A dor da separação que não desaparece com o tempo
A cura para a lepra foi descoberta na década de 1940, mas as medidas de proteção sociais realizadas na época até à década de 1970 destruíram várias famílias pelo Mundo fora. Brasil e Portugal não foram exceções.
A Organização Não Governamental (ONG) Morhan – Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (lepra), realizou ontem uma concentração no Instituto Justiça e Paz para alertar para os crimes cometidos no passado com as famílias de pessoas que sofreram de lepra.
Artur Custódio, representante da Morhan, vincou que a separação dos pais com lepra dos seus filhos é crime. “O que aconteceu durante décadas foi um crime. No Brasil, por exemplo, há mais de 14 mil filhos de pais com lepra que foram separados”, assumiu.
O representante revelou que não só a politica de separação se manteve, mesmo depois da cura ser revelada, como não houve políticas de recuperação das famílias.
“Não houve nenhuma política para voltar a juntar as famílias”, recordou nesta sessão,
O advogado brasileiro Carlos Nicodemos afirmou que o objetivo da ONG é devolver alguma justiça aos filhos dos pais que sofreram lepra.
“Temos que lembrar este crime para o podermos condenar. Houve muitas famílias que tiveram as suas histórias estragadas pelo Estado. Estes direitos violados devem ser compensados com pedidos de desculpas do Estado e com indemnizações financeiras”, reiterou.
Rovisco Pais participou no flagelo
Também em Portugal há quem tenha passado por este flagelo. Fátima Alves, de 61 anos, é uma dessas pessoas. Viveu a sua infância no preventório do Hospital Rovisco Pais, em Cantanhede, tendo sido afastada dos seus pais.
“Sou filha de pais com a doença e eu e os meus cinco irmãos fomos separados dos nossos pais na infância. Ainda não consegui fazer o luto da morte deles porque nem direito tenho aos seus documentos”, revelou.
Crianças sofreram maus tratos
O Hospital Rovisco Pais é conhecido nacionalmente por ter sido um centro de tratamento da lepra no século passado, mas Fátima Alves lembrou que havia também, no mesmo espaço, um preventório e uma creche para as crianças que eram separadas dos seus pais. O relato dessa vivência é traumático…
“O sofrimento é de tal ordem que há muitas pessoas que não conseguem falar disto. As crianças eram mal tratadas e tinham muitos castigos distintos, mas havia um que era para todos. Éramos obrigados a tomar banho numa banheira de água gelada e quem decidia quando levantávamos a cabeça de baixo da água eram as senhoras que tomavam conta de nós”, relatou.
Apesar de não haver registos oficiais de quantas crianças foram separadas dos pais em Portugal, no Rovisco Pais terão sido “com certeza mais de uma centena”.
Artur Custódio incentivou a que se crie uma associação em Portugal para lutar por estes direitos.


