{"id":269744,"date":"2023-10-04T08:31:55","date_gmt":"2023-10-04T08:31:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=269744"},"modified":"2023-10-04T08:31:55","modified_gmt":"2023-10-04T08:31:55","slug":"opiniao-coimbra-e-a-arquitetura-a-cidade-e-a-faculdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-coimbra-e-a-arquitetura-a-cidade-e-a-faculdade\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Coimbra e a arquitetura. A cidade e a Faculdade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/jose-antonio-bandeirinha.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-250680\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/jose-antonio-bandeirinha.jpg\" alt=\"\" width=\"2500\" height=\"1308\" \/><\/a><\/p>\n<p>Uma cidade \u00e9 um ecossistema material, social e cultural complexo, que precisa de ser permanentemente cuidado e acarinhado, ora no confronto com a contemporaneidade e com a concomitante necessidade de inova\u00e7\u00e3o e de renova\u00e7\u00e3o, ora com o seu status cultural, que, no caso de Coimbra, tem mais de dois mil anos. Em Portugal, nos nossos dias, verifica-se uma realidade territorial altamente polarizada pelas duas metr\u00f3poles, Lisboa e Porto. O restante pa\u00eds, por seu lado, tem duas alternativas, ou definha perante a miseric\u00f3rdia pontual das elites metropolitanas, ou alimenta a esperan\u00e7a de se transformar num territ\u00f3rio submetropolitano, num sub\u00farbio, portanto.<br \/>\nPara continuar a ser a cidade que \u00e9, h\u00e1 j\u00e1 mais de dois mil\u00e9nios, Coimbra tem de interromper rapidamente o ciclo de suburbaniza\u00e7\u00e3o em que se envolveu nos \u00faltimos anos. Sim, Coimbra suburbanizou-se, deixou que os modelos territoriais suburbanos, hegem\u00f3nicos no pa\u00eds dito real, invadissem o seu centro e o transformassem gradualmente num sub\u00farbio. A cidade de h\u00e1 cinquenta anos atr\u00e1s estagnou e o que cresceu foram as extens\u00f5es suburbanas \u00e0 sua volta, que se diluem no tal espa\u00e7o submetropolitano. J\u00e1 dificilmente conseguimos perceber se os concelhos lim\u00edtrofes radiam \u00e0 volta de Coimbra, ou \u00e0 volta das metr\u00f3poles, como todo, ou quase todo, o territ\u00f3rio litoral.<br \/>\nEsse c\u00edrculo vicioso verifica-se no modo como a cidade se estende pelas antigas estradas secund\u00e1rias e desagua numa imensa \u201cmanta\u201d de loteamentos\/retalhos, desconexos e de baix\u00edssima densidade, portanto, altamente dispendiosos de recursos, econ\u00f3micos e ambientais. Ou ainda no modo como frequentemente vemos crescerem edif\u00edcios baixos, t\u00e9rreos ou de dois pisos, em locais centrais, locais onde, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, j\u00e1 se constru\u00eda densidade urbana forte, com cinco ou seis pisos de altura. Essa densidade deveria ser considerada patrim\u00f3nio, j\u00e1 tem muito mais de um s\u00e9culo e, contudo, est\u00e1 a ser delapidada, est\u00e1 a deixar de ser urbana.<br \/>\nA suburbaniza\u00e7\u00e3o de Coimbra est\u00e1 instalada e os instrumentos de controlo vigentes, ditos de planeamento, refor\u00e7am esse establishment. \u00c9 assim com o PDM, \u00e9 assim frequentemente tamb\u00e9m com as informa\u00e7\u00f5es que dimanam dos servi\u00e7os municipais. Como tal, este riqu\u00edssimo patrim\u00f3nio urbano vai-se evaporando. Demora a diluir-se, porque \u00e9 muito forte, mas j\u00e1 esteve mais longe de se extinguir.<br \/>\nCoimbra vai ter de reequacionar algumas das premissas instaladas nos seus modos de encarar o inexor\u00e1vel crescimento urbano. Vou-me focar nos mais importantes. Os instrumentos de planeamento em vigor s\u00e3o limitadores, abstratos e completamente inadequados \u00e0 realidade contempor\u00e2nea. O PDM, por exemplo, come\u00e7ou a ser feito h\u00e1 meio s\u00e9culo atr\u00e1s e herdou preceitos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos de meados do s\u00e9culo passado:<br \/>\n\u2014 \u00e9 abstracto, isto \u00e9: o que permite fazer pode ser bom, mas tamb\u00e9m pode ser muito mau, n\u00e3o se definem bases concretas, as previs\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o objectivas, faz-lhe falta mais arquitectura;<br \/>\n\u2014 o espa\u00e7o da sua implementa\u00e7\u00e3o assenta em princ\u00edpios de desconfian\u00e7a, ou seja, parte da ideia que \u201ctodas as propostas de constru\u00e7\u00e3o s\u00e3o m\u00e1s, as normas e os licenciamentos servem para as contrariar\u201d, faz-lhe falta mais confian\u00e7a na arquitectura;<br \/>\n\u2014 utiliza ainda conceitos obsoletos e profundamente anti-urbanos, como o de zonamento por actividades, quando hoje n\u00f3s sabemos que as cidades s\u00e3o misturas ricas de usos, s\u00e3o explos\u00f5es de variedade social e cultural, e que \u00e9 preciso entrar na escala da arquitectura.<br \/>\nEm Coimbra, \u00e9 raro haver planos de pormenor e os poucos que h\u00e1 s\u00e3o extens\u00f5es de escala do planeamento abstracto do s\u00e9culo passado. Em suma, falta acreditar num dado essencial, um dado no qual tantas cidades europeias acreditaram e acreditam, pelo menos desde a d\u00e9cada de 1990: a objectiva\u00e7\u00e3o da escala urbana, o projecto urbano, que \u00e9 essencial para a manuten\u00e7\u00e3o das cidades e dos seus ecossistemas urbanos. Ou seja, falta acreditar na import\u00e2ncia da arquitectura da cidade.<br \/>\nE aqui d\u00e1 entrada a segunda tem\u00e1tica referida no t\u00edtulo, falta tamb\u00e9m o reconhecimento da disciplina arquitect\u00f3nica pela Universidade de Coimbra, para que a cidade a reconhe\u00e7a em sintonia. Falta perceber que a grande capacidade de entretecer la\u00e7os de relacionamento com outras \u00e1reas do saber, que esta disciplina tem, depende da sua pr\u00f3pria personalidade, depende das suas pr\u00f3prias potencialidades de afirma\u00e7\u00e3o. Desde as tecnologias at\u00e9 \u00e0s humanidades, desde as ci\u00eancias sociais at\u00e9 \u00e0s f\u00edsicas, \u00e0s qu\u00edmicas e a tantas outras, desde a economia at\u00e9 \u00e0 biologia, essa capacidade est\u00e1 liminarmente condicionada \u00e0 sua autonomia, \u00e9 ela que lhe confere a capacidade de interven\u00e7\u00e3o na sociedade e, sobretudo, na cidade. \u00c9 por isso urgente cumprir aquilo que est\u00e1 estipulado como meta nos documentos fundacionais da instala\u00e7\u00e3o do curso de arquitectura na Universidade de Coimbra, h\u00e1 trinta e cinco anos atr\u00e1s, a constru\u00e7\u00e3o de uma escola aut\u00f3noma dedicada \u00e0 arquitectura e \u00e0s suas \u00e1reas de saber mais pr\u00f3ximas, a urban\u00edstica, os estudos sobre a cidade, o design. H\u00e1 que vencer definitivamente todas as resist\u00eancias que ainda se v\u00e3o manifestando contra esse des\u00edgnio inabal\u00e1vel, que, diga-se em abono da verdade, s\u00e3o cada vez menos.<br \/>\nFalta uma Faculdade de Arquitectura na Universidade de Coimbra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opini\u00e3o de Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":250680,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[2951,100],"class_list":["post-269744","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-antonio-bandeirinha","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/269744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=269744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/269744\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=269744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=269744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=269744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}