora. Se continuasse em casa, continuaria porventura \u201co menino da mam\u00e3\u201d, \u00e0 espera que lhe levasse o pequeno almo\u00e7o \u00e0 cama, como outros que conhe\u00e7o.<br \/>\nSair de casa aos 10 s\u00f3 em \u00faltima an\u00e1lise. Envolve riscos imprevis\u00edveis. Ficar em casa na maioridade envolve riscos maiores e bem previs\u00edveis: falta de autonomia e de iniciativa e uma total depend\u00eancia que conduzem a um envelhecimento precoce e a um fim triste.<br \/>\nQuando vim \u201cl\u00e1 das ber\u00e7as\u201d para a Universidade, anos 50-60 do s\u00e9culo passado, vim um pouco \u00e0 experi\u00eancia. Eu n\u00e3o sabia se as minhas despesas de alojamento, de alimenta\u00e7\u00e3o e acad\u00e9micas cabiam na magra economia familiar. Mas n\u00e3o parei enquanto n\u00e3o encontrei os caminhos da autonomia e independ\u00eancia. No 1\u00ba ano recorri \u00e0 Sociedade Filantr\u00f3pica e Acad\u00e9mica de Coimbra que me concedeu uma bolsa, a reembolsar depois do curso, que me permitiu frequentar a cantina da Universidade, ent\u00e3o no Pal\u00e1cio dos Grilos; e assegurou-me um quarto com excelentes condi\u00e7\u00f5es numa resid\u00eancia universit\u00e1ria, pelo pre\u00e7o de 180 escudos por m\u00eas. Foi a minha salva\u00e7\u00e3o. Nos anos seguintes, j\u00e1 familiarizado com o meio, assegurei a sustentabilidade jogando futebol e dando aulas ainda antes de concluir o curso.<br \/>\nO governo atual enfrenta dois problemas da maior gravidade para a economia do pa\u00eds: despreza milhares de estudantes que impede de frequentarem o ensino superior por incapacidade financeira e exporta muitos daqueles que forma para pa\u00edses que agradecem o b\u00f3nus e recebem quadros superiores em que n\u00e3o investiram um c\u00eantimo.<br \/>\nNeste momento est\u00e3o em curso investimentos importantes em novas resid\u00eancias universit\u00e1rias. Mais vale tarde que nunca. Mas as pol\u00edticas educativas dos \u00faltimos anos est\u00e3o orientadas para o empobrecimento: exportamos uma grande parte daqueles que formamos, ficamos com aqueles que n\u00e3o formamos. Exportamos o gr\u00e3o e ficamos com a palha.<\/p>\n<p><em>Pode ler a opini\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o impressa e digital do DI\u00c1RIO AS BEIRAS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o do professor\/Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":248854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2023,1170,2684],"class_list":["post-268932","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-educacao","tag-jose-afonso-baptista","tag-professor"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268932","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268932"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268932\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268932"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268932"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268932"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}