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Carlos Miguel Júlio: “Tenho uma paixão enorme pela minha terra”

16 de às 10h27
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DB/Foto de Ana Catarina Ferreira

O Penelense acaba de fazer 90 anos mas não lhe falta pujança, atendendo ao meio em que está inserido, não é assim?
Penela é um concelho grande, mas com poucas pessoas. O Penelense é o único clube do concelho e temos muita dificuldade em arranjar crianças.

Não há mais nenhum clube no concelho?!
Federado não. Há karaté, mas mais nada.

E o Penelense, já teve outras modalidade?
Penso que só o karaté.

Quantos atletas têm neste momento?
Temos 60 nas camadas jovens: benjamins, infantis e juvenis.

E porque não têm os outros escalões?
Tivemos de juntar os iniciados com os juvenis para fazer uma equipa. E os juniores jogam nos seniores.

Mas prevê que, entretanto, conseguirão abrir mais equipas?
Com o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido esperamos ter as camadas jovens todas em breve.

Nos seniores é que já é impossível trabalhar só com a “prata da casa”…?
Sim, temos jogadores que vêm de fora. Mas também temos 10 jogadores que são do concelho, algo que não acontecia há muitos, muitos anos.

Esta direção também de “prata da casa”, mas nem todos andavam por cá, certo?
O Bruno (Nunes, vice-presidente) sempre jogou no Penelense e tem os títulos todos. Subiu à 3.ª Divisão…

E no seu caso, voltou com espírito de missão?
Sim, foi um convite por parte do Bruno. Ele é muito agarrado ao clube e achámos por bem constituir uma lista para submeter a sufrágio. Foi um projeto arrojado, porque o Penelense estava muito parado. Mas, passados cinco anos e tal, cá estamos.

Não foi a primeira vez que pegou numa instituição do concelho que estava num vazio diretivo. Aconteceu também assim na Filarmónica Penelense. Tinha alguma ligação?
Não, nunca fui músico. O meu pai pertencia à filarmónica e desafiaram-me a abraçar esse projeto.

Não consegue dizer que não a um desafio destes, não é?
Sim, gosto muito de Penela. Tenho uma paixão enorme pela minha terra.Também gosto muito do associativismo. Acho que é algo muito importante darmos algo de nós à população e não deixar morrer as poucas coisas que os concelhos têm. Se bem que acho que o associativismo tem cada vez mais tendência a acabar. As pessoas não se agarram.

Também já integrou projetos políticos, o mais recente foi nas últimas autárquicas… De onde lhe vem este apego à terra?
Penso que vem do berço. Os meus pais incutiram-me isto… O meu pai sempre fez parte do associativismo, o meu irmão também. Penso que isto vem de berço.São projetos que nos tiram muitas horas de descanso, mas é assim…

Ainda preside ao Penela Race Events Club?
Continuo a ser presidente do clube, apesar de não estar tanto no ativo.

O automobilismo é mais uma das suas paixões. É uma relação de amor- -ódio?
Surgiram pelo desafio. Tive o acidente com 19 anos e, na altura, estudava desporto no secundário. Depois do acidente tentei perceber se podia continuar a seguir o desporto, mas o INEF (Instituto Nacional de Educação Física) disse-me logo que era impossível dar aulas. Era esta a mentalidade que se vivia há 30 anos atrás. Como não conseguia praticar nenhum desporto, entre aspas, na altura a minha cabeça virou-se para os automóveis.

Com 19 anos, no início da década de 90, era um miúdo que, para além de jogar à bola, imagino que já tivesse a paixão pelos ralis…
Fazia oito horas de desporto por dia. Já era semi–profissional, no Mirandense. Estava na 2.ª Divisão Nacional… Sim, o equivalente à atual 2.ª Liga.

Imagino que não tenha sido uma altura fácil para um miúdo ter um choque com a realidade e perceber que o que tinha sonhado caía por terra…
Foi uma revolta muito grande. E daí surgiram os carros, que foi a forma de continuar a praticar e a ter alguma ligação ao desporto, que era a minha área.

… mas logo a fazer provas?
Não, começámos a fazer aqui uns passeios. Criámos o Raid Noturno (São Miguel) que ainda é o mais antigo do país, e que começou em 1999.

Ainda tem carros de ralis?
Tive vários, mas desisti. O último foi um Lancia Delta.

Imagino que não seria muito fácil fazer adaptações de carros naquela altura…
Também tive um Fiat 124 Sport Coupé que ajudei a reconstruir. Foram cinco anos de noites e noites, com rebarbadoras na mão, para o reconstruir.

E estar ao volante de um automóvel não lhe traz recordações?
Nunca tive isso. Acho que isto também foi importante para fechar esse capítulo e ultrapassar.

Mas, em relação ao futebol, ficou fechado numa gaveta durante muitos anos. Porquê?
Foi o processo mais difícil. Tive um acidente automóvel e podia-me trazer algum receio, mas o que me assustou foi o futebol.

No dia do acidente, ironicamente, saiu do treino, em Miranda do Corvo, para vir até Penela para ver um jogo de futebol.
É verdade. Eu fazia parte do grupo das bolas paradas e ficámos a bater livres e penáltis até mais tarde. A vir para casa aconteceu o acidente. E foi passado mais de um mês que me apercebi que nunca mais podia jogar à bola. E isso mexeu muito comigo. Depois dizem-me que nunca poderia ser professor de educação física e custou muito. Quis fechar esse capítulo e o futebol acabou para mim. Nunca mais vi jogos de futebol e tentei-me afastar o mais possível desta minha zona de conforto para não me magoar. Este processo foi reaberto quando o Bruno me convidou para ser presidente do Penelense.

E porque aceitou?
Aceitei porque era associativismo e achei que não seria muito diferente daquilo a que estava habituado. Mas o Bruno avisou-me que me ia assustar com algumas coisas. O balneário ainda era o mesmo que eu conhecia de quando era jogador, por exemplo.

No seu Facebook encontrei uma citação, de 2021, em que dizia o seguinte: “Acho que voltei a encontrar o meu mundo, quando saio de casa para ir treinar, vou feliz, vou com uma vontade enorme de fazer com o coração e ensinar aquilo que sempre adorei, jogar futebol…”. Reencontrou, e de que maneira, a sua paixão pelo futebol?
Sim. Foram muitos anos fora. Apareceu uma pandemia e, entretanto, o Bruno não só me incentivou como me inscreveu num curso de treinadores… Isto fez-me recordar tudo o que tinha estudado com os meus 19 anos.

Treina os mais pequenos?
Sim, os benjamins.

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