{"id":270047,"date":"2023-10-12T10:44:30","date_gmt":"2023-10-12T10:44:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.asbeiras.pt\/?p=270047"},"modified":"2023-10-12T10:44:30","modified_gmt":"2023-10-12T10:44:30","slug":"opiniao-o-funeral-da-esferografica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/opiniao-o-funeral-da-esferografica\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O funeral  da esferogr\u00e1fica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-248854\" src=\"https:\/\/www.asbeiras.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-afonso-baptista-opi.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"628\" \/><\/a><\/p>\n<p>O meu Professor de Paleografia na FLUC, Torcato de Sousa Soares, chegou um dia ligeiramente atrasado \u00e0 sala de aula e entrou com um pedido de desculpas: \u201cPe\u00e7o desculpa, esqueci-me do livro, mas eu digo a li\u00e7\u00e3o de cor\u201d. N\u00e3o se pretende diminuir a imagem do Professor, homem respeit\u00e1vel, mas apenas retratar um tempo em que o livro e a leitura eram ainda uma estrat\u00e9gia privilegiada de transmiss\u00e3o do saber.<br \/>\nEsta mem\u00f3ria da Paleografia e dos manuscritos do passado, inacess\u00edveis ao leitor comum, permite antever que os teclados de hoje, netos da Paleografia, poder\u00e3o ter uma exist\u00eancia ef\u00e9mera. Cam\u00f5es bem avisou: \u201cTodo o mundo \u00e9 composto de mudan\u00e7a\u2026Tomando sempre novas qualidades\u201d, o que deixa admitir que as novas tecnologias, convertendo o som em texto, poder\u00e3o dispensar os teclados e o papel.<br \/>\nNo obitu\u00e1rio da escola j\u00e1 repousam a pedra ou ard\u00f3sia, o ponteiro, o quadro preto, o tinteiro, o pr\u00f3prio giz, e em breve poder\u00e3o constar o papel, o l\u00e1pis, a caneta, a esferogr\u00e1fica, todos objetos em risco de extin\u00e7\u00e3o. Escrever poder\u00e1 tornar-se uma palavra do passado. Para qu\u00ea escrever se posso ditar ou falar o que uma m\u00e1quina automaticamente converte em texto? Para qu\u00ea matar a cabe\u00e7a com contas e tabuadas se a m\u00e1quina de calcular resolve em segundos?<br \/>\nO fim das receitas em papel livrou-nos da indecifr\u00e1vel escrita \u201chierogl\u00edfica\u201d dos m\u00e9dicos, agora com nova vida nas plataformas digitais do SNS. Um smartfone e um c\u00f3digo permitem-nos aceder \u00e0s prescri\u00e7\u00f5es, exames e medica\u00e7\u00e3o habitual. A escrita \u00e0 m\u00e3o tende a ser uma pr\u00e1tica de outros tempos. O teclado e o computador s\u00e3o o equipamento central no gabinete m\u00e9dico, sem papel, e nada garante que o teclado material tenha futuro.<br \/>\nEstamos na transi\u00e7\u00e3o global para o mundo digital, do computador e da internet. A escola, se quiser ultrapassar o seu atraso cr\u00f3nico, vai seguir o mesmo caminho e vai modernizar-se sem papel, porque \u00e9 mais simples, mais pr\u00e1tico e cumpre ao mesmo tempo uma exig\u00eancia urgente do ambiente. Bili\u00f5es de crian\u00e7as e jovens devastam diariamente vastas florestas para manter a escola em papel. A imprensa desloca-se para o online e os livros convertem-se ao formato e-book. \u00c9 o caminho incontorn\u00e1vel para o mundo global.<br \/>\nAs crian\u00e7as de hoje j\u00e1 nascem com os genes das tecnologias e do digital. Aos dois anos, com os deditos no ecr\u00e3 do smartfone, divertem-se a ver programas infantis. Os pais podem estar tranquilos porque elas ficam agarradas e n\u00e3o descolam. Assim acumulam experi\u00eancia e aos cinco anos j\u00e1 ensinam os av\u00f3s a lidar com as tecnologias.<br \/>\nNeste banho precoce de digital est\u00e3o criadas as motiva\u00e7\u00f5es e necessidades de aprender a ler e escrever, em teclado virtual ou material. Os deditos s\u00e3o treinados para clicar e n\u00e3o para pegar no l\u00e1pis ou na caneta. O papel e o livro n\u00e3o entram neste jogo, est\u00e1 tudo desenhado no tablet ou no smartfone, que re\u00fanem amigos distantes, com quem podem rir, brincar e trocar mensagens. E depois, h\u00e1 tantos jogos, can\u00e7\u00f5es e lengalengas que ensinam a conhecer as letras e algarismos, que desafiam a ler e a escrever, felizes, rindo e cantando.<br \/>\nA malvada pandemia foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para acelerar este novo modo de rela\u00e7\u00e3o. Quando a escola fecha as portas e impede a rela\u00e7\u00e3o direta e presencial, inviabiliza o saud\u00e1vel conv\u00edvio das crian\u00e7as, t\u00e3o enriquecedor, e a gest\u00e3o presencial dos processos de aprendizagem, fica obrigat\u00f3ria a rela\u00e7\u00e3o e conv\u00edvio \u00e0 dist\u00e2ncia. O digital e o online s\u00e3o a alternativa. As crian\u00e7as e jovens passam a ser mais atores e menos espectadores ou meros ouvintes. O smartfone tornou-se um objeto de bolso obrigat\u00f3rio e o tablet um instrumento de trabalho insubstitu\u00edvel.<br \/>\nA Unesco aprovou o digital e o online nas escolas, mas preservando o conv\u00edvio e a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas, entre educadores e educandos. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de rela\u00e7\u00e3o pessoal, se poss\u00edvel presencial. O melhor banho para o desenvolvimento das crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 o isolamento, \u00e9 o conv\u00edvio pessoal em presen\u00e7a. As crian\u00e7as aprendem umas com as outras.<br \/>\nA Covid19 foi o motor das novas tecnologias, do digital e do online. Cresceram juntos. Foi a pandemia que acelerou um mundo novo sem regresso ao passado. Causou por isso a maior surpresa a reviravolta na Su\u00e9cia, decretando o \u201cback-to-basics\u201d na escola, desligando o acesso ao digital, regressando \u00e0 aprendizagem da leitura e da escrita em papel e o regresso aos livros f\u00edsicos.<br \/>\nDiscutem-se muito as raz\u00f5es desta viragem num dos pa\u00edses com mais elevadas taxas de efic\u00e1cia na aprendizagem da leitura e da escrita. Se o governo argumenta com um ligeiro decl\u00ednio, que atribui mais ao digital que \u00e0 pandemia, n\u00e3o falta quem argumente que esta viragem se deve apenas ao saudosismo conservador de um governo de centro direita a regressar a pr\u00e1ticas contr\u00e1rias ao ambiente, \u00e0 crise clim\u00e1tica e ao digital. Tratar-se-ia de uma medida pol\u00edtica n\u00e3o suportada pela investiga\u00e7\u00e3o. O debate vai longo, ultrapassa as fronteiras da Su\u00e9cia e recomenda muita reflex\u00e3o para avaliar o impacto nas escolas e nas popula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA preocupa\u00e7\u00e3o maior n\u00e3o deve ser a das popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 imersas no digital, mas a daquelas que est\u00e3o privadas desse benef\u00edcio. O digital e o online s\u00e3o conquistas que importa ampliar e n\u00e3o coartar e em grande parte poder\u00e3o contribuir decisivamente para levar a escola a todos, onde quer que estejam. O problema n\u00e3o est\u00e1 em ter, est\u00e1 em n\u00e3o ter acesso \u00e0s tecnologias. A guerra n\u00e3o \u00e9 contra os livros, que continuaremos a usar online e em papel. Se guerra existe \u00e9 para tornar a escola um espa\u00e7o moderno, em sintonia com o mundo em que vivemos, e dispondo dos instrumentos inteligentes que nos permitem aprender melhor e com maior autonomia, vendo os alunos como construtores das suas aprendizagens e n\u00e3o como meros recetores do pensamento alheio. O melhor conhecimento n\u00e3o \u00e9 o que se recebe, \u00e9 o que se constr\u00f3i.<br \/>\nN\u00e3o haja ilus\u00f5es: ningu\u00e9m poder\u00e1 travar a for\u00e7a e o poder do digital e do online, que contam com um aliado fort\u00edssimo: o mercado. A falta e a fuga dos professores ser\u00e3o aqui \u00f3timos \u201caceleradores de part\u00edculas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Opiniao-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-270048\" src=\"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Opiniao-1.png\" alt=\"\" width=\"243\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Opiniao-1.png 243w, https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Opiniao-1-127x300.png 127w\" sizes=\"auto, (max-width: 243px) 100vw, 243px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Afonso Baptista<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":270048,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31,5],"tags":[1170,100],"class_list":["post-270047","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","category-opiniao","tag-jose-afonso-baptista","tag-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=270047"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/270047\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=270047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=270047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/critecnow.com\/diariobeiras\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=270047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}