Carlos Miguel Júlio: “Concretizar o sonho que tinha aos 19 anos”
Costuma dizer-se que as crianças são muito cruéis. Alguma vez sentiu essa crueldade?
A pergunta “porque me treinas?”.
Sim. Ao início deve ser difícil que as crianças entendam como lhes vai explicar a usar as pernas, ou não?
Fizeram-me uma vez essa pergunta nestes dois anos que levo de treinador. Sorri e expliquei aos miúdos um pouco do meu percurso e fui–lhes mostrando como era possível ensiná-los a chutar com o peito do pé, com a parte lateral, ensiná-los a passar, por aí fora.
Geralmente faço isso com a mão. Explico que se inclinarem o corpo mais para trás a bola sobe, se inclinarem para a frente desce…
E dos adultos? Já teve alguma situação mais cruel neste mundo do futebol?
Por acaso não. Pelo menos à minha frente. Admito que já terão comentado o facto de estar num banco de suplentes uma pessoa de cadeira de rodas. Mas, sinceramente, não me preocupa nada disso. É difícil avançar, mas, depois de tomar uma decisão destas, nada nos derruba.
Não há barreiras para treinar. E para entrar nos estádios?
Geralmente todos os campos têm acessos para ambulâncias e há sempre uma forma de contornar.
Quando os balneários não estão adaptados para cadeiras de rodas faço a palestra no campo ou no banco de suplentes. Procuro um local onde eles estejam confortáveis, tenho a minha prancheta magnética e dou-lhes a palestra.
O que ainda lhe falta fazer?
Não tenho projetos por concretizar.
Foi sempre respondendo a convites…
Sim. Na verdade, não existe nada por fazer, a não ser que apareça um convite sério no futebol…
Sério, a que nível?
Se calhar falta-me concretizar o sonho que tinha aos 19 anos, agora noutra área. Mas chegar ao patamar profissional.
Se surgir esse convite vou pensar várias vezes.
É um sonho, não estou minimamente convicto que isso possa acontecer, mas, se acontecer, vou pensar se quero terminar esse capítulo dos 19 anos.
De resto, acho que fiz tudo o que queria. Estou muito bem comigo próprio. E, olhando para trás, acho que o percurso foi engraçado.
Tudo começou no Penelense, nos iniciados… e antes disso a jogar na rua. Depois fui jogar para o Podentes, na INATEL. Alguém me viu a jogar no INATEL com 16 anos e achou que eu não podia estar aqui.
E foi para o Mirandense?
Sim. Entrei para os juniores. No segundo ano já era capitão dos juniores e era chamado aos seniores e jogava pelos reservas.
No ano seguinte, já sénior, tive convites de vários clubes, mas foi decisão de casa continuar no Mirandense.
Que convites teve?
Tive do Famalicão, do Sertanense, do Condeixa, que queria subir ao nacional… e na altura pagava-se muito bem…


