Biblioteca Municipal de Coimbra: A guardiã do conhecimento, das palavras e da cultura
De acordo com dados divulgados pela Unesco em 2018, mais de 617 milhões de crianças e adolescentes em todo o Mundo não têm habilidades mínimas no que diz respeito à leitura, escrita e matemática. A mesma fonte esclarece que existiam ainda cerca de 750 milhões de jovens e adultos que não sabem ler nem escrever.
Se nos basearmos em Portugal, os dados são francamente positivos, mas, ainda assim, há uma parte dos portugueses que não sabe ler. Segundo dados dos Censos de 2021, somente 2,83% da população portuguesa era analfabeta. No entanto, já bem dentro da terceira década do século XXI, existem ainda, em Portugal, mais de 292 mil pessoas que não sabem ler.
A leitura é um dos princípios basilares para a transmissão e receção de conhecimento. Se recuarmos ao antigamente, um dos principais fatores para a tentativa de redução de analfabetismo na sociedade prendia-se com o papel fulcral que as bibliotecas tinham.
Biblioteca foi presente de Natal para a cidade
É neste prisma que nasce, em véspera de Natal de 1922, a Biblioteca Municipal de Coimbra. Destinada primariamente às classes populares, a sua criação veio acabar com a falta de um local destinado à leitura pública.
“No seu início, a biblioteca tinha um objetivo de serviço público. A ideia era instruir a população. A biblioteca recebia muitos empregados de comércio ou estudantes, por exemplo. A biblioteca cumpriu, desde início, a sua função de instrução pública”, revelou Francisco Queirós, vereador das Bibliotecas e Arquivos da Câmara Municipal de Coimbra.
Casa cultural tem várias valências
No início do século XX o grande destino da biblioteca estava bem definido, 100 anos volvidos, o serviço municipal expandiu-se e alargou as suas valências.
José Mário Branco dizia, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança. Tomando sempre, tomando sempre novas qualidades” e estas palavras fazem ainda mais sentido quando analisamos as atuais funções da biblioteca.
Nos dias de hoje, a Biblioteca Municipal de Coimbra contempla competências várias.
“É uma biblioteca que responde ao seu tempo. Tanto temos o livro antigo, no arquivo, como temos uma fonoteca, com um grande espólio de discos em vinil ou uma imagoteca. Criámos também o bibliomóvel para levarmos a biblioteca aos vários pontos do nosso concelho. Temos todas as valências para sermos uma verdadeira casa da leitura, uma casa da palavra”, vincou Francisco Queirós.
A Biblioteca Municipal de Coimbra tem, neste momento, mais de 850 mil títulos guardados, sendo que mais de 2.800 são em formato alternativo (Braille, audiolivro ou livros digitais). Para se compreender a diversidade que o espaço começa a ter em oferta cultural, desses 850 mil títulos, mais de 23 mil são discos de vinil, tendo ainda 9.422 CD’s.
Para o vereador é mais um sinal dos tempos.
“Hoje a biblioteca não pode ser só um local que guarda livros. A biblioteca tem que ter uma oferta cultural mais diversificada e para todas as idades. Esta é uma casa dinâmica, mas será cada vez mais dinâmica. A biblioteca, hoje em dia, vai muito para lá da simples cedência de livros”, assumiu o vereador.
Livro mantém importância
Ainda assim, Francisco Queirós não esquece o papel fulcral que os livros têm. Para o vereador, a importância destes nunca será substituída.
“As pessoas continuam a ler livros e a leitura em papel continua a ser fundamental. Jamais será substituída por outras plataformas possíveis”, vincou.
Dina de Sousa, chefe de Divisão da Biblioteca e Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, corroborou a ideia, lembrando o papel transformador que o livro pode ter nas pessoas.
“Um livro é o ponto de partida para um universo sem fim. A leitura faz-nos crescer enquanto pessoas, faz-nos sonhar”, reiterou.
Espaço de afetividade e de partilha
A chefe de Divisão da Biblioteca e Arquivo Histórico Municipal de Coimbra reiterou outra valência muito importante na sociedade.
“A biblioteca é realmente um espaço de espólio, mas, sobre o ponto vista humano, tentamos também cumprir com o fosso de cariz social. Nos nossos dias continuamos a combater a solidão. Se formos ao espaço infantil, conseguimos observar a questão pedagógica, mas também de afetividade e partilha. Muitas das vezes, a biblioteca tenta amenizar alguns problemas familiares presentes nas crianças”, disse.
O vereador concordou com o pensamento assumindo que a biblioteca é hoje um espaço inclusivo para todos.
“Hoje a biblioteca é muito frequentada por estudantes, mas é também muito visitada por crianças com os seus pais e avós. É um local para todos e com variadíssimas valências”, disse.
Ligação ao jardim da Sereia é para aumentar
O vereador anunciou também a vontade de abrir a biblioteca ao jardim da Sereia, apostando em atividades no exterior.
“Estamos aqui desde 1993, num local onde era o horto municipal. Temos o jardim da Sereia nas nossas costas. Vamos potenciar esta ligação com o jardim. Estão previstas algumas obras no local onde eram as cantinas da Universidade de Coimbra. A intenção é abrir a biblioteca ao jardim, colocando mesas lá fora. Queremos juntar um jardim histórico à biblioteca”, vincou.
Espaço começa a faltar
Aberta há 100 anos e com um grande arquivo, a Biblioteca Municipal de Coimbra começa a ter dificuldades em arrumar todo o seu património. Francisco Queirós alerta para a necessidade se arranjar mais espaço para esta casa da cultura.
“Num futuro breve deve-se começar a pensar em redimensionar a biblioteca. As suas várias valências fazem com que esta necessite de ser expandida”, disse.
O arquivo, a funcionar desde os anos 30 do século passado, é também um fator para o espaço começar a faltar.
“Os nossos depósitos começam a ser insuficientes. Nós temos, por exemplo, a única coleção integral do jornal Conimbricense”, informou.
Dina de Sousa ressalvou a dificuldade de suportar, neste momento, a elevada coleção dos jornais periódicos.
“Há um universo muito grande espólio. Ele vai crescendo, mas o espaço não. Os periódicos são uma preocupação a curto e a médio prazo”, revelou.
Valências saem das quatro portas
Das várias valências que a biblioteca tem hoje em dia, três delas aproximam a população aos livros. O bibliómovel, as oito bibliotecas anexas distribuídas pelas freguesias do concelho e a ligação com a rede de bibliotecas escolares são fundamentais para que a biblioteca saia das suas quatro portas e se aproxime dos cidadãos.
“O bibliomóvel representa a aproximação ao leitor. Estamos a possibilitar que o livro chegue a vários lugares do concelho. Se as pessoas não procuram o livro aqui na biblioteca, o livro vai ter às pessoas”, informa o vereador.
20 mil visitantes nas anexas e bibliomóvel
O peso que o bibliomóvel tem, juntamente com a rede das oito bibliotecas anexas, é cada vez maior. A chefe de Divisão da Biblioteca Municipal e do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra esclareceu que, dos 55 mil visitantes anuais, 20 mil são da rede anexa e do bibliomóvel.
Para os mais novos, a ligação à rede de bibliotecas escolares é também fundamental para que os jovens possam ter, nas suas bibliotecas escolares, livros em boas condições.
“Estamos também muito envolvidos com a rede de bibliotecas escolares. A biblioteca trabalha com as bibliotecas escolares para haver um tratamento dos livros para que os alunos tenham os livros em bom estado”, realçou ainda Dina de Sousa.
Comemorações extensas e amplas
Até ao final do ano de 2023, a Biblioteca Municipal de Coimbra tem agendada um conjunto de várias atividades para celebrar os 100 anos de atividade.
Francisco Queirós frisou a necessidade de o programa festivo ter várias artes associadas.
“Nas comemorações dos 100 anos de existência quisemos entrar pelas várias áreas, desde a música ao cinema”, disse.


